A FICÇÃO DE JOSÉ LINS DO REGO

8 jul 2016

Marinalva Freire da Silva
Membro da UBE-PB

A ficção de José Lins do Rego é memorialista. Ele reconstrói o mundo onde nasceu e se criou, as histórias que ouviu na infância e a tradição da qual foi testemunha. Por isto, seus livros nascem dos problemas gerados por um sistema patriarcal, escravocrata e latifundiário em decadência.

Segundo Wilson Martins, crítico literário brasileiro, José Lins do Rego sempre esteve preso ao passado. Sua obra é sombria e pessimista, sem muita psicologia, prende o leitor por sua linguagem própria de um contador de histórias.

A obra de José Lins do Rego é um retrato fiel de uma época, e uma corrente de pensamentos dentro da atividade criativa da ficção – nela se nota claramente o reflexo do mundo patriarcal rural, pois o romancista teve uma infância livre de menino de engenho, título de sua primeira obra.

Menino de Engenho, romance escrito em Maceió , Alagoas, constitui a chave de uma obra revestida de importância fundamental na história do romance brasileiro moderno. Trata–se de uma obra permeada de uma realidade profunda, retrata fielmente o que ocorre na sociedade rural e nas cidades do norte do Brasil, alheia à pureza de artifício da literatura corrente. É um livro de primeira ordem, claro, no qual o autor se expressa com uma sensibilidade muito humana. Ninguém como ele se mostrou tão dotado para revelar a verdade do povo humilde do plantio da cana.

José Lins do Rego inseriu em seus livros seres que saíram de sua vida como se tivessem saído das entranhas humanas. Essa identificação com suas personagens implica a ausência de demagogia nos romances do citado escritor.

Escritor brasileiro algum é visto com o calor, a saúde, a força de vida que se sentem nos romances de José Lins do Rego. Nenhum romancista brasileiro aparece até o Autor de Menino de Engenho com o poder de encarnar–se tão desesperadamente em suas personagens, levando-lhes toda a agonia de seus nervos.

José Lins do Rego é destes que não pensam pela felicidade de pensar, mas pela felicidade de viver. Este grande sensualista tem a obsessão da vida como tem o pesadelo da morte, tudo o que pode negar a vida. Ele é destes autores facilmente emotivos, razão pela qual os fatos, as recordações, os sentimentos o oprimem por todos os lados e o conduzem, muitas vezes, como uma vertigem.

Menino de Engenho é um romance que não se aconselha a todos os leitores. É um livro de uma clareza tão profunda que talvez choque as pessoas tímidas e sensíveis. Trata–se da história exata e natural de um menino órfão de pai e mãe; naturalmente, criado sem poderosos freios de repressão familiar. Os anos de infância no Engenho Corredor iam construir uma base sobre a qual se plantaria toda a vida do homem, e de onde germinariam as obras do escritor. Perdendo sua mãe na infância, a terra boa da várzea do rio Paraíba transformou–se em fonte de inspiração. Ele teve no Engenho Corredor a vida solta de uma criança criada pela Mãe Terra, pela lei da natureza. Daí ter se desenvolvido essa união com a terra que o romancista manteve para sempre preso ao país de sua infância. Faltando–lhe a ternura materna, que é a única terra firme onde pisamos na infância, o Engenho Corredor passou a representar a porção do mundo fora do qual José Lins do Rego estaria frequentemente divagando, sentindo–se sempre como se lhe faltasse terra para os pés. É provável que o autor não seja culpado dessa autobiografia que faz desde o momento em que nasceu até os doze anos de idade, Nesse tempo viu muitas coisas, aprendeu o bem e o mal, e adquiriu uma precocidade terrível sobre os assuntos proibidos, entretanto, inevitáveis. A morte de sua mãe lhe trouxe o sentimento de abandono, apesar das grandezas de seu avô. Acariciado pela tia Maria, experimenta com o casamento desta o golpe profundo de uma segunda perda. A separação violenta de sua segunda mãe marcou um complexo de abandono. Mais tarde, seria a tia Naninha quem lhe reservaria os dias mais desesperados, pois quando estava acostumando-se à nova união com esta, ela se compromete em casamento, e outro choque o afeta pela terceira vez. O noivo como um ladrão lhe rouba sem piedade sua terceira mãe. Assim, o neto do Coronel José Paulino, de vida tão solta, seria enviado ao colégio como quem fora enviado a um orfanato. Não havia muita diferença entre o Instituto Nossa Senhora do Carmo, de Itabaiana e uma escola correcional.

