A BELEZA DA LAMA NA PÔ-ÉTICA DE CARLOS GILDEMAR PONTES

13 jul 2017

Anchieta Pinheiro Pinto

Na poesia nacional, a Geração de 60 publicou as suas melhores obras entre os anos de 1975 e 1995 aproximadamente, espaço de tempo correspondente à “faixa de vigência” da citada Geração, período do “reconhecimento”, da “plenitude” e da “rendição” do trabalho artístico de seus principais escritores. Entre tantas, podemos citar as obras Vozes do Corpo (1981) de Fernando Py, Arte de Armar (1977), de Gilberto Mendonça Telles e Almanaque Poético de uma cidade do interior (1982), de Oswald Barroso. Na balança oscilante dos processos de produção literária, a poesia da Geração posterior, a Geração 80, nos oferece poucos poetas com obra analisada e reconhecida por críticos e simpatizantes da análise literária. Dentre esses poucos, destacamos aqui a obra de Carlos Gildemar Pontes a partir de Metafísica das Partes (1991) e de sua possível ligação com a poesia de Manuel Bandeira. Para alcançar tal foco, comecemos com uma breve percepção histórico-literária do que foi a Geração anterior.

A Geração 60 no Ceará, Estado onde o poeta nasceu e debutou, foi constituída majoritariamente pelo Grupo SIN, um grupo de escritores com nome derivado do sincretismo estético das Letras do período. Esse sincretismo estético conjugava-se consoante o desenvolvimento e a oscilação artística nacional, posto que, embora submetidos à doutrina do jugo imperialista dos governos militares e dos políticos biônicos escolhidos em eleições indiretas, os escritores das décadas de 1960 e 1970 produziram um rico acervo literário, com implicações de ordem social e cultural. Em vez do vazio de produção pretendido e imposto pela censura pós 1964, o que tivemos foi uma Literatura voltada para os anseios de liberdade, traduzidos pela exortação (e exorcização, em alguns casos) do conteúdo social-ideológico, lírico-romântico ou sensual-erótico, épiconacionalista ou universalista, e pelas convicções metaliterárias ou de doutrinamento poético. Uma Literatura que, principalmente no caso da poesia, desenvolveu-se num espaço clandestino, subterrâneo, minado, pois diante da censura e do autoritarismo “emergir significava arriscar a liberdade ou a vida. O negócio era esse mesmo: dar um recado curto e grosso e cair fora, para salvar a pele. E preparar outro”1 . A citação de Pedro Lyra, aqui devidamente referenciada, é oriunda da mesma obra onde o crítico, um estudioso contundente das décadas citadas, também disseca com criteriosa argúcia e etimologia os conceitos e as classificações categóricas de termos acima citados, quais sejam: o conceito de “geração”, as classificações de “faixa de vigência”, “estréia”, “reconhecimento”, “plenitude” e “rendição”.

No tocante ao contexto literário local, traduzindo a confluência de estilos e tendências que as várias fisionomias do sincretismo artístico mundial moldava, tivemos uma arte comunicativa e imediata, sem artifícios ou ambições aprofundadas, mas com o apetite de captar o envolvimento cúmplice do receptor. Sincretismo configurado, por exemplo, no lirismo universalista, de fundo cosmológico ou metafísico em Voz das Coisas (de Linhares Filho) questionando a problemática existencial sofrida por essa geração; no lirismo ostensivamente erotizado em Memória Corporal (de Roberto Pontes) e Minha Gravata Colorida (de Adriano Espínola), refletindo a liberação dos costumes provocada pela revolução sexual empreendida por essa geração (a ânsia pela liberdade em todos os campos, a implementação do uso da pílula e da camisinha de vênus); no lirismo de fundo místico em A Palavra e a Palavra (Horácio Dídimo) e em toda a obra de Linhares Filho; na poesia de participação social aventada pelo protesto de procedência regionalista, atento ao abandono do homem do interior em Almanaque Poético de uma cidade do interior (Oswald Barroso), Lições de Espaço, livro I (Roberto Pontes), Fala Favela (Adriano Espínola); no protesto fruto do enfrentamento direto da situação, em Poemas do Cárcere e da Liberdade (Oswald Barroso), em Verbo Encarnado (Roberto Pontes) e em outros a se projetarem nos anos oitenta; na explosão épica em Lições de Espaço (também de Roberto Pontes) ou mesmo nas estriagens de um possível épico no citado livro de Oswald Barroso e até na supra-realidade do cotidiano alucinado em Táxi (de Adriano Espínola); na convicção metapoética presente em quase todos os autores, mas melhor identificada nas obras de Pedro Lyra que, ao lado do piauiense Mário Faustino, compõe a vanguarda do doutrinamento estético da Geração em termos nacionais. Sincretismo configurado também na prosa, em por exemplo O Mundo de Flora (romance de Angela Gutiérrez) e em diversas outras obras que, tidas como romance, não se sustentam em uma classificação tradicional do gênero.

