A CANETA DE SARAH

13 jul 2017

caneta

Cavar é um ato construtivo. Cava-se para assentar as bases do lar que abriga e aconchega; cava-se para lançar a semente que faz germinar a planta donde advêm a flor e o fruto; cava-se em busca da fonte onde está a água que dá vida e purifica.

Cavar é também construir conhecimentos, suscitar provocações, forjar universos de sonho e poesia. Por conseguinte, escrever é um ato de cavar, sendo o escritor um cavador de histórias, um descobridor de tesouros, um arqueólogo da imaginação, capaz de trazer à tona mundos e realidades que, de outra forma, talvez nunca fossem desvelados.

Ao cavar a história de Alice, “a menina que gostava de ler”, e que “cavava com a caneta”, Sarah Correia se insere no rol daqueles (e daquelas) que não se contentam com o lugar-comum, cientes que são da existência de outros horizontes e outras possibilidades.

Alice é a garota determinada que reluta em se submeter ao círculo vicioso que a circunda, que a apoquenta, que a diminui. Para além desse campo fechado que sucumbe e consome aqueles que nele estão inseridos (tal qual aquela divindade da mitologia grega que matava e devora os próprios filhos), “a menina dos olhos grandes” deseja ser livre, quer dar vazão aos sonhos, zarpar nos braços da poesia, percorrer mundos através das letras, cavar histórias de vida, contemplar estrelas distantes, amar perdidamente, reviver lendas de velhos casarões.

De certa forma, Alice encarna o ideal de transformação alimentado por cada homem e mulher dessa imensa hinterlândia sertaneja, ainda não totalmente livres das “correntes enferrujadas” da sujeição que já dura séculos. Sujeição que se traduz em forma de analfabetismo, desemprego, êxodo, falta de oportunidades, e tantas outras mazelas que ainda afligem as populações interioranas.

Permeada de citações da boa literatura, além de ricamente contextualizada do ponto de vista histórico, político e social, não lhe faltando nem mesmo o traço da afirmação feminina, “A menina que cavava com a caneta” soa como uma belíssima metáfora da esperança. Ou, parafraseando a própria autora, “uma caixa cheia de esperança”. Esperança, inclusive, num sertão livre, povoado de livros e leitores.

Marcada pela leveza literária e por uma enorme profundidade simbólica, a obra de Sarah Correia cativa do início ao fim, levando o leitor a mergulhar num mundo em que o sonho e a poesia caminham lado-a-lado com a possibilidade de uma nova ordem social.

jose goncalves

José Gonçalves

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