A PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO NA UNIVERSIDADE E SEUS REFLEXOS NA SAÚDE DO DOCENTE SAÚDE E CONDIÇÕES DE TRABALHO DOCENTE

5 abr 2017

Contribuição da Diretoria da ADUERN

Contemporaneamente, as transformações ocorridas no mundo do trabalho têm repercutido diretamente na atividade do docente que atua no ensino superior público. Percebe-se a incorporação de alguns princípios que orientam tanto a organização quanto as relações do mundo do trabalho, ao cotidiano das universidades públicas brasileiras. De acordo com Leite (2015), ao serem transportadas para o sistema de educação essas transformações submetem o sistema universitário aos interesses do capital, modelando a atividade docente em torno da produtividade em detrimento da qualidade. E ainda, instiga uma competitividade que exacerba a precarização das relações de trabalho ao consolidar uma gestão em torno de metas sem que existam as condições adequadas para se alcançá-las. Por um lado, existe um discurso institucionalizado no meio universitário que configura a atividade docente sob a insígnia da eficiência e da excelência acadêmica. Em outra perspectiva, falando do lugar que o professor ocupa neste contexto, ocorre na verdade uma expropriação da atividade docente através do aumento e da intensificação da sua jornada de trabalho. Estas repercussões são potencializadas pelos projetos de redução do papel do Estado que estão em curso desde a década de 1990, atingindo frontalmente tanto o campo dos direitos da categoria docente quanto a autonomia no modo de organizar as suas atividades. Por sua vez as políticas públicas voltadas para a educação superior instaladas no governo FHC, e aprofundadas nos governos Lula/Dilma, firmaram-se sobre alguns pilares nefastos tais como: a desconstitucionalização da autonomia universitária; extinção ou redução de direitos trabalhistas e previdenciários; o achatamento salarial que tem levado muitos docentes a venderem sua força de trabalho no mercado paralelo; o estabelecimento de elevado número de níveis de carreira, fomentando o surgimento de castas acadêmicas; a parceria público-privada que permite que o capital privado determine os rumos da produção do conhecimento dentro das universidades públicas; o financiamento público para as atividades consideradas lucrativas para o setor privado, o qual naturaliza o conceito de autosustentação nas universidades públicas e justifica, portanto, a omissão do Estado na manutenção do ensino superior. Ocorreu ainda uma mudança na concepção de universidade onde ela passa de uma instituição social autônoma para uma organização social neoprofissional heterônoma1, operacional, empresarial e competitiva (CAMPOS, 2011; LEITE, 2015). 1 Segundo o mesmo autor a heteronomia diz respeito à subordinação da universidade a uma ordem imposta por um ente externo a ela. 45 Neste contexto, idealiza-se um novo modelo de professor cujo patamar de qualificação (qualis) leva em conta prioritariamente a pesquisa, exigindo-lhe resultados quantitativos crescentes mas sem que o Estado ofereça a contrapartida financeira e logística necessárias à execução das suas atividades. Submetendo-se aos editais das agências de fomento e das empresas privadas, o docente perde sua autonomia no trabalho deixando de fazer o que deseja e passando a atender as demandas mercadológicas. Esta submissão interfere ainda no desenvolvimento e na articulação entre o ensino, a pesquisa e a extensão de qualidade e socialmente referenciados. Além disso, estabelece um clima de competitividade entre os docentes tão ao gosto da ideologia neoliberal, obscurecendo a luta de classe e dando lugar ao isolamento e condensação da vida acadêmica e pessoal (FERREIRA et al., 2016). Esse cenário resulta na despersonalização do docente além de criar um clima de instabilidade psíquica e emocional, produzindo inclusive a antisocialização. Tomando esta problemática como campo de análise, tem-se um cenário onde a saúde do docente sofre influência direta do ritmo e das condições de trabalho impostas pelas universidades. Alguns estudos (CAMPOS, 2011; FERREIRA et al., 2015) apontam para algumas consequências que este contexto tem acarretado em termos de adoecimento por parte do professor. Se a saúde muitas vezes é apreendida como o silêncio dos órgãos (GADAMER, 2006), o adoecimento vem expressar o ponto de ruptura com os mecanismos adaptativos empreendidos individual ou coletivamente. Certamente não se pode negar a existência de doenças que podem ser decorrentes ou que sofrem influência da atividade laboral docente. Dentre os problemas de saúde mais comuns nesta categoria podem-se constatar: a lesão por esforço repetitivo (LER), estresse, varizes, cervicalgias, lombalgias e outros problemas na coluna, hipertensão, asma, labirintites, torcicolos, enxaquecas, rouquidão ou mesmo a perda da voz. Todavia, o adoecimento não deve