A Batalha de Vingt-un Rosado em Defesa da Pesquisa de Petróleo na Bacia Potiguar

22 fev 2013

A Batalha de Vingt-un Rosado em Defesa da Pesquisa de Petróleo na Bacia Potiguar

Por José Romero Araújo Cardoso

Tendo concluído, em 1944, o curso de Agronomia na conceituada Escola Superior de Agricultura de Lavras (ESAL), no Estado de Minas Gerais, Vingt-un Rosado recebeu, no final deste ano, convocação para integrar o esforço de guerra, em declaração formal de beligerância da ditadura Vargas contra as forças do Eixo.

Não chegou a embarcar para a Itália, servindo no Quartel sediado nas cidades de Ouro Fino, São João Del Rey, Três Rios e Deodoro como soldado padioleiro de número 494. Fugas constantes em todos os finais de semana, a fim de se encontrar com a namorada de Lavras, de nome América Fernandes, a qual se tornou a companheira de toda existência, tornaram-se conhecidas do então Tenente Ivan de Sousa Mendes, mais tarde General de quatro estrelas, prefeito do Distrito Federal e Ministro do Governo José Sarney.

Prevenido pelo oficial para que ouvisse atentamente o Boletim da Companhia, rigorosamente divulgado às 16 horas, o soldado padioleiro Vingt-un Rosado tinha destaque na quarta parte do documento militar, sendo condenado a 15 dias de reclusão por se ausentar do Quartel sem permissão superior.

Encarcerado em um antigo armazém destinado a estocar café, não faltou espaço e condições de equilíbrio ao apaixonado soldado para produzir trabalho científico, pesquisar e descobrir coisas fantásticas, sobretudo referentes à geologia potiguar. Preparou importante monografia, devida ainda da fase discente em Lavras. Traz o título de Os Métodos de Reprodução em Zootecnia e Suas Fórmulas Matemáticas. Devido ao comportamento exemplar, Vingt-un Rosado só cumpriu oito dias da pena imposta pelos superiores militares.

Era comum os alunos da Escola Superior de Agricultura de Lavras solicitarem publicações ao Departamento Nacional de Produção Mineral. Vingt-un Rosado as recebia regularmente. Importante estudo geológico lhe foi entregue, no ano de 1945, por agrônomo de nome José Paulo de Matos, o qual versa, justamente, sobre as possibilidades de fontes energéticas fossilizadas no Brasil.

Quando de sua detenção por indisciplina militar, aproveitou para examinar, com mais ênfase, bibliografia de geologia, organizada por Dolores Iglesias, concentrando-se, especialmente, em dois artigos de autorias do norte-americano Jonh Casper Branner, presidente emérito da conceituada Universidade Stanford, Califórnia, EUA, e do mineiro Luciano Jacques de Moraes. Até então, Vingt-un desconhecia que em profundas camadas inferiores da bacia potiguar haviam previsto a possibilidade de existência do cobiçado ouro negro.

O trabalho de autoria de Jonh Casper Branner, publicado em fevereiro de 1922, último de sua brilhante produção na área geológica, visto ter falecido a primeiro de março do mesmo ano, intitula-se Possibilidade de Petróleo no Brasil. O cientista norte-americano admitia a existência de petróleo em Mossoró, Estado do Rio Grande do Norte, bem como na Bahia. Branner enfatizou que dos cinco dos horizontes geológicos que produzem óleo em outras partes do mundo, chamados Devoniano, Carbonífero, Permiano, Cretáceo e Terciário são encontrados no Brasil (In: ROSADO, 2000, p. 114). Quando se referiu ao período Terciário destacou que, nas formações costeiras, parece inteiramente possível que esta zona contém petróleo onde ela se alarga para o interior, como na Bahia, até 300 milhas, e Mossoró, no Estado do Rio Grande do Norte (Idem; Ibid.).
A bibliografia tinha outra indicação por título Ocorrência de Petróleo no Rio Grande do Norte, elaborado por Luciano Jacques de Moraes. Tratava-se de um artigo publicado em “Nossa Revista”, número sete, por solicitação dos estudantes da cidade de Ouro Preto (MG) (ROSADO, 2004, p. 118).

