A Quenga e o Vereador

27 jun 2017

Paulo Afonso Linhares*

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Quebrou a calmaria paroquial mossoroense a notícia que o vereador Jório Nogueira, em veemente pronunciamento na tribuna da Câmara Municipal, teria afirmado que os alunos da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte não ”faziam sequer um ‘o’ com uma quenga”. Claro, essa é uma expressão bem típica da falar sertanejo, desta região potiguar, na qual o “o” é apenas aquela inocente quarta vogal do alfabeto e “quenga”, bem, não é o que as pessoas gostariam que fosse, pois há “quengas” e “quengas”, mas, a referida no polêmico discurso daquele edil é apenas aquela banda do endocarpo lenhoso do fruto do coqueiro (Cocos nucifera), de formato arredondado e muito utilizada como recipiente (em algumas localidades substitui as xícaras e canecas) para servir bebidas diversas, de água a cachaça, enfim, uma vasilha feita com a metade de um coco. Que também serve para traçar um círculo, fazer um “o”. A outra acepção de quenga, bem chula e com muitos “os” a considerar, é prostituta, garota de programa, periguete e por ai vai…

Claro, alunos, ex-alunos e professores da UERN assomaram às trincheiras das redes sociais para protestar contra as invectivas do vereador Jório Nogueira. A retaliação foi grande, de tuíte a fuxibuque. Interessante é que têm assentos na Câmara Municipal de Mossoró vários edis egressos dos cursos universitários da UERN, inclusive o seu presidente que, aliás, é docente dessa instituição. O atual prefeito de Mossoró, Francisco José Lima da Silveira Júnior, e o vice-prefeito, professor Luiz Carlos de Mendonça Martins, são egressos, também, da UERN. Brios feridos à parte, tudo não passou de mais uma trovejante e ciberespacial Batalha de Itararé, aquela que nunca houve.

A UERN não precisa dar explicações acerca da capacidade ou não de seus alunos fazerem um singelo “o” que seja. Em mais de quatro décadas de existência, essa notável instituição que é fruto da ousadia da gente mossoroense, tem sido um dos mais notáveis pilares do desenvolvimento regional não apenas com abrangência no Rio Grande do Norte, mas, também no vale jaguaribano e no sertão da Paraíba. É injusto e absurdo negar a enorme contribuição da UERN. Sem mais nem menos ela é reflexo da estrutura social e econômica desta região do semiárido nordestino, nem tão melhor ou pior que outras instituições similares da mesma região. Aliás, desde o surgimento da vetusta Università di Bologna, na Itália, fundada em 1088, que essas instituições são marcadas pelos motivos que justificam as suas criações, sempre com profundas imbricações culturais, econômicas, políticas e sociais.

Com 87 cursos de graduação, entre bacharelados e licenciaturas, 15 cursos de especialização, 7 mestrados e 2 cursos de pós-graduação interinstitucional (um mestrado e um doutorado), a UERN está anos-luz à frente do singelo dilema de fazer um “o” com uma quenga. Outro aspecto relevante é tocante à qualidade técnica e profissional de seus egressos. E os exemplos são diversos: o Curso de Direito do campus de Mossoró está entre os cem melhores cursos jurídicos do país, a tirar pelo selo que lhe conferiu o Conselho Federal da OAB. Aliás, é muito alto o índice de aprovação de egressos da UERN no exame da OAB e em concursos públicos na área jurídica. Esse perfil se repete noutras áreas do ensino e pesquisa da Instituição. O episódio aqui comentado, por desagradável que possa ter sido, tem um lado positivo: trouxe à baila uma discussão sobre o papel atual da UERN, nos contextos social, econômico, cultural e político desta região. Em especial, neste momento em que se realizarão eleições em diversos níveis, inclusive para escolha do novo governador deste Estado, que assumirá em primeiro de janeiro de 2015, também, na condição de chanceler da UERN.

Ressalte-se que, diante da repercussão dessa querela, o vereador Jório Nogueira, em recente entrevista à Rádio Difusora de Mossoró, negou ter feito aquela afirmação; teria sido tudo um mal-entendido, pelo qual pediu desculpas à comunidade acadêmica da UERN. Meno male! Episódio esclarecido, caso encerrado. E a brava UERN segue em frente, por vezes até aos trancos e barrancos, mas, sempre, liber vi spiritus!

*Paulo Afonso Linhares é jurista, secretário municipal e diretor da Rádio e Portal Difusora

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