A estação da flor

17 jun 2013

A ESTAÇÃO DA FLOR

Florbela, esse era o seu nome… Florbela… Bela Flor… Flor… Bela… Nome apropriado a uma mulher de boca vermelha e carnuda. Uma mulher, uma flor. Singular, bela, delicada, cabelos e alma soltos ao vento, na minha estação. Sim, a Flor única da estação de trens e das minhas já cansadas e sofridas retinas.

Diferentemente das outras flores, Florbela abria-se em beleza e perfume somente às dezessete e trinta, na estação de trens, na minha estação. Nesse horário a estação ganhava luz, esplendor, beleza e perfume. As minhas retinas também. Quando ela vinha à estação, era sempre nesse horário. A Flor reservada, distante, misteriosa e exótica vinha à estação como quem cumpria um ritual. Descobri seu nome por acaso.

Em uma dessas tardes em que ela surgia na estação, sempre com o semblante distante, alheio, e com uma estranha expressão no olhar. Um olhar de menino perdido na estrada, em uma atitude que a mantinha isolada, solitária em meio à multidão, um homem jovem, esguio, bonito, chega, apressando, aflito, à procura de alguém.

Posiciona-se em meio à multidão. Olha, preocupado, em todas às direções. O olhar detém-se nas costas da bela e enigmática mulher, na Flor da estação. Grita, agoniado o seu nome: Florbela! Nada. Nenhuma reação da parte dela. Ele grita mais forte ainda: Florbela!… Florbela!

Ela vira-se sem pressa alguma. O homem corre em sua direção e a abraça fortemente. Choram copiosamente. Depois conversam, em pé, demoradamente. Abraçados, lentamente, deixam a estação. Quem seria aquele homem… Pareciam tão próximos. Namorados… Amantes. Lembro-me do batom vermelho, na boca carnuda. Vermelho como a flor do amor, e sinto ciúmes.

Florbela, a flor do amor… Sensual… Erótica… Fascinante…Seu cheiro é inconfundível. Exótico, excêntrico. Seus olhos refletiam uma alma boa, uma alma bela, uma alma triste. A mulher… Seus mistérios…Um Enigma… Minha secreta, silenciosa paixão. Por isso, nas últimas semanas a estação estava triste. Fazia muitos dias que ela não aparecia. A estação ficava, assim, vazia, sem sua presença. Sem ela a estação era um jardim sem flor, sem sol, sem perfume. A estação não era a minha, sem a Flor.

Inesperadamente, no final da tarde da sexta-feira, a Flor apareceu. Lá estava ela, em pé, solitária, em meio à multidão. Como de costume, aproximo-me o mais que posso, mas continuo incógnita, despercebido. Ela não me ver, não me enxerga. Percebo sua palidez, sua postura curvada, seus olhos opacos. Olhos por que passam nobres cortejos, uma dor, arcarias e claustros.

A flor da estação murchara. A vida não a tem regado, penso. Aproximo-me um pouco mais, finjo tropeçar e esbarro nela. Florbela nem percebe meu leve empurrão. Penso em outra maneira de abordá-la, de iniciar um diálogo. Olho-a insistentemente, mas ela não se apercebe. A flor está totalmente retraída.

O trem chega. Subimos juntos. Vamos agora, lado a lado, dentro do vagão do trem, os braços quase que se tocando. Sinto seu exótico perfume, que tão de perto assim, penetra meu ser. Fico embriagado, atordoado. Fecho os olhos por alguns instantes. Tento recuperar a lucidez. Quando os abro, à procura de Florbela, não a vejo mais. Não está ao meu lado. Olho, atentamente todo o vagão. Avanço em direção à saída. Olho os assentos cuidadosamente. Todos estão ocupados, mas ela não está lá.

A parada está próxima, tento encontrá-la antes do tumulto da descida. Minha busca é em vão. De repente, descubro um assento vago, próximo à janela. Sento-me. Quando o trem parte, eu a vejo. Ela está tão próxima às linhas do trem, que temo um acidente. O que fazia ali, porque se expôs ao perigo assim.

Finalmente a minha parada. Já é noite. Em casa, como de costume preparo meu café, esquento o leite, faço o sanduíche. Após o lanche vou dormir. O sono é inquieto. Sonho com a estação, com os trens. Sonho com Florbela, com sua boca vermelha, tinta de sangue.

Na manhã do sábado, na banca de revistas da estação ferroviária, os jornais estampam: “Após três tentativas de suicídio, Florbela morre.”

Vânia Rocha

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