A grande seca de 1877-1879

21 mar 2013

A grande seca de 1877-1879

José Romero Araújo Cardoso – Geógrafo, prof-adjunto da UERN

Cento e trinta e seis anos atrás, efetivava-se gênese de implacável prova de fogo enfrentada pelo povo do semi-árido nordestino, de cujos rigores atingiram zonas úmidas e pouco afetada pela ação inexorável do inconstante vento alíseo de nordeste, responsável majoritário pelos fenômenos cíclicos de estiagem que vez por outra castigam violentamente grande parte do interior nordestino.

Coincidentemente, quando da seca de 1877-1879, foi registrado impressionante aquecimento das águas do pacífico sul-americano, devido incríveis erupções vulcânicas submarinas no círculo do fogo que circunda o continente americano. A relação El Niño – secas no nordeste brasileiro só foi enfatizada recentemente.

Aflição inenarrável tomou de conta da desvalida população nordestina, bem como da região norte de Minas Gerais, onde a espacialização no vale do Jequitinhonha se efetivou condicionada pelos rigores das secas, impactando também, de forma implacável, o modus vivendi do povo imortalizado pela literatura de João Guimarães Rosa.

Inúmeras dificuldades impediram a consolidação de auxílios pelo governo imperial, clamados de forma angustiante pelo povo que sofria com as calamidades indescritíveis. Proliferaram os casos de antropofagia, pois até o couro que singulariza a cultura nordestina, no que tange à produção material, de uso diário, foi consumido pela população faminta.

A biodiversidade, adaptada aos rigores do clima e dotada naturalmente de experiência para a continuidade da vida, também sofreu implacavelmente com as conseqüências tétricas da grande seca de marcas indeléveis no século XIX. A falta d’água fez com que animais perecessem de sede, enquanto a caatinga cinzenta, não obstante o ensejo da catástrofe natural, mostrou-se resistente, revitalizando-se plenamente quando do grande inverno de 1880.

Rodolfo Teófilo afirmou que no Ceará mais de trezentas mil pessoas morreram de fome e sede ou emigraram para a Amazônia e Centro-Sul brasileiros. A descendência de significativo percentual da população do Estado do Acre confirma tendência nordestina, principalmente cearense, em buscar sobreviver, quando das secas, emigrando para a região norte, fenômeno demográfico que a partir da década de cinqüenta do século XX voltou-se majoritariamente para a região Sudeste, quando da ênfase à industrialização tardia e dependente.

O imaginário de fração do povo nordestino, referindo-se aos efeitos e transtornos provocados pela grande seca de 1877-1879, não obstante a férrea batalha de aculturação movida pela globalização, ainda se revela marcado por histórias dantescas transmitidas de geração a geração, embora provas documentais referendem a dramaticidade dos fatos, a exemplo do caso de antropofagia que convulsionou a pequena localidade de Pombal, estado da Paraíba, quando do rapto, assassinato e esquartejamento de criança, responsabilidade de inditosa retirante de nome Donária dos Anjos, de cujo argumento para a prática do ato bárbaro, quando da inquirição promovida pela justiça, alegou fome insuportável como motivo do hediondo crime.

Impossível evitar as secas, mas implementar soluções para a convivência do homem com a natureza indômita do semi-árido deve nortear o ideário dos poderes públicos e privados, sem esquecer da necessidade pragmática de também priorizar a educação ambiental, principalmente devido ao atual estágio do processo de desertificação, disponibilizando dessa forma melhores condições de vida ao povo da civilização das secas, minimizando assim dramas que são exemplificados através das inúmeras provações, quando da grande seca de 1877-1879, enfrentadas pelo gênero humano que desafia as causticantes intempéries da porção semi-árida brasileira.

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