A simplicidade de uma educadora

27 fev 2013

A SIMPLICIDADE DE UMA EDUCADORA

Climeni Clementino Diniz -UFPB
Especialista em Língua e Literatura Espanholas

No dia 13 de setembro de mil novecentos e quarenta e oito, às três horas e cinquenta minutos, na casa 259 da rua São Luiz, no bairro de Cruz das Armas, na cidade de João Pessoa , no Estado da Paraíba, nasceu a menina de nome Marinalva, fruto da união de Sebastião José da Silva e Marina Freire da Silva , tendo como avós paternos José Cosme da Silva e Josefa Martins da Silva e maternos, Antônio José de Souza e Avelina Freire de Lima. Sendo os pais católicos, a criança foi levada à pia batismal da Igreja Nossa Senhora do Rosário, no bairro de Jaguaribe, pelos padrinhos Juvenal Petronila e Margarida Madruga de Lima, no mês de março de 1949.

Aos oito anos, precisamente no dia 29 de novembro de 1956, recebeu Jesus Eucarístico, pela primeira vez, na Igreja Nossa da Conceição, na cidade de Alagoinha, no Estado da Paraíba.

Foi uma criança muito pobre, que enfrentou muitas dificuldades tendo em vista que, no primeiro ano de vida, seu pai, que era alagoano, viajou com a família para Maceió a fim de assumir um emprego no Estado. Já prestes a tomar posse, foi acidentado, estava consertando um carro, quando o macaco se desmontou e lhe partiu a coluna, na época, caso único na Medicina, não morreu

nem ficou inválido, mas passou seis longos meses desempregado, num hospital público, sem condições de manter a família, na ocasião formada pela esposa e dois filhos, sendo Marinalva a filha caçula, criança desprovida do mínimo necessário a sua subsistência.

Recuperando-se do acidente, seus pais regressaram para João Pessoa. A família foi aumentando e as dificuldades a acompanharam. Marinalva tem, atualmente, seis irmãos, pois o mais velho, já não se encontra entre os viventes.

Aos seis anos, começou frequentar a escola pública. Marinalva, desde os primeiros dias de aula, já demonstrava ser uma pessoa grande interesse pela aprendizagem, muita calada, tímida, mas curiosa. Sabemos que a curiosidade é uma grande arma leva a um conhecimento de mundo, como diz o inesquecível Paulo Freire.

Marinalva foi em criança muito amada pelos pais, principalmente por seu Sebastião, eles eram muito amigos e foi com ele que ela aprendeu todas as artimanhas da vida. Amadureceu muito cedo pela sobrevivência, pois trabalha desde os 12 anos incompletos, como professora para sustentar seus estudos e os estudos dos irmãos. Muito confiante em Deus e nos ensinamentos de seu querido

pai, soube enfrentar todas as dificuldades, transpor todas as barreiras, tirar as pedras do meio do caminho, pois como diz o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, “no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho”. Como Marinalva sempre repete para seus alunos no intuito de estimulá-los que “quem sabe o que, chega aonde pretende”, ela chegou porque sempre alimentou seu desejo de anular sua pobreza, e a própria, na sua humildade, sempre diz que Deus lhe deu além do que ela mereceu. É uma pessoa muito humilde, e muito agradecida a Deus por ter conseguido vencer, e o mais bonito nela é que sempre representa um oásis na vida dos que a procuram em busca do saber.