Nesse trabalho, o geólogo mineiro correlaciona a existência de petróleo no Cretáceo mexicano com as mesmas características geológicas observadas na bacia potiguar, embora frisando que a formação petrolífera mexicana pertence ao Cretáceo Inferior (Calcáreo do Tamasopo), enquanto a do Rio Grande do Norte é cretáceo Superior (Turoniano) (MORAIS. In: ROSADO, Idem, p. 122).

Além de enfatizar a Batalha da Cultura, empreendida concretamente a partir do ano de 1948, Vingt-un Rosado tornou-se um intransigente defensor da pesquisa petrolífera no Estado do Rio Grande do Norte e um entusiasta de sua exploração racional, constituindo profecias de promessas futuras de geração de emprego e renda para a população potiguar, bem como vantagens econômico-financeiras para o Estado do Rio Grande do Norte.

Quando do regresso ao Estado do Rio Grande do Norte, Vingt-un iniciou pesquisas sobre Louis Jacques Brunet, naturalista francês que percorreu o País, e, em especial o Nordeste Brasileiro, explorando minas através de comissão organizada pelo Governo Brasileiro, em meados do século XIX, estudando, obrigatoriamente, o quadro natural da região.

Vingt-un Rosado descobriu correspondências do Padre Florêncio Gomes de Oliveira a Brunet, na qual informava-lhe sobre prováveis ocorrências minerais na região oeste potiguar. Fora remetida da Vila do Apodi ao naturalista francês, aos 22 de fevereiro de 1854 (ROSADO, 2000, p. 57-58). Era a tentativa, em vão, do mossoroense de Monte Alegre de trazer Brunet para estudar as potencialidades minerais potiguares.

Em Extrato da Ata da Câmara de Vereadores do Apodi, datada de agosto de 1852, Vingt-un Rosado, assessorado pelo eminente cientista Antônio Campos e Silva, encontrou indicações frisando que:

“(…)em um dos recantos da lagoa desta vila, que está mais em contato com as substâncias minerais da serra tem-se coalhado, em alguns anos, uma substância betuminosa, inflamável e de boa luz, semelhante à cera em quantidade tal que se pode carregar carros dela (Idem, p. 62)”.

ROSADO (Idem, p. 27), frisa que:

“(…) a “substância betuminosa inflamável” referida na ata de 1852 poderia perfeitamente tratar-se de exsudação de óleo, fato não de todo desconhecido na Chapada do Apodi. Bancos fossilíferos com o odor de “querosene” são há muito conhecidos na região.”

O estilo era inconfundível, com certeza esse documento fora redigido pelo Padre Florêncio Gomes de Oliveira, geólogo amador cuja obstinação era estudar e aproveitar os recursos naturais da província norteriograndense. Em outro extrato de Ata da mesma Câmara, datada de seis de junho de 1853, repetem-se as mesmas preocupações socioeconômicas da anterior, primando pela mesma forma de escrever.

O patrono de Jerônimo Vingt-un Rosado Maia na Academia Norte-riograndense de Ciências é justamente o esforçado sacerdote. Em seu discurso de posse, Vingt-un Rosado relacionou a quatorze ciências (Paleontologia – Mineralogia – Geologia – Espeleologia – Geomorfologia – Climatologia – Entomologia (A Cochonila) – Geografia – Botânica Econômica – Fitogeografia – Fitogeografia e Zootecnia – Piscicultura – Folclore – Astronomia) o trabalho sério e importante realizado pelo Padre Florêncio Gomes de Oliveira.

O obstinado agrônomo, de saudosa memória, com plenas preocupações geológicas, descobriu ainda correspondência remetida da Vila do Apodi, datada de agosto de 1853, destinada ao Sr. Antônio Francisco Pereira de Carvalho, Presidente da província do Rio Grande, enfatizando aspectos do quadro natural da região.