A hora no cativeiro do Colégio o fazia lembrar-se dos dias de vida solta pelo canavial. A água fria do rio, o caminho assombrado, as horas de lazer com os colegas do Engenho Corredor, as árvores frutíferas, os animais preferidos, tudo ficava para trás. O menino se vicia e conhece as experiências da rua, aos treze anos, quando ingressa no Colégio.
O romance transcorre na zona fronteiriça entre Pernambuco e Paraíba, conforme comprovam as paisagens e a vida dos engenhos de açúcar.

Não podemos esquecer a mulata Zefa Cajá, que perverteu o menino, ela o buscava lubricamente sob o impulso violento do sexo. Analisadas estas e outras cenas, observamos que o realismo da obra pode não agradar a algumas pessoas que amam a verdade bonita e camuflada. Esta obra retrata a vida como ela é, por isto prende a atenção do leitor. O autor é um homem novo, um escritor repleto de talento, conhecedor de sua arte.

O menino, personagem principal do romance, nos dá a ideia de uma criança abandonada, que tem como mãe a terra que o viu crescer e o canavial. Toda a gente do plantio da cana gostava muito dele e lhe tinham carinho porque ele reuniu para si todas as pessoas do Engenho Corredor e soube fazer de cada personagem um amigo fiel e dedicado.

A segunda obra do ciclo açucareiro é Doidinho, muito semelhante ao Ateneu de Raul Pompéia. Nesta José Lins do Rego narra que seu avô possuía nove engenhos de açúcar, oito dos quais se situavam em zonas muito férteis, de várzeas extensas que se perdiam no vale do rio Paraíba. Esta obra retrata o difícil, inquieto, precoce, nervoso, menino dotado de uma vontade feita mais de impulsos que de costumes, menino que não guarda tarefa alguma de aluno aplicado, sempre estava distante nas aulas, daí seus cadernos serem incompletos tanto quanto a afetividade recebida.

Doidinho já assinala a tendência do romancista para a penetração no mistério pessoal de suas personagens, já não se trata da vida livre do canavial – são companheiros de Carlinhos, personagem principal, todos os garotos como ele do Colégio.

A linguagem é um pouco diferente da obra anterior; há exploração do diálogo frequente, possui aquela vibração interior marcante que extraiu da literatura oral e a amplia com um léxico agradável, espontâneo, natural, em preocupação de originalidade.

Banguê, terceira obra do autor em pauta. Narra com muita clareza o drama do Engenho Banguê. Nela o autor encontra um ponto comum entre si e a realidade perdida, não é capaz de conceber um futuro arrastado para um mundo melhor no qual sabia viver. Poucos romances são tão comunicativos como os de José Lins do Rego, reais, fáceis, voltando às recordações sempre vivas de um avô muito austero, que se faz respeitar por toda região. As palavras de carinho quando se dirigia à sua tão querida tia Maria e a seus amores com Maria Alice, bem como seus primeiros beijos, tudo isto nos relata o autor com uma simplicidade singular.

A personagem mais importante descrita pelo autor com grande ênfase é o Velho José Paulino, seu avô, a quem amava muito. Ele era uma pessoa simples, austera, um homem forte, com oitenta anos de idade, que passou toda a vida despertando muito cedo porque tudo dependia dele.

Semelhante aos demais livros de José Lins do Rego, Banguê
Fala de seu tempo de criança, de sua vida simples e feliz na velha do rio Paraíba, vagando e participando da vida de engenho açucareiro, tão cheia de surpresas.

Toda obra de José Lins do Rego é a confissão de seu temperamento ardente de homem sensual, em quem uma força verdadeiramente virgem de saúde vibrava dentro dele como uma febre a seus sentidos. Ele mistura esse temperamento ardente à sua gente simples do campo, essa gente rude e boa que convive com ele e quase forma parte de uma mesma família.