Amparada pelo reconhecimento que represa nas faixas geracionais de “vigência e confirmação”, a Geração 60 abre espaço para uma nova que se condensa num ecletismo talvez ainda mais abrangente, uma Geração que estréia a partir dos anos oitenta e que tem entre os seus mais férteis produtores (para citar só alguns nomes do nordeste e não transformar a citação em uma lista extensa) o nome dos escritores Carlos Emílio Corrêa Lima (contista, romancista), Luis Augusto Cassas (poeta maranhense), Pedro Salgueiro (contista), Luzilá Ferreira (romancista de pernambuco), Tércia Montenegro (contista), Walter Lacerda (poeta), e de inúmeros outros que se arriscam no ofício das letras nesses anos de composição e transitividade, incorporando o “performatismo de todas as manifestações estéticas vinculadas ao espetáculo”2 . Mas por enquanto, antes que se consolide uma fisionomia e uma crítica sobre essa “nova literatura”, cada lista e citação que fizermos é virtualmente injusta, pois só o tempo, com sua habilidade de alterar os contornos do destino, é o senhor da razão e da crítica que porventura ansiamos antecipar.

Carlos Gildemar e sua obra

O nome de Carlos Gildemar Pontes (CGP) se destaca, dentre outros, pela efetiva e instigante atuação a partir de Metafísica das Partes (1991) que, em matéria de poesia, encarna muito bem aquela proposta de Manuel Bandeira formulada no poema “Nova Poética” (Belo Belo, 1948) de se fazer uma poesia impregnada da “marca suja da vida”. Assim como o poeta de Libertinagem (1930), o cearense CGP também tem a sua poética livre de amarras e contingências, regulada somente pelas incongruências mundanas e pelo compromisso com a tensão linguística e contingente do discurso literário. É assim no poema “Pô-ética”: “não quero uma poesia polida / de black tie / desfilando nas academias / […] quero uma poesia / mundana / lida embriagadamente num cabaré”3 . A marca suja da vida também não se dilui com o travo orgânico do corporativismo urbano e coletivo, nem mesmo com a passividade parcimoniosa do espírito metropolitano. Para Gildemar, essa marca aparece na oposição entre campo e “Cidade”: o boi rumina no pasto enquanto o homen mastiga seus sonhos de concreto e poluição […] de longe um arranha-céu boceja imponente e o povo vai pela rua vivendo bovinamente sua solidão.