Praticamente, Marinalva não teve infância nem adolescência, fases muito importantes na vida de um ser humano. Ela compreendeu e assumiu em tenra idade o compromisso da luta pela sobrevivência porque, sendo de origem humilde e com muitos irmãos, sem que o pai dispusesse de condições financeiras para custear a educação dos filhos, ela resolveu dar aula. E iniciou sua profissão aos 12 anos incompletos, com a seriedade que lhe é peculiar. Marinalva começou dando aula às crianças de alfabetização. Na sua vida de professora não saltou nenhuma etapa. Ensinou no primário, no ginásio, no científico, na universidade, começando no ensino básico, passou para a graduação e quando se aposentou da Universidade Federal ministrava aula na pós-graduação, que incluía o mestrado e o doutorado em Letras. Praticamente, não trabalhou fora da sala de aula, embora tenha exercido funções na Secretária de Educação do Estado da Paraíba, no período de 1974 a 1978, como Assessora do CDRH ( Recursos Humanos), Secretária da Comissão de Enca
rgos Educacionais e Secretária do Conselho Estadual de Educação, onde permaneceu março de 1994. Partiu para Curitiba em 1980, após desquitar-se, a fim de realizar seu mestrado, enfrentando muitas dificuldades por ser arrimo de família, regressando e m julho de 1982, com seu curso concluído porque ela nunca deixa nada no meio do caminho e ajuda as pessoas que caminham com dificuldade para chegar, uma grande virtude desta mestra. Após regressar à UFPB, assumiu a cadeira de Filologia Românica I, grande desafio, em substituição à saudosa mestra Evanise Bechara e teve o privilegio de beber na fonte inesgotável do conhecimento da filóloga Linalda de Arruda Mello a quem Marinalva é muito grata pelos ensinamentos primeiros no campo da Filologia, conforme entrevista que ela me concedeu e será transcrita mais adiante. Estimulada pela insigne mestra Linalda, Marinalva decide ir além-mar, cursar doutorado em Filologia Românica na Espanha, para onde viajou sozinha, sem conhecer ninguém, com uma pequena bolsa de estudo do
CNPq e a metade do salário porque tinha compromisso com sua família (mãe, irmãos e sobrinhos).

É muito proveitoso e um exemplo a ser seguido, ouvir Marinalva narrar o que ela sofreu na terra de Cervantes, inclusive por motivo de saúde porque trabalhava demais ministrando aulas de português para poder sobreviver na Espanha. Morou na Casa do Brasil, onde muito querida pela maneira de vida que levava e sempre muito solícita, nunca deixando de atender aos que a procuraram. Era uma espécie de fada-madrinha para os brasileiros que iam à Espanha e a conheciam. Sua simplicidade oculta, para muita gente vaidosa seus conhecimentos, nunca diz que sabe, mas que vai tentar, vai buscar, vai pesquisar. Pouco ou quase nada se sabe dos amores e desamores de Marinalva. Pessoa tímida, reservada, fez do magistério um sacerdócio. Casou-se no dia 24 de junho de 1972, com um militar do Exército, mas, para sua tristeza, essa união durou pouco. Pessoa muito sensível (consequência de todos os problemas enfrentados para vencer a pobreza e ela o fez muito bem com a cultura, invejável riqueza de que alguém não capaz de roubar), re
solveu, mesmo amando, desfazer seu matrimônio ( e é bom destacar que o marido respeitou sua vontade, mas nunca aceitou a separação) e seguir o caminho dos livros, da cultura, do saber. Ela abraçou o magistério como uma mãe abraça um filho indefeso, fazendo dos alunos seus filhos queridos, razão de seu viver.

Marinalva procura sempre sorrir, conversar, oferecer-se para ajudar o outro. E eu vejo neste seu gesto a maneira de preencher o vazio da maternidade biológica. Ela é muito materna, apesar de dura consigo e, às vezes, com quem a molesta. No fundo, sofre muito pela humanidade, pelas crianças sem lar, sem família, sem comida e sem escola porque vê nelas a porta aberta para a marginalidade. E como educadora seu desejo é ver todas as crianças felizes, na escola, sendo preparadas para os cidadãos do amanhã. Ela é uma pessoa depressiva, por incrível que pareça. E sofre muito calada, ocultando sua dor para que quem esteja a seu lado não perceba a sua angústia. Ela acalanta seu sofrimento dedicando-se ao próximo, embora seja muito mal interpretada por esta atitude, pois é difícil acreditar que alguém seja capaz de dar a outra face.

Para compreender Marinalva e não censurá-la é preciso conviver um pouco ao seu lado, pois ela é, às vezes, enigmática.

Marinalva sempre surpreende inclusive os seus familiares.

Apesar de meio tagarela, é muito reservada e pouco fala de amores, pois teve muitas decepções e prefere continuar sozinha; é uma pessoa muito romântica, sonhadora, apaixonada, só que suas paixões são platônicas, ela prefere assim, segundo ela, esta foi a melhor forma que encontrou para seguir amando sem mágoas, sem desilusões, ama pelo simples fato de amar, sem nada esperar da pessoa amada. Pelo menos isso eu captei em conversa com ela. Ela sempre diz que

“no dia que a pessoa souber que ela o ama, ela acaba”., o que significa dizer que nesse aspecto ela não sofre porque só ama, ela é uma pessoa muito dura consigo, na hora de decidir, não olha para trás, embora sofra, mas, às vezes , é implacável em suas decisões, mas não é uma pessoa radical, pelo contrário, é muito tolerante,

muito passiva, muito aberta ao diálogo, quando sente vontade de chorar, chora em público sem se envergonhar. Aqui, eu aproveito para citar um pensamento de Emilio Castellar, escritor espanhol : “una vida en que no cae una lágrima es como uno de estos desiertos en que no cae una gota de agua: sólo engendran serpientes”.