ser abordado apenas na perspectiva de uma confluência de fatores ergonômicos, físicos e biológicos, isolando o professor de outras dimensões da sua existência. A sobrecarga de trabalho e a vivência em um ambiente marcado por uma pressão decorrente da atividade “sanduíche”, aquela oriunda das atividades realizadas junto aos alunos e junto à gestão, torna a universidade um ambiente propício para o desenvolvimento da dependência de drogas ilícitas ou mesmo daquelas consideradas lícitas tais como o álcool, tonificantes, tabaco, antisiolíticos e antidepressivos; estas além de dissimular o sofrimento psíquico podem provocar ou intensificar as doenças crônicas. Em casos mais severos, tem-se a despersonalização, o isolamento e alguns distúrbios de caráter psíquico como a síndrome do pânico, depressão e a síndrome de burnout (LEITE, 2015). O termo burnout, cuja tradução literal significa estar estourado, esgotado, consumido pelo trabalho, foi introduzido em 1974 pelo psicólogo Freudemberguer para caracterizar o uma fase final do processo de estresse laboral, de caráter crônico com implicações emocionais. Ele acomete profissionais que lidam diretamente com pessoas onde os 46 traços principais são o esgotamento emocional, expressado por uma falta ou carência de energia e entusiasmo. Cursa ainda com um modo de ser caracterizado por despersonalização, postura fria e desumana, pela diminuição da realização pessoal no trabalho com sentimento de fracasso. As pessoas sentem-se infelizes consigo mesmas e insatisfeitas com seu desenvolvimento profissional, irritadas ou tristes (CARLOTTO, 2002). Esta síndrome acomete pessoas sem histórico de distúrbios psíquicos anteriores que encaram suas atividades profissionais com elevado entusiasmo e comprometimento. Mas que, após se envolverem intensamente com suas atividades, desapontam-se quando não se sentem recompensadas por seus esforços. Seu surgimento é paulatino, acumulativo e sua evolução pode levar anos ou décadas ocasionando sintomas psicossomáticos como insônia, úlcera gástrica, dores de cabeça e hipertensão, além do uso abusivo de álcool e medicamentos. Consequentemente surgem também problemas nos relacionamentos familiares, conflitos sociais e diminuição da qualidade laboral (CARLOTTO, 2002). Algumas abordagens desta problemática tentam velar a influência das condições de trabalho na saúde do docente. Porque adoecer envolve estigmas de várias ordens, em especial quando se refere a uma categoria que historicamente porta uma imagem e um status que a diferenciam de outras categorias de trabalhadores. Logo, tem-se um primeiro desafio relacionado aos preconceitos em assumir a condição de estar doente e, portanto, necessitado de cuidados com sua saúde. Outra questão diz respeito à autopercepção sobre a própria saúde e sobre a doença, condicionada à singularidade de cada pessoa onde em muitas situações a doença não é assumida. Pois, uma vez que no cotidiano acadêmico alguns sintomas são vistos como “normais” ou “inevitáveis”, o adoecimento passa a ser menosprezado inclusive através da automedicação praticada cronicamente. Portanto, a repercussão das condições de trabalho na saúde do docente é uma problemática mais ampla que o adoecimento tomado isoladamente. Por isso, ela não pode ser abordada desconsiderando o contexto da redução do papel do estado na manutenção das universidades públicas. Referências: CAMPOS, F. J. S. Trabalho docente e saúde: tensões na educação superior. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPA. Belém, 2011. CARLOTTO, M.S. A Síndrome de Burnout e o Trabalho Docente. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 7, n. 1, p. 21-29, jan./jun. 2002. FERREIRA, A. V. et. al (organizadores) Precarização do Trabalho e Saúde Docente nas Universidades Públicas Brasileiras. Ed. ADUFC/UECE, Ceará, 2016. GADAMER, H. G. O caráter oculto da saúde. Editora Vozes, 2006. 47 LEITE, J. L. Produtivismo acadêmico e adoecimento docente: duas faces da mesma moeda. In: FERREIRA, A. V. et. al (organizadores) Precarização do Trabalho e Saúde Docente nas Universidades Públicas Brasileiras. Ed. ADUFC/UECE, Ceará, 2016. TR 7: Que o IX Congresso da ADUERN delibere: 1 – Propõe-se que a ADUERN componha e sistematize um Grupo de Trabalho (GT) permanente com o objetivo de discutir questões relacionadas à saúde do docente no âmbito da UERN. 2 – Dentre outras competências, que através deste GT a ADUERN organize anualmente um seminário sobre a temática da saúde do docente, enfocando as possíveis relações entre as condições de trabalho e o adoecimento. 3 – Propõe-se que a ADUERN, através do GT mencionado acima, desenvolva estudos sobre a relação entre as condições de trabalho e a saúde docente.

FONTE: http://aduern.org.br/wp-content/uploads/2017/04/RELAT%C3%93RIO-CONSOLIDADO-DO-IX-CONGRESSO-DA-ADUERN.pdf

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