O autor de Banguê tem o poder de encarnar-se em seus personagens, levando até eles toda a vibração de seu temperamento. O clímax desta obra é a morte do Velho José Paulino. Foi quando chegou um portador de Banguê à gameleira e o encontrou morto. O autor nos conta como chegou ao Santa Rosa e todo o ocorrido na Casa Grande.”Se acabou o melhor homem da várzea”, era o que toda gente dizia, junto ao caixão do velho José Paulino. Jamais lhe saíra da memória aquela confusão e a dor sincera daquela gente. Acompanhou aquela marcha morosa até o cemitério; chegando lá, quando ouviu, por fim, o ruído de pás, a queda, pensou consigo: plantaram meu avô.

Banguê assinala a decadência com os rasgos do castigo e da fatalidade O enterro do Coronel José Paulino é simbólico: com ele são sepultados todos os sonhos de grandeza, a vida tranquila do canavial e o próprio Santa Rosa.

Na obra de José Lins do Rego é um romance satélite do ciclo açucareiro. Sob o ponto de vista cronológico, situa-se entre Banguê e Usina. É considerada pela crítica como obra de implicação entre o ciclo açucareiro e o ciclo do cangaço. É a história de um jovem que vive no engenho de açúcar, que se destaca dos companheiros, abandona o Santa Rosa e vai para a cidade onde trabalha, ama, sofre e, desse sofrimento e fadiga, José Lins do Rego compôs o romance. Aqui, o autor compara a moral rígida e hipócrita da cidade, com o realismo autêntico do Engenho” Santa Rosa: “Mãe Avelina não tinha marido, ali quem tinha Mario não era melhor que ela”.

O Moleque Ricardo é um romance satélite, conforme dissemos. O autor trocou o cenário, mudou as personagens secundárias para homens, mulheres, assuntos e problemas urbanos, enquanto a personagem principal não é apenas um homem que nasceu no Santa Rosa, é homem do Santa Rosa, intrinsecamente do engenho de açúcar e a várzea; e nessa condição, sente a vida da cidade, mede os homens e os acontecimentos de Recife pela medida dos homens e do clima social de Banguê, daí, podemos concluir o que fica na sensibilidade do leitor, sobrepondo-se aos fatos e às pessoas: o choque engenho de açúcar/cidade.

O Moleque Ricardo tem um pouco do autor, principalmente na infância, notamos o amor por Santa Rosa. A morte inspira horror. Sofreu muito com o suicídio de sua noiva. E possível admitir que o medo da morte tão vivo e tão intrínseco em O Moleque Ricardo talvez fora a exteriorização de um sentimento do próprio romancista. Talvez possamos dizer que medo igual tinha Dr. Carlos, o herdeiro do Coronel Jose Paulino.

A linguagem usada por José Lins do Rego em seus romances é a mesma linguagem de certas zonas remotas e mais autênticas da Paraíba. Para alguns críticos, o escritor está desprovido de retórica. Na verdade, a única obra retórica do autor é Banguê.

O Moleque Ricardo representa um instante decisivo no romance de José Lins do Rego. Tem um significado à parte no romance do autor, não apenas pela transposição da primeira pessoa a terceira, senão por demonstrar mais as qualidades essenciais do romancista, as peculiaridades de seu linguajar, estudo profundo das personagens, a caracterização do romance não como documento sociológico ou político, senão como a visão dramática da condição humana. Notamos a face de Deus ou do destino, de forma marcante a imaginação a serviço dos recursos técnicos, da preparação artesanal, da vocação poética do contador de historias. Ainda, a ironia, quase sarcasmo, o apóstrofo quase atrevido com que mede os contrastes da vida, suas diferenças, o choque brutal entre a ingenuidade e o real, entre a condição humana e a fatalidade. E essa ironia é a presença da luta social, da política dos poderosos e aos brancos, das primeiras tentativas de organização dos trabalhadores em sociedade, de cidade que tinha mais de duas léguas de ruas.

Finalmente, concluímos que o romancista concretizou seu propósito – a história do negro, seu caráter, seu destino, tiveram um tratamento clássico no sentido de sua estruturação da harmonia de suas partes.

Ocorre que Usina, quinta obra do autor, vem desfazer essa ilusão. Retrata a decadência sociopsicológica, sentida desde que o autor começou a escrever. Com ela, encerra-se o ciclo açucareiro. A obra estaca fatores socioeconômicos e políticos e o estilo de vida resultante da decadência do engenho de açúcar. E o único responsável foi o Modernismo, a aparição das máquinas que esmagou os operários pela força totalitária da usina.