O geólogo amador mossoroense que abraçou a liturgia católica como sacerdote, deixou escrito trabalho por título Geologia do Rio Mossoró, datado de doze de maio de 1861, embora nunca tenha sido publicado quando de sua conclusão. Foram remetidos exemplares ao Presidente da Província e à Sociedade da Indústria Nacional, a qual possuía um periódico. Vingt-un Rosado pesquisou na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, e na Biblioteca Pública Mário de Andrade, na capital paulista, não tendo encontrado em nenhum volume o trabalho do Padre Florêncio Gomes de Oliveira.

O cientista Antônio Campos e Silva demonstrou que a linguagem das Atas da Câmara de Vereadores de Apodi, nos anos de 1852 e 1853, era, de fato, a enfatizada no estudo geológico realizado pelo Padre Florêncio Gomes de Oliveira.

Vingt-un Rosado, a partir disso, passou a considerar o vigário mossoroense o pioneiro número um no que tange ao registro acerca da existência de petróleo na bacia Potiguar. Em 1894 Manoel Coriolano de Oliveira repetiu em artigo em Almanaque no Estado do Rio Grande do Sul a constatação a que chegou o Padre Florêncio Gomes de Oliveira (ROSADO, 2000).

Pesquisando edições antigas do jornal O Mossoroense, Vingt-un Rosado descobriu em exemplar datado de nove de fevereiro de 1908 que o farmacêutico Jerônimo Rosado havia constatado a existência de elaterita no açude de Caraúbas (RN), sugerindo a utilização desse combustível fóssil para iluminar a cidade. A elaterita é um betume elástico, enquanto fresco, endurecendo quando exposto aos fatores exógenos (Idem).

Outra constatação de Vingt-un Rosado foi que, até 1947, nenhum estudioso potiguar havia feito qualquer referência à possibilidade da existência de petróleo no Rio Grande do Norte. Homens lúcidos e dotados de extrema clarividência como Amaro Cavalcante, Tavares de Lyra, Juvenal Lamartine, José Augusto Bezerra de Medeiros, Cristóvão Dantas, Joaquim Inácio, Garibaldi Dantas e Manuel Dantas, de notável produção histórico-cultural e socioeconômica, ignoraram tal hipótese.

A primeira indicação veio em artigo do médico Paulo Fernandes, publicado por Vingt-un Rosado no jornal O Mossoroense, no mesmo ano de 1947, o qual versava sobre petróleo e água em Mossoró, fruto de importante pesquisa realizada pelo homem que governou a capital do oeste potiguar por menos de dois anos, granjeando, no entanto, status de estadista.

Logo depois, Vingt-un Rosado publicou no Boletim Bibliográfico, trabalho por título Sobre o Wildicat Mossoroense, o qual define como sendo a zona onde se supõe existir petróleo, por dados vagos ou informações superficiais, mas em que ainda não se provou a existência do combustível, caso em que se teria um “Proved Land” (Idem, p. 139).

Em 1965, em tom de angústia, Vingt-un Rosado escreveu em oito de abril que, antes desse ano, tinham sido perfurados apenas três poços de petróleo na Bacia Potiguar. O trabalho traz o título de Um Dia as Torres Voltarão ao Sagrado Chão de Mossoró (2004 a).

Reproduzindo Vingt-un: “Nos dias memoráveis de julho de 1960, em que Mossoró foi cérebro e coração da Geografia Nacional, um geomorfólogo eminente escreveu ligeiros apontamentos, inteiramente de improviso, sem recorrer a qualquer bibliografia.

Ao final, eles vão aqui publicados, sem consulta prévia do seu verdadeiro autor, porque o Poço Rodrigues Alves, na Volta, em território assuano, limítrofe do de Mossoró, nas proximidades do Trapiá, a menos de duas dezenas de quilômetros, com as suas emanações de gases combustíveis neste ano de 1965 elevou outra vez o clamor da gente mossoroense pela pesquisa do seu petróleo, em área há 05 anos indicada pelo autor.

Um dia as torres voltarão ao sagrado chão de Mossoró e dirão muito alto que John Casper Branner, o sábio de Stanford, e Luciano Jacques de Morais, o grande geólogo patrício, estavam certos, absolutamente certos quando há quarenta e três e trinta e nove anos, respectivamente, falaram do petróleo mossoroense.