Em Manuel Bandeira, o desatino com o travo corporativo metropolitano algumas vezes é ascendido pela busca de refúgio em um beco, onde figura a estreiteza entre a sublimação estética e o sentimento poético: “que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha de horizonte? O que eu vejo é o beco”4 . O interessante é que, na tessitura do viés significativo do poema, CGP não assume compromisso exegético nem procura argumentar a favor de verdades titânicas ou demasiado largas. Ele simplesmente transmite uma mensagem, um todo significativo que não é totalitário oriundo de suas próprias entranhas, bem no fundo do ser poético, construindo imagens e reflexos de uma verdadeira transfiguração. Nesse contexto, aparece a beleza encantatória das construções. Vejamos isso em “A Solidão Cavalgada”: “vou pela noite assim vaga-lume / até cansar de acender o tédio / quando mais tarde alguns anos / meus pés mastigados de caminhos / decifrarem o segredo do luar / estarei pronto para cavalgar meu pégasos”. Uma cavalgada de sonhos que Bandeira também praticava, especialmente com a lua, musa dos poetas: “O que mais quero / O de que eu preciso / É de lua nova” (“Lua Nova”, em Opus 10, 1956). Ou ainda: “fatigado de mais-valia / gosto de ti ssim: / Coisa em si, / Satélite” (“Satélite”, em Estrela da Tarde, 1963). Entre os espasmos dessa marca mundana e sonhadora, reside também a engenhosa tarefa de articulação do léxico. E, muitas vezes, a eficácia da palavra cantada, murmurada pela expressividade do poeta, percorre um caminho tão sublime que atinge o real, tornando o criador construtor do mundo e das estruturas cognitivas que compõem o universo lógico da vida. Nessa perspectiva, a sublimação construída no percurso do citado caminho organiza-se pela supra-realidade linguística do ambiente místico, posto que o poeta mira na fragora e literária condição do divino, situação privilegiada e originada pela magia da palavra que, onírica, move céus e terras ciceroneando nos altares dos deuses o artista, o dominador das variantes estil´siticas empregadas, o senhor das escolhas do texto poético, o ser polifônico e humano. Desconstruindo o mito de Narciso com, como Bandeira em algumas de sus poesias (Bandeira se dizia à toa na vida, murmurNDO A angústia existencial e a recusa da auto-imagem em vários de seus poemas. Leiam “Pneumotórax” e outros poemas afins). O poeta do texto gildemariano também lembra as águas do rio que nuncA RETORNam, como pregava Heráclito de Éfeso: “retira seu retrato das águas de um rio / banha-se por um momento / vai com as águas para não mais voltar” (“Travessia”). É a especificidade da construção/desconstrução do mundo imaginpário/existencial, retomada em O Olhar de Narciso (1995), que nos remete às teorias de Jacques Derrida, merecendo então uma possível análise a que nos omitimos no momento, deixando para outros a sugestão. Da nossa parte, cabe-nos reafirmar a lembrança de Manuel Bandeira, presente na poesia de CGP. Em Belo Belo, numa passagem de prosa poética, um sujeito sai de casa alinhadíssimo, com o seu terno de brim branco engomadinho e, na primeira esquina, passa um caminhão sobre uma poça d’água, salpicando-lhe de lama. Vale a metáfora, para a nossa vida e para a poesia de CGP que se mira nela pois, para refletir as nódoas e manchas dessa vida incongruente, “o poema deve ser como a nódoa do brim / fazer o leitor satisfeito de se dar o desespero” (“Nova Poética”, em Belo Belo), a embriaguez lírica que nos ajuda em muito a conviver com as adversidades cotidianas. A arte tem essa função, imprescindível dizer. Ébrios após a nódoa nossa de cada dia, então “vamos beber uns goles de luar / e nos embriagarmos por toda a eternidade” (“Poema do Acaso ou Segredo do Crepúsculo”). Decerto, entre a lucidez forçada pela assombrosa rotina urbana e a inebriante verdade lúdica da criação estética, oxalá que o poeta Gildemar, assim como o Quiixote de Cervantes que também precisou de uma Mancha (geográfica, no caso) para nos inebriar, continue a sua saga humanística e luminosa, em busca de uma constante vitória da causa da liberdade e do amor.
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NOTAS BIBLIOGRÁFICAS:
1 LYRA, Pedro W. do Vale. Sincretismo: a poesia da Geração 60. Rio de Janeiro: Edições Topbooks, 1995. p. 24.
2 Idem. Ibidem. p. 159
3 Todas as poesias de Carlos Gildemar aqui citadas a partir desta vêm de Metafísica das Partes. Fortaleza: EDUFC,1991.
4 BANDEIRA, Manuel. Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Edições Nova Aguilar, 1983. p. 228. As poesias de Manuel Bandeira citadas adiante estão nesta edição.

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