Pureza, outro romance de José Lins do Rego que se identifica muito com Menino de Engenho. Sua personagem principal é Lourenço de Melo. Tanto a personagem de Menino de Engenho como Lourenço de Melo perdem a mãe, a irmã caçula e o pai; além disso, ambos têm grande pavor pela morte, possuem riqueza por herança, só se decidem em situações trágicas que lhe resultem violentas e de agonia, tentando fugir dos problemas que a vida lhes apresenta.

Pureza, outro romance realista, com rasgos poéticos, da beleza mágica da natureza. Em uma visão do paraíso perdido, uma recordação de outra vida de passado, porém presente, emaranhado nas emoções mais puras e inocentes, como se o pecado ainda não existisse, como se Deus não conhecesse os atos humanos, segundo destaca Ivan Bechara Sobreira, crítico paraibano. Inclusive podemos denominá-la bucólica por sua íntima ligação com a natureza.

O romancista faz uma pausa, deixa de lado as verdes campinas que tanto lhe serviu de inspiração para os romances do ciclo açucareiro e se transporta ao ciclo do cangaço: Pedra Bonita e Cangaceiros.
O cangaço dominou por longo tempo o Nordeste. Alguém que não saiba nada a respeito do tema, até que leia a obra Cangaceiros, que retrata com exatidão a época e logo se inteirará da maldade que há no coração humano. O cangaço é fruto de um problema social. Em Cangaceiros se encontra em evidência a parábola “Pele de cordeiro e coração de lobo”. É a luta pela sobrevivência onde o forte se sobrepõe ao fraco, e a violência vence a razão.

Pedra Bonita assinala uma seca que houve no nordeste do Brasil no início do século XX. Esta obra se identifica com Vidas secas, de Graciliano Ramos (outro escritor nordestino), onde o homem só abandona sua terra nas últimas circunstâncias da vida. Podemos afirmar que Pedra Bonita pertence a outro nordeste. Nessa obra o autor revela seu subjetivismo, sua visão pessoal da natureza, dos seres que são descritos à sua maneira. Notamos a influência da literatura de cordel pelo contato do autor com cantadores populares, os folhetos de feira.

Em ambos os livros do ciclo do cangaço, o ser humano é condenado ao sofrimento, à luta esmagadora pela sobrevivência, ao destino cruel que lhe roubava a harmonia, que o relegava ao amor, à vida como os demais filhos de Deus”. Em Pedra Bonita o romancista enfatiza o problema da afeição religiosa e o cangaço, e Não o faz como fantasia, lenda, sem]a como fato real. Assim, podemos dizer que é um documentário valioso da época.

Riacho Doce, outra obra de José Lins do Rego, foge à regra porque não repete as obras anteriores, contudo ela repete o autor em todas as ações. Como as demais obras, esta repleta de forças humanas. Há um clima psicológico devido à violência, só representa a coragem do homem nordestino. A obra retrata uma falta de equilíbrio social e os dramas individuais e coletivos, provocados pelo problema do petróleo em Alagoas.

Água Mãe é uma obra lírica e como tal representa tristeza. O protagonista central é o medo, que dá nesse romance o gemido de coisa viva às coisas mortas, introduzindo o nervosismo da vida moderna projetada pelo temor que comprova o reviver das emoções primitivas em cada uma daquelas que a civilização materializa transformações em autômatos ridículos. Retrata ainda a riqueza como elemento de desagregação vital e corrupção. A cena da inveja desenfreada do ouro e mais particularmente, a riqueza parasitária e frívola, cheia de extraordinário dramatismo a ação romanesca de Água Mãe uma vez que nela se introduz a família Mafra. Enfim, esta obra representa Cabo Frio (Rio de Janeiro) que o autor conheceu na função de Fiscal de Consumo, nos anos 39, conforme registra Ivan Bechara Sobreira.

O romance Fogo Morto reúne uma soma estupenda de personagens de diversas ordens e representações, assim como de elementos que vão desde o sensorial ao místico, de uma totalidade nos foi possível recolher os constantes e a relação íntima, talvez de maior importância na história e na ficção . Por meio de seu emprego fiel e papel adequado da obra, o escritor nos deixa a impressão de haver convivido com as personagens, sentindo e compartindo do mesmo problema, além do saldo de conhecimentos sociopolíticos e cultural do século passado, do ambiente vivido pelas personagens.