Santa Luzia do Mossoró, Quinta-feira da Semana Santa, 1965”.

Até aquela data, os poços perfurados não passavam não passavam de meia dúzia. Hoje ultrapassam cinco mil.

Eis os apontamentos de Aziz Nacib Ab´Saber: “A bacia sedimentar costeira do Rio Grande do Norte apresenta uma série de condições estratigráficas e estruturais de importância para pesquisa de petróleo. Trata-se de uma bacia marginal, de tipo costeira, oriunda de uma subsistência ponderável efetuada nos fins do mesozóico, comportando camadas marinhas que alcançam mais de 1.000 metros na única perfuração profunda até hoje realizada (Grossos).

A despeito da presença de dobras epidérmicas nos estratos da bacia, ainda não foram feitos trabalhos de geologia de campo suficientes para constatar a presença de estruturas realmente favoráveis para sondagens possíveis. A perfuração realizada em Grossos foi de todo infeliz em sua locação já que coincide com um ponto no eixo de uma das modestas sinclinais da bacia. Ali em qualquer hipótese, não poderia haver condições para o encontro de óleo, a perfuração tendo valido tão somente para uma avaliação geral de estatigrafia local e do espessamento relativo do pacote de sedimentos regionais. De certa forma, entretanto, resta em aberto o velho problema das condições da bacia no que diz respeito às suas possibilidades oleigenas.

As fotografias aéreas disponíveis não adiantam informações concretas para a locação de estruturas favoráveis, porém são capazes de sugerir área bem melhores que a de Grossos, ou seja, áreas anticlinais discretas, situadas nos largos interflúvios que separam os vales dos rios epigênicos da região.

Alguns focos de drenagem radial existentes nos arredores de Mossoró (para SW e NW) são suficientes para sugerir melhores pesquisas estruturais de geologia de superfície na aludida bacia, como etapa inicial de uma nova pesquisa melhor orientada. Baseados em algumas combinações de fatos fisiográficos e geológicos, existem duas áreas que deveriam ser investigadas com particular atenção: a primeira, entre o baixo Jaguaribe e o Mossoró – Apodi (Área B), junto as encostas da chamada Serra de Mossoró; e , a segunda entre o Mossoró – Apodi e o Piranhas – Açu (Área B), próximo a Trapiá (chapada). Tais áreas de drenagem centrífugas locais sugerem a presença de discretas estruturas em forma de abóbada, dignas de alguns trabalhos de geologia e de prospecção geofísica. A locação de dois novos furos – ou pelo menos um – poderia de uma vez por todas imprimir um rumo mais seguro às controvérsias científicas a respeito  da possibilidade de ocorrência de óleo nesta importante área sedimentar costeira do NE brasileiro. Tratando-se de uma bacia cretácica marinha relativamente espessa, dotado de fácies marinha e de estruturas provavelmente espessadas por subsistência técnica, além do que, possivelmente complementada por alguma tectônica quebrável (regime de fossas), é uma área que precisa de uma revisão bem feita no setor de suas possibilidades oleígenas”.

Utilizamos o folheto número 64, da Série “B”, da Coleção Mossoroense: Duas áreas na Região de Mossoró de Interesse Para as Pesquisas de Petróleo, publicado em 1965.

A verdade é que as torres voltaram e se perguntassem a Vingt-un, se vivo fosse, se ele teria feito uma profecia, com certeza ele responderia: era apenas a vontade louca de que Mossoró tivesse petróleo.

A partir de 1979, os poços perfurados por classificação (Terra – Mar) foram modificando a paisagem da Bacia Potiguar. Em 1979 foram perfurados 31 poços, crescendo acentuadamente o número destes. Em 1990 foram perfurados 212 poços. Em 1958, quando do início da prospecção petrolífera, existiam apenas dois poços, com o da Gangorra figurando como o pioneiro. Hoje são quase 5.000 espalhados pela riquíssima bacia petrolífera potiguar (2004 a).