Marinalva é uma pessoa de Deus, muito espiritualista, muito otimista, gosta muito de rezar, Deus está sempre em primeiro lugar em sua vida, não é vaidosa, a única vaidade que eu conheço é a consciência de que “quem sabe o que quer chega aonde pretende”e “querer é poder” (frases usadas por ela), no sentido de ter força de vontade de lutar e não desistir na primeira dificuldade.

Marinalva sempre compartilha o que tem ou consegue lutando com os familiares, parentes, amigos, alunos, conhecidos ou que se acercam a ela necessitando de algum apoio, e é aí que a criticam muito, mas ela já atingiu um estágio espiritual tão seguro que nada disso a abala. Ela sempre diz que em suas orações reza pelos que não a aceitam com ela é . Ela sempre tem algo a dar a quem a Retalhos de uma Vida Dedicada a Educação e a Cultura visita, a procura, nem que seja um estímulo, uma palavra de encorajamento.

A generosidade é uma característica própria da professora. Está sempre feliz em orientar o aluno a encontrar sua linha de pesquisa na academia. O que mais me impressiona é a atenção pessoal que ela dá ao alunado acompanhando-o pelo seu crescimento intelectual.

Marinalva tem um carinho especial pelos excluídos. Os familiares nem têm idéia do que ela faz por esta classe social. Ela não escolhe para ajudar porque, segunda a própria, o poder de julgamento não lhe compete, não lhe diz respeito. Ela se faz respeitar em qualquer lugar que chega, sabe entrar e sair com serenidade e dignidade de que um ser humano como ela é capaz. Sente-se bem servindo, é muito desprendida do material, trabalha muito, mas leva uma vida humilde, sem luxo, não frequenta festas, principalmente de casamento, mas se faz presente quando convidada através de Tião, um dos manos.

Marinalva é muito respeitada pelos familiares Marinalva não é pessoa mesquinha nem invejosa, não nega conhecimento a ninguém, não conheço uma só pessoa que a procure e não seja atendida, se ela não tiver condições de atender, busca caminhos, pede ajuda a terceiros, mas faz algo pelo menos para lenir um pouco aquela necessidade.

A nossa querida mestra, caladinha, muito discreta, é por demais cortejada. E ela me disse que sempre se questiona sobre o porquê dessas conquistas sem que ela os provoque. Mas… qual a mulher que não gosta de ser cortejada? Isso é amor à moda antiga. E já não se ama mais como antigamente! Marinalva recebe muitas flores, o que a deixa feliz porque receber flores significa receber amor. E ela é muito romântica!

Durante sua carreira estudantil não podia comprar livros, tomava-o emprestado às bibliotecas e sempre era pontual na entrega, pois tinha a consciência de que outros iguais a ela iriam necessitar daquele livro, passou sua vida estudando com livros emprestados, e hoje, que é escritora, escreve livros didáticos a preço de ser adquirido pelos alunos. E os mais carentes, ela sempre doa.

É admirável nessa figura humana o desprendimento que tem, pois as coisas materiais que lhe importam são seus livros, mesmo assim, eles estão sempre à disposição de seus alunos que a procuram para fazer pesquisa. Sempre que indica livros nos cursos que ministra, ela os possui, pois se por acaso o aluno não puder adquirir, dispõe por empréstimo da biblioteca particular dela, que é pequena, mas valiosa, principalmente no campo da Filologia Românica, sua grande paixão.

Assim, os alunos mais próximos dessa professora conhecem sua residência, humilde, mas aconchegante e desfrutam de seus livros, de um bom papo, às vezes, acompanhado de um suquinho ou cafezinho.

