A botija

31 jul 2013

botija

Você certamente já ouviu falar das famosas botijas, verdadeiros tesouros enterrados em algum cômodo ou quintal de propriedade antiga, principalmente na zona rural. Uma tarefa geralmente realizada por uma pessoa avarenta.

O termo avarento pode ser facilmente realocado para “amarrado” ou “mão de vaca”, o que significa dizer que essa pessoa não costumava gastar dinheiro nem outros valores, nem dividia nada com ninguém, nem que fossem parentes, limitando-se a juntar grandes quantias ou objetos de valor, os quais escondiam em lugar seguro e secreto, para que ninguém descobrisse.

Enterrar botijas era costumeiro, desde antigamente. Essa prática perdurou até algumas décadas atrás. Nem sei se alguém ainda pratica isso hoje em dia.

As histórias e maneiras de enterrar ou deixar as botijas para terceiros variam de acordo com a região. Uns dizem que a pessoa juntou o tesouro na expectativa de agraciar alguém no futuro com a oferta do “presente”, outros afirmam que a agonia de presentear com uma botija é devido o fato do avarento ter morrido e a sua alma ficar penando por causa da fortuna que ele escondeu e que precisa encontrar uma maneira de se livrar desse fardo para que, finalmente, seu espírito amaldiçoado pela avareza possa descansar em paz.

Botija, segundo o dicionário, é um vaso de grés de boca estreita, gargalo curto e com uma pequena asa.

Muitos são os casos de pessoas que disseram ter enriquecido graças a coragem de ter encontrado e arrancado uma botija.

Mas arrancar botijas não é uma tarefa das mais simples, porque existe todo um processo para se chegar até essa preciosidade. Primeiro a pessoa deve ser escolhida por quem elaborou e enterrou a botija. Segundo – e essa certamente é a parte mais complicada – o agraciado deve ser dotado de muita coragem, porque quem lhe oferece uma botija de presente, o faz quando já faleceu, resolvendo aparecer-lhe em sonho ou “visagem”. E mais, é o próprio defunto quem indica onde enterrou a botija. Geralmente pede sigilo a pessoa que supostamente vai desenterrá-la. Caso não se cumpra o desejo do falecido, o tal tesouro nunca será encontrado, ou então o que antes era riqueza, se transformará em cinzas ou simplesmente o pote estará vazio. Segundo a tradição oral, isso acontece como castigo imposto a pessoa que não cumpriu com o desejo do finado e não guardou sigilo sobre o acontecido.

Há algumas décadas, precisamente no ano de 1980, uma família sertaneja saiu da zona rural do município de Cachoeira dos Índios para a zona urbana de Cajazeiras. Na Rua Santo Antonio, mais precisamente no nº 57, essa família se instalou em uma residência antiga, pertencente a uma senhora conhecida por dona Mariquinha, que segundo alguns moradores, era uma pessoa fechada e que raramente era visitada por algum parente ou amigo. Essa dona Mariquinha era tida como avarenta, vindo a falecer e seu corpo foi velado em um caixão simples na sala da casa. Apenas alguns vizinhos e dois parentes participaram do velório.

Como não tinha filhos, os bens de dona Mariquinha foram divididos por outros membros da família. O que ninguém sabia era que ela havia enterrado uma botija no quintal, em um lugar que ficava próximo a casinha, como chamávamos os banheiros de antigamente, que ficavam fora da casa, geralmente no fundo do quintal.

Em certa noite chuvosa, a terceira filha mais velha do casal de agricultores, sonhou com a velha Mariquinha esticada em um caixão, bem no meio da sala. Ela se aproximou para ver a defunta e esta abriu os olhos, levantando-se em seguida. Tomada de susto, mesmo assim ela viu que a velha queria deixar-lhe um aviso. No sonho a finada Mariquinha mencionava que havia enterrado uma botija, e que pretendia dar-lhe de presente, mas com uma condição, que ela não revelasse a ninguém e que fosse sozinha até o quintal da casa à meia noite, guiada por ela.

Ela despertou muito assustada com aquela situação. Correu a acordar os pais e contar-lhes o sonho que havia tido com a antiga moradora da casa. Seu pai lamentou o relato, e disse a filha que se ela tivesse seguido o conselho da suposta aparição, a situação financeira da família teria mudado, já que ele cresceu ouvindo dos mais velhos que quem toma coragem e encara arrancar uma botija, vira rico. O curioso é que realmente próximo ao local indicado no sonho como sendo o lugar onde estaria o suposto tesouro, havia uma marca no concreto como se há algum tempo atrás algo tivesse sido enterrado ali e posteriormente cimentado novamente. Mesmo assim ninguém ousou arrebentar o lugar para ver se havia ou não a famosa botija de Mariquinha. Coisa de superstição mesmo.

Após três anos morando na velha residência, a família mudou-se para outro endereço. A velha casa foi comprada por um casal, que logo a pôs abaixo e reformou toda, e a botija do sonho, se existiu ou não, nunca foi encontrada.

Álisson Oliveira
ahalisson@gmail.com

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