A Ditadura Militar nas reflexões de um sacerdote católico

31 mar 2017

padre manoel vieira guimaraes
Padre Manoel Vieira Guimarães

Fico entre triste e assustado quando vejo alguém defender a Ditadura Militar que se instalou no Brasil em 1964, com o simplório argumento de que naquela época não havia corrupção, nem roubo… Que o Brasil vivia às mil maravilhas, que até hoje não há ninguém prejudicado pelos “doces e gentis” militares e desejam ardentemente sua volta.

Bom, só para refrescar a memória deste povo e a título de contribuição para a reflexão de quem quiser:

1. Havia roubo e corrupção, sim. Só que não eram (e não poderiam ser) divulgados porque a Imprensa estava sob censura.

2. O “milagre econômico” foi uma farsa e todo mundo sabe disso.

3. A Educação talvez tenha sido o setor mais prejudicado. O grande Pedagogo pernambucano Paulo Freire, admirado e reconhecido no mundo todo, foi preso e depois exilado, por ter criado um método eficaz de alfabetização de adultos.

4. A cultura foi castrada… grandes nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque de Hollanda, entre outros, foram para o Exílio.

5. Todos os espetáculos eram censurados. Em 1974 eu estava em cartaz no Rio de Janeiro com a peça “A motocicleta na névoa”, com o Grupo Teia e nas vésperas da estreia tivemos que apresentar o espetáculo para os censores, que cortaram várias falas consideradas por eles como subversivas. Resultado: o texto foi prejudicado/mutilado e já não havia mais tempo para se consertar. Tivemos que apresentar assim mesmo.

6. Muitas pessoas foram presas injustamente e barbaramente torturadas. Colocaram uma freira nua, numa cela podre e puseram sobre o corpo dela: lacraias, escorpiões e cobras. O irmão de uma amiga minha que fazia Odontologia em Natal, foi preso, amarrado com correntes e levado de avião para Recife. Em alto mar jogaram-no amarrado. Em Recife Cajá, da Pastoral da Juventude do Meio Popular foi preso e brutalmente torturado… Na mesma cidade Pe. Henrique, que também trabalhava com jovens, foi preso, torturado e morto. Só para citar alguns casos que eu conheci de perto. Aqui em Mossoró tivemos o caso emblemático de Anatália Melo. Quem quiser saber de mais casos como estes procure ler o Dossiê “Brasil Nunca Mais”, organizado pelo Cardeal D. Evaristo Arns, de S. Paulo.

7. E o que dizer das mães e pais que até hoje não sabem do paradeiro dos seus filhos, cujos corpos “sumiram”?

São tantas e tão desumanas as crueldades praticadas por eles que fico besta quando querem inocentá-los. Os ditadores podem até ter saído do poder pobres… mas isso não os inocenta dos outros crimes que praticaram: prisões arbitrárias, torturas e mortes de inúmeros inocentes.

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