Essa invejável estudiosa é uma pessoa inquieta no campo da pesquisa, é polivalente, dotada de uma leitura de mundo extraordinária, na sua humildade sempre diz que de nada sabe e sempre repete para seus alunos que “o estudo é amargo, mas os frutos são doces”. E “em se vivendo tudo falta; em se morrendo, tudo sobra. Só se caba de aprender quando se morre”. Ouvi-la falar da morte ou sobre a morte é uma coisa que nos chama a atenção. Ela sempre diz: “amo a vida como amo a morte”. E ela aprecia a vida e a leva com muito proveito. Costuma frisar que, “ se soubesse o dia que iria morrer, nem dormiria para poder concluir os projetos traçados e iniciados, para não dar trabalho aos que ficam.

Marinalva terminou o Curso Pedagógico em dezembro de 1969 e, em janeiro de 1970, fez vestibular para letras já que não poderia realizar seu sonho de fazer medicina, na área da Psiquiatria, Sua fascinação. Ocorre que sua pobreza a impedia de estudar este curso. Como sempre gostou de ler e de escrever, fez teste vocacional (pois foi pioneira da reforma universitária de 1970, e esse tipo de teste era oferecido pela UFPB, e ela me disse que o fez com a grande mestra Zilda Pontes). Sua vocação estava evidente para as letras. E que professora de português a Paraíba, o Brasil e a Espanha conheceram! Eu tive o privilégio de conhecê-la na sua segunda fase de ensino de línguas – no campo do espanhol.

Classificada no primeiro vestibular, sem muito tempo para estudar e sem condições de frequentar cursinho, viu nessa vitória parcial uma grande alavancada para anular sua pobreza através dos estudos. Ministrava aulas particulares os dois turnos e estudava à noite; quando chegava em casa às 23 horas, muito cansada, não permitia que o cansaço a dominasse, colocava algumas vezes os pés dentro de uma bacia com água fria para despertar e adentrar pela madrugada para poder preparar as aulas de português e matemática, principalmente, e fazer as pesquisas solicitadas pelos professores. O livro de Lingüística de Saussure ela o copiou quase todo para poder estudar.

Logo cedo, partia para as escolas e assim, essa jovem com uma ferrenha vontade de melhorar a sua qualidade de vida e a dos irmãos (com quem sempre se preocupava e ainda encontrava tempo para ir às escolas saber como eles se comportavam e com iam de estudo, uma tarefa que recebeu dos pais acompanhar os estudos dos irmãos), não teve tempo para viver a infância nem a juventude.

Quem lhe tocou profunda e apaixonadamente seu coração foi um jovem militar, pois Marinalva ministrava aulas no Grupo Municipal GPTÊ, no 1º Grupamento de Engenharia e Construção. Tinha uma sala de aula muito numerosa, uns 45 alunos, todos militares.Um deles conseguiu conquistar seu coração. Pouco tempo de namoro, casamento (24 de junho de 1972), que também teve pouco tempo de duração, sete anos e meio (1980).

Concluída a licenciatura plena em língua portuguesa, fez três especializações (uma presencial-Linguística; e duas semipresenciais, oferecidas pelo MEC-Língua Portuguesa e Literatura Luso-brasileira e Administração Escolar), complementou estudos no Curso de Pedagogia (Habilitação Administração Escolar), isso entre os anos 1974 a 1979.

Em 1980, já desquitada, parte para Curitiba realizar estudos de mestrado; em 1986, parte para a Espanha, após divorciarse e apoiar o ex-marido na reconstrução de uma nova vida, pois, Marinalva tem uma concepção diferente do amor. Amar, para ela, significa sair de si para fazer alguém feliz, e ela se sente também feliz; “amar é também renunciar” e isso ela sempre faz pelas pessoas, ela sempre quer o melhor para os outros.

Assim ela faz muitos amigos, conquista pessoas que inicialmente a antipatizam, desfaz certos conceitos o seu respeito e convive dessa forma com gregos e troianos. É difícil, na realidade, saber de quem Marinalva gosta ou não, talvez seja mais fácil saber de quem ela gosta mais. Os alunos são seus amores, ela luta por eles e os defende, encontrando sempre uma justificativa para as atitudes inconsequentes da juventude, é uma verdadeira defensora dos alunos e por isso se indispõe algumas vezes com colegas de trabalho que não aceitam sua maneira tolerante de ser, de tratar os alunos;

ela um coração imenso, perdoa tudo e todos. Mas desfrutar da amizade dela, do convívio são poucas as pessoas, e eu me sinto feliz por ser um delas.