A obra narra a decadência do ciclo do açúcar , do Senhor de Engenho de Açúcar no início do século, no nordeste brasileiro, de modo particular – na Paraíba, segundo Otto Maria Carpeux: “Uma epopeia da tristeza de uma economia, de uma terra, de uma gente”. Cheia de expressões autenticamente populares, regionalistas, obra que se reveste igualmente de transgressões às normas gramaticais, embora o estilo do autor goze de total apoio das concessões do Estruturalismo Linguístico, como demais de um gênero. O vocabulário dispensa o dicionário, em que pese o decoro, a elegância, a decência no relatar dos fatos, é descomedido o escritor, contrário inclusive quando é ele quem fala.

Fogo Morto representa uma volta do escritor aos temas do ciclo do açúcar. Não está, portanto, na surpresa e novidade, esse livro é um produto da natureza, uma obra definitiva de cristalização. Seu estilo, por exemplo, é mais tranquilo e mais ordenado em Banguê. O romancista viveu com intensidade o drama de Fogo Morto. Em determinado momento, certas situações desse drama logo se converteram no papel com a sensação de quem se liberta de um sofrimento pessoal. Na verdade, um escritor de vida tão exuberante, com uma tendência tão espontânea para as formas agradáveis da existência exterior, deve sofrer mais que outros ao contato com o mundo de ficção, muito marcado pela tristeza e desgraça. José Lins do Rego perturbará sempre os críticos com essa dualidade: um homem alegre, exuberante, enamorado da vida até o sensualismo mais frenético; um escritor triste, um romancista que faz viver personagens desgraçadas, que escreve situações comovedoras. Na vida de ficção, um sentimento de lágrimas sufocadas. Nesta obra sentimos a presença de um equilíbrio mais firme entre o ambiente social e a natureza humana das personagens. É um romance de tristeza brasileira, “uma terra radiosa vive um povo triste”, segundo Paulo Prado em Retrato do Brasil.

Outro romance de José Lins do Rego é Eurídice, que pertence ao ciclo carioca, onde vamos encontrar a figura do sambista Campos. É uma obra dotada de grande profundidade psicológica e, como tal, retrata a angústia, a solidão. Aqui o ser humano luta, odeia, violenta. Sua personagem central leva o nome do título da obra- Euridice, uma espécie de diabo que atormenta o pobre Júlio. Esta obra revela o choque da gente primitiva com as exigências da civilização. Nela notamos a figura frágil de alguém que se deixa envolver pelas forças carnais, é uma pessoa dotada de uma pureza falsa, uma mulher esperta, um sepulcro caiado.

Meus Verdes Anos é um livro de memórias em que prevalece o tempo psicológico, já que os fatos vêm todos cheios de recordações do escritor. Entretanto, o autor busca ordenar os fatos, de maneira que a reconstituição se processa cronologicamente, em sucessão normal, a memória obedece a um plano de disposição lógica. A principio, os fatos relacionados com a morte da mãe e os primos depois, mais acentuados, os acontecimentos que constituem seus verdes anos. Esta obra é considerada um documento porque retrata fielmente os primeiro anos de vida do romancista em Menino de Engenho, Doidinho e Banguê.

Finalmente, ler José Lins do Rego é transportar-se à natureza verde, não contaminada, que convida do admissível ao proibido. É pisar no solo nordestino e reviver o cangaço, é participar literalmente do desaparecimento dos engenhos de açúcar pequeno, isto é, da substituição do trabalho dos operários das máquinas. É extasiar-se no sensualismo frenético, produto de potência humana. É sentir uma linguagem bem brasileira, linguagem nordestina, que tanto enfatiza a literatura dando um sabor de regionalismo universal, no mundo poético de escritores como José Lins do Rego.

Referências

COUTINHO, Eduardo F. et al. Ensaios sobre José Lins do Rego. João Pessoa: Fundação Espaço Cultural da Paraíba, 1988.

REGO, José Lins do. Menino de Engenho. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1980.

REGO, José Lins do. Doidinho. 19 ed.Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1979.

REGO, José Lins do. Romances reunidos ilustrados. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1960-1961. 5 volumes.

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