A batalha empreendida por Vingt-un Rosado em prol da exploração petrolífera no Estado do Rio Grande do Norte o faz um dos precursores da luta em defesa de nossas riquezas minerais, tantas vezes usurpadas em razão de interesses externos que norteiam parcela significativa de nossa dependência econômica.

Em 1979 o geólogo Francisco de Assis Melo objetivava perfurar poço no Hotel Thermas, intuindo encontrar água para abastecê-lo, projeto enfatizado quando do governo Tarcísio Maia. Petróleo em abundância foi jorrado, ao invés do precioso líquido para a região semiárida. Revelou-se, no entanto, a pista para o descobrimento do petróleo comercial (ROSADO, 2004 b). Vingt-un Rosado fez questão, ainda, de enfatizar que Francisco de Assis Melo, um dos eminentes geólogos do Rio Grande do Norte, foi o responsável pela descoberta do petróleo do Hotel Thermas, economicamente explorável, no ano de 1979 (Idem).

A Revista Scientific American Brazil, edição especial número 3, de dezembro de 2003, registra alguns nomes de pioneiros do petróleo no Brasil, sobretudo o nome de Monteiro Lobato.

Aziz Nacib Ab´Saber publicou um trabalho sob o título: Caminhos Transversais na Descoberta do Petróleo.

Ao publicá-lo naquele periódico, Aziz estava inscrevendo o nome de Vingt-un na saga dos que sonhavam com a possibilidade de sua ocorrência na Bacia Potiguar.

O leitor não pode avaliar a emoção de Vingt-un ao saber que os royalties do petróleo mossoroense que seriam entregues à Prefeitura de Mossoró eram superiores a dois milhões de reais em setembro de 2004.

Como se fosse num filme, ele recordou as suas pesquisas na cadeia da Companhia Escola de Engenharia, de Ouro Fino (MG), quando encontrou John Casper Branner (1922) e Luciano Jacques de Morais (1929).

Agora tem a palavra o maior geomorfólogo brasileiro, um dos seus 20 sábios: “Muitos episódios não pensados acontecem na vida de um pesquisador, que, para conhecer melhor seu país, fez andanças as mais diversas. Um deles que marcou minha vida foi a ajuda que dei a Vingt-un Rosado Maia, a fim de insistir na necessidade de voltar a pesquisar petróleo na Bacia Potiguar.

Aconteceu que houve uma reunião da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB) em Mossoró (RN). Na época, eu ensinava geomorfologia na UFRGS. E, devido ao conhecimento desse fato, Vingt-un se aproximou de mim para solicitar um relatório sobre as possibilidades petrolíferas na Bacia Potiguar. Expliquei a ele que eu, um simples professor de geomorfologia, não era geólogo e muito menos um especialista em petróleo. “Você está escondendo o leite”, me dizia ele.

Mas estava escrito que minha resistência iria ser vencida. Naquele tempo, as reuniões da AGB comportavam excursões de campo e eu fui designado para dirigir uma das equipes, desde Mossoró até a Serra de Santana, para observações geográficas e geomorfológicas, num itinerário que repetia parcialmente aquele feito pelo grande geólogo mineiro Luciano Jacques de Morais.

Acontece que eu tinha vindo do Rio Grande do Sul, terra de vento frio no inverno, para o sertão do Rio Grande do Norte, terra de forte calor e luminosidade. Daí ter me sentido um tanto mal pelo calor excessivo durante a viagem, desprevenido que estava em relação a qualquer bonezinho na cabeça. No regresso a Mossoró, Vingt-un obrigou-me a uma consulta médica com um seu parente competente, que apenas receitou uma aspirina e me liberou. No fim da tarde, em sua casa, enquanto [ dona ] América preparava o jantar, Vingt-un jogou um punhado de papel branco para que eu “pagasse a consulta”, auxiliando o Rio Grande do Norte a encontrar petróleo. Não tive mais jeito de me negar, pensando em qualquer coisa em benefício do Rio Grande do Norte. Solicitei, porém, ao meu hospedeiro, uma carta geológica do Estado, um relatório de Gilberto Osório de Andrade, e, se possível, o relato das perfurações prévias. Vingt-un mandou buscar todo o material solicitado na ESAM (Escola Superior de Agricultura de Mossoró), da qual era diretor.