Vive muito reservada numa sala de estudo, seu escritório, sem limite de tempo, não sabe o que são férias, seu vício incurável é o trabalho. Quem vai visitá-la sempre a encontra escondida escrevendo, pesquisando, preparando aulas, corrigindo trabalhos de alunos, fazendo tradução ou revisão de textos, um trabalho

paralelo que ela desempenha com muito amor e dedicação.

Logo que chegou da Espanha, preparou seu irmão caçula e afilhado, Samuel, para assessorá-la na parte de informática e lhe deu um curso de espanhol voltado para tradução porque, como ela viaja muito a convite das universidades públicas para compor bancas de concurso público de professor, e o trabalho de tradução não pode parar, Samuel traduz e lhe envia para as correções. Assim ela tem condições de ajudar os irmãos na luta pela sobrevivência.

Marinalva não pára, mas não se robotiza, o que é admirável, sempre está atendendo os telefones, os e-mails, ouvindo quem chega, conversando, sem parar seu trabalho. Tem leitura dinâmica, é muito rápida em tudo o que faz, não deixa atividade alguma para a última hora, pois, como diz a canção de Geraldo Vandré, “quem sabe faz a hora, não espera acontecer” . Aposentou-se ainda muito jovem da Universidade Federal da Paraíba, em março de 1994, abriu o Centro de Estúdios Lusohispánicos “Antonio de Nebrija” (CELHAN), para ministrar cursos preparatórios de língua portuguesa e espanhola para concursos públicos, inclusive o DELE, que ela implantou na UFPB.

Recebeu convite do Reitor da UEPB, Prof. Itan Pereira (In memoriam), foi consultora de Linguística da UEPB, no período de julho de 1994 a dezembro de 1996. Em 1997, foi convidada pelo Reitor Prof. Sebastião Vieira para ser professora Visitante no Campus I em Campina Grande com o objetivo de implantar a língua espanhola no concurso vestibular da UEPB, na proficiência dos

cursos de Mestrado, e implantar o curso de extensão em língua espanhola para a comum idade campinense. Em 1998 submeteu-se ao concurso público para professor titular de língua portuguesa, sendo aprovada. Como Professora titular da UEPB, apoiou a implantação do ensino da Língua Espanhola. Vários foram os cursos de língua espanhola ministrados, entre os quais curso preparatório de Didática do ensino do espanhol, com 80 horas, uma espécie de nivelamento para em seguida, oferecer um curso de Especialização em Língua e Literatura Espanholas, curso que foi oferecido por quatro vezes, curso pioneiro no Nordeste. Com este curso muitos professores já estão nas universidades como substitutos e/ou efetivos ensinando a língua de Miguel de Cervantes.

O que mais impressiona é maneira como Marinalva ministra aula, nada passa despercebido nenhuma pergunta do aluno fica sem resposta. “Estudando com Marinalva é como adquirir um passaporte para viajar no imaginário, com os pés no chão, não sei como uma cabeça humana guarda tantos conhecimentos, tantas informações como a dela. Nada esquece, dá suas aulas com muito entusiasmo, apesar do cansaço que sempre se estampa em sua face”.

Quando um aluno diz: “professora, hoje a senhora está muito cansada, não dê aula, a gente entende”, ela responde: “Nada disso, com esse cansaço eu darei aula até a madrugada, pois eu descansarei na eternidade, que é muito longa e me espera”. É muita energia para quem pouco se alimenta e dorme. Marinalva é muito inquieta mesmo e ela tem consciência disso, ela se conhece, por isso convive em harmonia com a maioria das pessoas que a cercam.

Marinalva é uma pessoa amiga , procura ajudar o aluno em suas dificuldades; é dinâmica e muito participativa. O que Marinalva tem feito pelo ensino da Língua Espanhola na Paraíba é “impagável”, pois além de elevar o nível cultural dos seus alunos, tornou a língua de Cervantes mais conhecida em terras paraibanas.

Marinalva tem sede de conhecimento. Na Espanha, me disse ela, teve vontade de fazer um curso de Teologia, mas não teve condição financeira. Em 1996, foi contemplada com uma vaga no Unipê, onde era coordenadora do Curso de Letras, para fazer uma especialização em Pedagogia religiosa: Teologia. Graças a o professor e amigo Dr. José Loureiro Lopes, atual Reitor da Instituição Marinalva alcançou mais um dos seus objetivos – estudar Teologia.

