A NEBLINA

25 fev 2017

Justin já não era um jovem adolescente. Era homem feito, maduro, porém o espírito atrevido e aventureiro era o mesmo de quando adolescente. Não esmorecera em nada no atrevimento diante da vida. Continuava o mesmo destemido de sempre. Justamente por isso era um solteirão convicto, porque seu ponto fraco, sua grande paixão era mesmo por viagens com aventuras garantidas, com muita adrenalina.

A maior paixão de sua vida era o seu carro vermelho, possante, envenenado, com o qual conquistava novas estradas, novos caminhos e novas veredas, sempre em busca do desconhecido, do inusitado, do surpreendente, do novo. E foi numa dessas viagens, nas famosas curvas das estradas de Santos, que ele conheceu e ficou deslumbrado por uma jovem loira, linda, estranha e misteriosa.

Como de costume, contra tudo e contra todos, Justin não altera seus planos. Não vai adiar a viagem cuidadosamente planejada. Nem mesmo o mal tempo, com a sua temida neblina, vai fazê-lo mudar de ideia. Enfrentará a névoa sim, mesmo sabendo que ela já provocou inúmeros acidentes, com vítimas fatais. Mas está decidido. Nada o impedirá de seguir viagem. De realizar o sonho antigo.

Os conselhos dos velhos companheiros de viagens de nada adiantaram. Nem mesmo o insistente e carinhoso pedido da mãe. Justin se mantém irredutível. Não perderá seu foco por nada. Essa será a sua Viagem, tem absoluta certeza disso. Malas prontas. Equipamentos prontos. Coloca tudo no carro e parte em busca do seu destino. Adrenalina. Muita. Isso era o que mais lhe importava. Uma viagem com bastante adrenalina. Pura felicidade. Puro êxtase.

Já nas estradas e curvas de Santos sua adrenalina está a mil, haja vista o perigo eminente e constante, a neblina não dá trégua. A situação é tão perigosa que chega a se arrepender da teimosia. A noite está nebulosa, temível. A solidão é imensa e a estrada invisível. Segue lentamente, quase parando. Ele sabe que não há abrigo, hotéis ou pousadas. Tem que continuar. A adrenalina aumenta, diante desses pensamentos.

Minutos depois, uma curva perigosíssima quase o faz perder o rumo. O carro saiu cantando pneus na estrada, rodopiando descontrolado. Nesse exato momento ele tem a impressão de ver uma mulher na estrada. Coloca luz alta nos faróis, em direção à mulher, buzina, mas nada. Deve ter sido uma ilusão, pensa ele, causada pela neblina e pela adrenalina. Percebe então que o carro está quase parado. Volta sua atenção para a estrada. Logo a frente, uma outra curva bem acentuada, e bem no meio dela, lá está uma jovem loira e bela. Freia o carro bruscamente. Liga o sinal das lanternas de alerta, buzina. Nada. A mulher não se aproxima. Desce do carro e vai em direção ao local onde viu a loira, mas a mulher não está lá. Grita. Nada. Ninguém responde. Fica intrigado.

Volta para o carro e segue viagem por entre a densa neblina. Resolve liga o som, ouvir música e espantar os fantasmas. Mas a ideia não funciona. A música não prende sua atenção. Esta pensando na mulher, na jovem loira e linda. Que estranho acontecimento. Uma mulher, sozinha, em meio a uma densa neblina. Mas ele jura que a viu. Acende um cigarro. Fuma distraído. Seu pensamento está longe. Mas retorna à realidade ao perceber mais uma longa curva da estrada de Santos.

Reduz ao máximo a velocidade, e entrando na curva, vê, nitidamente, a loira da estrada. Observa-a de alto a baixo, na sua mini saia xadrez e blusa branca. Instintivamente para o carro, liga o farol alto, o pisca alerta. Coloca o sobretudo e desce correndo em direção à loira. Chegando ao local, nada. Ela desaparecera. Grita, perguntando se há alguém, se quer carona, que não precisa ter medo. Espera por respostas. Nada. Volta para o carro.

Liga o motor e sai. Olha para o espelho e toma um grande susto. No banco de trás, sentada, está o mais belo exemplar de mulher loira que já vira, a lhe sorri, encantadoramente. Mas o que se passa aqui, pensa ele, enquanto liga o carro. Olha para a loira pelo espelho, que lhe sorri enigmaticamente. Percebe que o carro está ganhando velocidade rapidamente. Pisa no freio. O carro não obedece. Tenta novamente, e nada. Olha o velocímetro, que marca 120 km por hora. Sem se virar, pergunta a loira o que significa aquilo. Quem é ela, o que deseja.

A velocidade é cada vez maior, e o seu desespero também. Não compreende porque o carro não obedece ao seu comando. No banco de trás a loira ri alto, cada vez mais alto. Apavorado, Justin volta sua atenção para o velocímetro, está desesperado, em pânico, pois sabe que a curva mais perigosa da estrada de Santos está cada vez mais próxima e o carro na velocidade máxima, sem condição de redução de velocidade.

Ao entrar na curva, vira-se e olha fixamente para a mulher sentada no banco de trás, e antes que o carro despenque no precipício, ela pergunta fria e calmamente:

– ”Você nunca ouviu falar da loira da estrada de Santos?”

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