A mídia e o medo

3 jun 2013

A mídia e o medo
(*) Rinaldo Barros

Por que os brasileiros andam com tanto medo ultimamente?

Cá no meu canto, fico assuntando que, de certa forma, estamos sendo induzidos a temer mais estórias fantasiosas do que fatos reais. Explico com a seguinte tese.

A insegurança no mundo moderno está cada vez mais ligada à ascensão da violência, que, por sua vez, promove a base e o fortalecimento de um imaginário do medo. O medo desfigura e entorpece a realidade. Agiganta e avoluma insignificâncias, produzindo fantasmas.

Sentimos tantos medos, a maioria deles infundados; provavelmente, porque boa parte da mídia nos bombardeia com estórias sensacionalistas publicadas para aumentar os índices de audiência. Os estudiosos chamam essa tese de “teoria dos efeitos da mídia”.

De fato, a cobertura jornalística sensacionalista tem efeitos marcantes na mente e no emocional dos leitores e espectadores: “deu no jornal” tem a força de uma parábola evangélica. É o imaginário do medo.

Alguns telejornais sobrevivem com base em manchetes alarmistas, assim como, já existem até programas em que policiais fardados atuam como se fossem “atores”, com a câmera dentro da viatura, e os “suspeitos” são entrevistados como pessoas famosas.

Para competir por índices de audiência, os programas de reportagens policialescas apresentam enredos que estarreceriam os melhores roteiristas de seriados de terror. Estou convicto de que os produtores de programas policiais, geralmente, deixam que os relatos emotivos se sobressaiam frente à informação objetiva. Sabem que isso garante a audiência, e os anúncios. Ou seja, a mídia amplifica o medo, exagerando na repercussão da violência (que é real, notadamente no que se refere ao crime organizado).

Todavia, essa análise da cultura do medo deve deixar claro que a imprensa não é a única culpada, e mais, que ela é também a candidata mais promissora a uma mudança positiva: basta parar de destacar e repercutir, com sensacionalismo, os nomes e as imagens dos criminosos ou suspeitos.

Defendo que o jornalismo investigativo ou policial continue existindo, baseado na verdade factual, na informação objetiva, sem transformar criminosos, delinquentes ou suspeitos em heróis.

Por trás dos programas sensacionalistas, existe uma ampla variedade de grupos e interesses, incluindo empresas de segurança privada, organizações de defesa pessoal, clubes de tiro, industriais e comerciantes de armas, munições e equipamentos de segurança, blindagem de casas e veículos, seguradoras, os quais promovem e lucram bastante com o pânico crescente no seio da população. Pânico também dá lucro.

A desinformação também integra este cenário, alimentando o imaginário do medo.

O caro leitor sabia que faz quase uma década que as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo vêm reduzindo os seus índices de homicídios, e que – atualmente – as 10 cidades mais violentas do Brasil são Juruena (MT); Nova Tebas (PR); Tailândia (PA); Guaíra (PR); Cel Sapucaia (MS); Viana (ES); Tunas do Paraná (PR); Maceió (AL); Arapiraca (AL) e Linhares (ES), seguidas de Recife e Salvador? Não são mais Rio e São Paulo. (Leia a matéria completa: mapa da violência – http://www.sangari.com/mapadaviolencia/)

A mídia sensacionalista destaca ainda que a maioria dos protagonistas da violência é composta de jovens negros, pobres, moradores de favelas e de periferias urbanas de cidades brasileiras (como se fora uma determinação genética). Os negros pobres são vistos como se fossem sempre suspeitos de serem criminosos. Isso também faz parte do imaginário do medo; e gera um clima de guerra.

O resultado disso é que a polícia continua apartada do povo. O povo tem medo da polícia. E esse fenômeno é histórico e teve início nos anos de chumbo (1964 a 1985); a partir das “teses” de combate ao “inimigo interno”. Teses superadas no tempo, mas que ainda povoam o nosso imaginário. É óbvio ululante que o “inimigo interno” nunca existiu, e que o nosso povo nunca foi e nem é inimigo da polícia.

A questão da segurança pública somente poderá ser equacionada com a participação efetiva e permanente da população; gestores públicos, empresários e trabalhadores. Sem o apoio consciente da sociedade civil organizada, o Estado não conseguirá vencer essa guerra.

Cito um exemplo. O modelo penitenciário adotado recentemente pelo Governo de Minas, apesar de ser uma PPP – Parceria Público-privada, por meio da qual a empresa vencedora do processo licitatório criou o projeto arquitetônico, construiu os edifícios e cuida da operacionalização do complexo prisional; apesar de ser privado, mantém o papel constitucional do Estado na área de segurança. Solução que deve ser multiplicada.

Resumo da ópera: urge acionar a corresponsabilidade da sociedade civil e da imprensa; porque a polícia precisa ser devolvida ao povo; o qual – por sua vez – deve ser a principal extensão da inteligência.

(*) Rinaldo Barros é professor – rinaldo.barros@gmail.com

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