Por duas horas, observei o mapa geológico e os relatórios, meditei o que poderia escrever. E, para felicidade minha e nossa, descobri a noroeste de Mossoró uma drenagem radial que documentava a existência de uma deformação local semi-dômica, passível de ser considerada para perfurações novas. Fiquei ciente de que as perfurações anteriores tinham sido feitas em lugares errados.

Dei o pequeno relatório a Vingt-un, solicitando a ele que, por uma questão ética e profissional, não assinasse o meu nome, podendo usar meus argumentos quando e como quisesse. E, assim foi enviado o pequeno trabalho para Brasília, a fim de pressionar para o reinício das perfurações. “Malandramente”, Vingt-un assinou o relatório com o nome de Antônio Natércio de Almeida (Antônio para Aziz; Natércio para Nacib; e Almeida para Ab´Saber). A Superintendência da Petrobras respondeu que, a despeito do aval do “grande geólogo Natércio”, não podia voltar a pesquisar no Rio Grande do Norte, porque agora seu interesse estava voltado para a Amazônia.

Entrementes, Vingt-un Rosado Maia não desistiu de sua idéia-chave, e numa oportunidade de procurar água subterrânea para um grande clube de campo, fez com que a perfuração atingisse mais do que 700 metros. E, assim, jorrou petróleo. Daí por diante, as autoridades passaram a concentrar sua atenção novamente na Bacia Potiguar e, em poucos anos, multiplicaram-se descobertas em pontos específicos da Chapada norte-riograndense, e em águas semiprofundas da plataforma continental regional, incluindo nisso o Ceará. Em certos momentos, a Bacia Potiguar se tornou a segunda maior produtora de petróleo depois da Bacia de Campos (RJ), ultrapassando as bacias do Recôncavo, de Alagoas, Sergipe e de Santos. O próximo capítulo da exploração petrolífera ficaria para a distante região da Amazônia Ocidental (Urucu e entorno).

Para completar a história do pequeno relatório de Antônio Natércio de Almeida, devo registrar que um dia encontrei uma Xerox do mesmo nas fichas de uma biblioteca geológica de uma faculdade do interior paulista. E soube que um pesquisador pretensioso usou a metodologia do meu pequeno trabalho para respaldar suas pesquisas sobre a Paulipetro, visando encontrar petróleo em São Paulo. Não se dá conta de que tais domos fizeram com que Monteiro Lobato dissesse que “Sempre há um diabásio no caminho da gente”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRANNER, Jonh Casper. Possibilidade de Petróleo no Brasil. In: ROSADO, Vingt-um. Minhas Memórias do Petróleo Mossoeroense. Mossoró/RN: Fundação Vingt-un Rosado/Fundação Guimarães Duque, 2000 (Série C, Coleção Mossoroense, Volume 1109)

MORAIS, Luciano Jacques de. Ocorrência de Petróleo no Rio Grande do Norte. In: ROSADO, Vingt-un. Minhas Memórias do Petróleo Mossoroense. Mossoró/RN: Fundação Vingt-un Rosado/Fundação Guimarães Duque, 2000 (Série C, Coleção Mossoroense, Volume 1109)

ROSADO, Vingt-un. Minhas Memórias do Petróleo Mossoroense. Mossoró/RN: Fundação Vingt-un Rosado/Fundação Guimarães Duque, 2000 (Série C, Coleção Mossoroense, Volume 1109)

______________. Um Dia as Torres Voltarão ao Sagrado Chão de Mossoró. Mossoró/RN: Fundação Vingt-un Rosado/Fundação Guimarães Duque, 2004 (Série B, Coleção Mossoroense, Número 2591)

______________. Um Pequeno Engano do Grande Aziz Nacib Ab´Saber. Mossoró/RN: Fundação Vingt-un Rosado/Fundação Guimarães Duque, 2000 (Série B, Coleção Mossoroense, Número 2596)

José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor-Adjunto IV do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Especialista em Geografia e Gestão Territorial e em Organização de Arquivos. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente. Contato: romero.cardoso@gmail.com.

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