Este curso, segundo ela, respondeu todos seus questionamentos sobre os temas referentes ao eclesiástico, à morte, à vida depois da morte e o porquê da religião na vida do homem. A escatologia, foi a disciplina que lhe fascinou. Mesmo assim nossa homenageada segue inquieta porque não gosta só de saber, mas de saber por quê e sempre repete para seus alunos que “ a ciência sem consciência é a ruína da alma”. Volto a dizer que estudar com Marinalva é gratificante, mesmo quando o conteúdo não desperta o interesse do aluno, logo ela dá uma guinada, retoma o tema com mensagens de ânimo, otimismo, consegue inserir no assunto temas distintos, às vezes só para descontrair, viaja no fantástico, leva o aluno a sonhar com dias melhores estimulando-o a prosseguir na caminhada.

Sabemos que nem Cristo satisfez a humanidade quanto mais os mortais viventes, mas essa figura de educadora sabe fazer limonada dos limões que lhe dão a vida, consegue sorrir nos momentos de tristeza, mostra sempre para o aluno que viver é uma arte e já que estamos no palco da vida, precisamos desempenhar bem o papel que nos cabe. Ela sempre tem preparada uma mensagem, um refrão, um adágio, uma citação bíblica para oferecer na hora exata, parece até que adivinha o que o aluno necessita ouvir para levantar a sua auto-estima quando está baixa..Pretende viajar para a Espanha fazer seu pós-doutorado em Filologia Românica, nunca vi tanta disposição para os estudos. Marinalva é uma mulher forte, destemida, corajosa, enfrenta todos os problemas porque, para ela, a pessoa é grande quando enfrenta a realidade dos fatos. É uma pessoa transparente, sensata, honesta com suas atitudes, muito coerente. Ela não deixa para o dia seguinte o que tem de fazer no hoje. É uma pessoa eclética, de cultura geral, com seu jeito de ser
, tudo faz para não decepcionar os que nela confiam. Às vezes é misteriosa, enigmática como já mencionei anteriormente. Ainda almeja estudar Direito porque gosta muito de lidar com lei. Sua linguagem é simples como ela. Ela não, é uma simples professora, é um educadora modelo e uma intelectual invejável. Desfrutar de sua amizade é muito enriquecedor espiritual e culturalmente. Ela pertence à escassa geração de professores que têm compromisso com a causa nobre da educação.

Autora de várias obras em língua portuguesa e espanhola, usa sempre uma linguagem didática. Sua humildade a leva a pensar que só escreve para os alunos, ou seja, não usa expressões rebuscadas. O livro sobre Dona Daura, sua obra-prima, é uma obra que eu considero importante de ser lida por quem se adentra pelo caminho da cultura e da alteridade.

Conversar com Marinalva significa viajar, não a escutamos falar de moda, compras, consumo material, perfume etc., senão de livros, museus, viagens culturais. Nada material a atrae, veste-se muito simplesmente e confunde as pessoas vaidosas, sempre está surpreendendo. Volto a dizer, não é fácil compreendê-la. Ela é um enigma, é muito exigente, muito séria apesar da simpatia, muito fechada com suas dores, seus amores e desamores, mas não incomoda, é muito independente, pouco pede que alguém faça algo para ela porque não gosta de esperar nem de ser esperada. Mas é de fácil convivência, é muito positiva, transparente nas atitudes, não manda recado, vai e dá seu recado. É uma pessoa maleável com o próximo. Muito simples, não gosta de estar em evidência, trabalha muito silenciosamente, é amante do silêncio e da solidão. Não gosta de sacar foto, permite que lhe tirem foto só para ser delicada. Convive numa família grande, e o barulho sempre a molesta, por isso se isola. No silêncio da madrugada encontra inspiração p
ara seus escritos. Viver para ela significa estar numa sala de aula ou sem eu escritório trabalhando, renuncia outro tipo de vida.

