A alucinante e frustrante vida de um colecionador de álbuns de figurinhas

30 maio 2013

Quem em algum dia não aperreou pai, mãe e irmão mais velho afortunado pedindo dinheiro, nem que fossem umas míseras moedinhas ou trocados para comprar de bobagens? Eu fui um exemplar notório dessas coisas da infância. Meu ideal com essa grana toda? Figurinhas, muitas figurinhas. Figurinhas dos famosos álbuns que ofereciam prêmios: bolas, bonecas, carrinhos, damas, resta 1, xadrez, pega varetas, panelas de pressão, skates, e o sonho de consumo da minha época de menino: um vídeo-game ou uma bicicleta.

Sonhar não custa nada, pelo menos eu não contabilizava os milhões de moedas que investia nos pacotes de figurinhas, que vinham sagradamente com três unidades, e quando vinham quatro ou mais, sem serem repetidas, meu Deus!, era o mesmo que ganhar na loteria.

Quantos e quantos tambores de leite eu não descarreguei do saudoso Miguel Leiteiro; quantas e quantas vezes “desapiei” a cela de sua burra branca de nome Safira, esperando uma moedinha em troca do favor. Quantas garrafas e litros vazios eu não juntei, coloquei em um saco de nylon – o mesmo que servia para levar meus gatos de estimação para receberem a vacina contra raiva – e corria para o depósito de garrafas para vendê-los (os litros vazios, não os gatos) e voava para a bodega mais próxima para comprar um pacote de figurinhas.

A ansiedade, a emoção, o descontrole em pegar no pacote, sair chinelado de lá, torando a havaiana no caminho, remendando-a depois com um prego, para os pais não notarem e me darem uma surra de corda de nylon ou cinturão, e chegar em casa, pegar a cola ou a goma feita no fogão de lenha, abrir o álbum e ver quantas mais completarão as páginas, com o propósito de ganhar pelo menos um dos prêmios.

Toda vez que eu colava mais alguma figurinha no álbum era uma emoção; em compensação, toda vez que eu tirava figuras repetidas vinha uma frustração. Tinha delas que eram tão repetidas, que mesmo você querendo trocá-las com os amigos, 99% já as tinham, aos montes.

Mas enquanto crianças, somos sonhadores, não desistimos. Era preciso fazer mais favores, lavar caixas d´água, carregar sacolas de feira, pacotes de supermercado, pagar as contas dos vizinhos, descarregar mais tambores de leite, lavar ou pastorar carros, juntar mais litros e garrafas vazias. Vale tudo na vida de um colecionador inveterado. A bicicleta ou o vídeo-game estavam logo ali, separados por míseras figurinhas.

Ainda havia a exceção da regra, que era achar a figurinha premiada. O que era mais raro do que encontrar uma maleta cheia de dinheiro. E daí se fosse raro, eu achei em algumas ocasiões, ela, a premiada, me considerava o maior sortudo da terra. Sempre abocanhava um dos prêmios como um pega varetas (já tinha três), ou um resta 1. Mas e o meu sonho? Meu game, minha bike! Não tinha jeito, era impossível completar a sequencia de figurinhas dos prêmios mais famosos ou achar a premiada dos mesmos. Tudo não passava de enrolada, marmelada, de “pega o besta”. Eu nunca que quis acreditar nesse jogo sujo dos idealizadores dos álbuns, para mim tudo passava de especulação, de conversa fiada, de teoria da conspiração. Eu havia de ganhar a bike, eu havia de abocanhar o game, não era justo, tanto esforço para nada.

Certo dia me veio a pior das confirmações. Não queria nunca ter que vivenciar aquilo. Não é que eu achei uma figura premiada, que dava direito a uma panela de pressão. Certo que não era uma bicicleta “BMX”, nem um Atari, Nintendo ou Mega Drive. Era uma singela panela de pressão. Pô! Pensei cá com meus botões:

– Um belo presente para mãe, que tanto gastou seu suado dinheirinho com minhas campanhas “albumlóratras”.

Peguei, sem pestanejar a figurinha, o álbum e corri para a bodega do bairro. Chegando lá, mostrei ao dono. Antes eu havia espalhado para todos os conhecidos o meu feito.

– Tá aqui, seu moço, a figurinha premiada. Vim sacar meu prêmio, uma panela de pressão.

– Sinto muito guri, esse tipo de prêmio não tem por aqui. Se quiser, posso te dar um resta 1, um dominó, uma dama ou uma bola canarinho.

Relutei:

– Mas, e por que não posso levar uma panela de pressão? Se não tiver hoje, eu espero chegar.

– Vai esperar muito então. Já lhe ofereci outros prêmios. É pegar ou largar.

Pensei:

– Ele quer me enganar, vai ficar com a premiada e quando o pessoal dos prêmios chegarem, ele vai trocar pela panela.

Fui caminhando, olhando pra figurinha, tendo uma sensação de desânimo. Voltei para a bodega, segurei a figurinha pela última vez, olhei bem para ela, a lágrima quase sai:

– Seu moço, eu vou querer a “canarinho”.

Série: Doce Infância
Álisson Oliveira
ahalisson@gmail.com

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