A confraria das calçadas

27 jun 2017

A conversa na calçada ainda resiste. Nas cidades sertanejas, vizinhos possuem o costume de sentarem na calçada para palestrar nos períodos noturnos. Mesmo havendo TV com suas novelas, redes sociais e da violência crescente, esse hábito secular perdura.

Quando vou ao sertão costumo frequentar essas calçadas. É agradável e enriquecedor o bate-papo. Alguns ali se encontrarem com notebook, tabletes e celulares conectados nas redes sociais, mesmo assim, interagem com os demais presentes. Sai de tudo nessa confraria da calçada: política, futebol, religião, causos, fuxicos, histórias e estórias.

Quando passa alguém por ali, a turma não perdoa. É só o cidadão sumir no horizonte da rua que começam os comentários. Eita línguas de aço. Certo dia, passou um conhecido com a esposa. Caminhavam de mãos dadas pelo leito da rua e cumprimentaram a todos que estavam na calçada Quando foram sumindo na penumbra da noite, a turma começou o falatório. Um disse: Esse rapaz vive na igreja quase todo santo dia com a mulher, mas só tem a capa. Um outro, complementou: Verdade. É a reza na boca e a maldade no coração. Vive saltando de galho em galho. Numa eleição está apoiando um partido, na outra, dependendo da vantagem já está do outro lado.

Foi aí que um terceiro integrante da confraria disse: Nesse mundo tem muita gente desse tipo. Mas dos olhos de Deus ele não escapa. Cabra assim não tem amigos, mas bajuladores. Quando não tiver mais nada para oferecer, fica esquecido na solidão do ocaso.

Tem grupos que o falatório é tão grande, que ninguém quer sair primeiro para não ser objeto das línguas de quem fica. Eita povo danado. Falam dos outros e esquecem de si.

Onaldo Queiroga
onaldorqueiroga@gmail.com

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