Marinalva ensina desde 1960, ainda com doze anos incompletos. De lá te agora, não parou, já ensinou em várias escolas e grupos estaduais e municipais de João Pessoa. Por onde anda dá aula. De 1964 “a 1967, morou em Maceió onde concluiu deu ginásio no antigo Colégio Élio Lemos”. Lá deu aulas na Casa dos Pobres e na Savel, uma sociedade de bairro em convênio com a prefeitura municipal. Aos 18 anos incompletos, Marinalva noivou com um jornalista do Jornal de Alagoas (Maceió), em junho de 1966, devendo casar-se no dia 10 de janeiro do ano seguinte, mas no dia 31 de dezembro, rompeu o relacionamento e voltou para João pessoa com os pais, que apenas aguardavam o enlace para regressarem, pois seu inesquecível ‘adorado’pai era carteiro e foi transferido a pedido, para a terra natal da homenageada.

Como podemos perceber, Marinalva não dá trégua, é muito exigente consigo e com os que convivem ao seu lado, perdoa tudo, mas não esquece os que a fazem sofrer, embora siga convivendo com todos como se nada tivesse acontecido. Sabe como ninguém separar o joio do trigo. Não tem inimigo algum construído por ela a não ser umas duas ou três que não souberam compreendê-la nem lhe deram a oportunidade do diálogo, mas ela guarda carinho por estas e sempre as coloca em suas orações. Marinalva não tolera a mesquinharia, a mediocridade, a falsidade, é uma pessoa justa, transparente, honesta, uma pessoa iluminada, iniciada no mundo cultural. Não escolhe a quem ajudar nem quando ajudar, o que muitas vezes a surpreende as pessoas num mundo tão turbulento onde vence o mais esperto, onde cada um é cada um e só pensa em si depois no outro, e ela faz o caminho pela contramão, por isso se acidenta muito com o outro. Muitas vezes não é compreendida em suas atitudes, mesmo assim, prossegue, pois escuta muito a voz de sua consciê
ncia, penso eu que é por isso que ela se dá bem na vida e com as pessoas. Ela sempre repete da grande Mestra Daura que “ser feliz é ser útil” e ela se sente feliz assim. Com essa mestra de quem é seguidora aprendeu a dar aula com mensagens. E são muitas as que ela usa no dia a dia. Ao seu lado ninguém fica triste porque ela se aproxima, conversa, oferece apoio, tenta lenir a dor que dilacera a alma de quem sofre. Agora, as pessoas nem percebem que Marinalva, agindo assim está se autoconfortando para continuar na sua caminhada. Eu acho que ela é uma pessoa incansável, muito prática, tudo resolve, tem ‘solução’ para problemas muitas vezes complexos demais, não discrimina as pessoas, tem muito respeito pelas pessoas mais humildes, as carentes, aquelas que a vida não lhes contemplou uma chance para viver com dignidade, sofre pelas injustiças sociais.

Marinalva viajou para a Espanha em novembro de 1986, só regressando com seu doutorado concluído em julho de 1991, pois não dispunha de condições financeiras, mas aproveitou para dar muitos cursos de português e custear viagens pela Europa adentro. Lá ministrou muitos cursos de português, a convite da Casa do Brasil onde morou. Mas não reservou tempo para o amor, embora tivesse desfrutado de companhias que valeram a pena os momentos. No campo do amor ela é muito dura consigo mesma, desconfiada, desacreditada e penso porque é uma pessoa muito romântica, sonhadora, não é possessiva, capaz de renunciar a um amor para outra, como sempre fez, pois ela diz sempre que é muito importante conhecer a hora da saída e sempre era dela essa hora.

Para o mundo cão em que vivemos, Marinalva tem uma concepção esdrúxula do amor a dois e é por isso que ela optou por caminhar livremente. Convivendo com ela não se sabe, na realidade, de quem ela gosta ou não, sabe-se, sim, de quem ela permite que desfrute de sua companhia. Diz no velho adágio que, “quem tem sorte nas cartas, não tem no amor”; este se aplica bem à personalidade de Marinalva porque ela é amorosa, romântica, materna, de muita doação, muita dedicação, mas não encontrou sua cara metade,pois ela não se permite, prefere caminhar sozinha pelas estradas da vida.

Assim é Marinalva, amiga, professora, poetisa, incansável escritora. Um exemplo a ser seguido.

REFERÊNCIAS

BIBLIA SAGRADA. São Paulo: Edição Sociedade Brasílica Católica

Internacional, 1990.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário da Língua Portuguesa.

SILVA, Marinalva Freire da. Daura Santiago Rangel: Uma Educadora (Perfil coletivo). João Pessoa: Idéia, 1993.

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