Adeus a Vingt-un Rosado

20 jul 2017

vingt-un
Quinta-feira, dia 15 de dezembro de 2005, foi a última vez que vi o velho Vingt-un Rosado com vida. Ele me pareceu estranho, mais agitado e com um cansaço bem visível, diferente das outras vezes que o encontrei se queixando de sucessivas crises noturnas da velha e teimosa angina.

Vingt-un estava abatido, sem ânimo e ofegante, como fosse um prenúncio do que não queríamos nunca que tivesse acontecido. Conversamos um pouco sobre os novos títulos programados para serem lançados pela Coleção Mossoroense, tendo o velho mecenas, em seguida, pedido licença para se recolher aos aposentos, alegando desânimo absoluto.

Minha preocupação aumentou quando soube que Vingt-un havia sido internado com urgência na UTI do Dr. Bernardo Rosado. Em seguida, minhas preocupações se redobraram quando se cogitou da necessidade de levá-lo a Natal, para tratamento mais sofisticado.

Tínhamos programado mais ênfase às publicações da Coleção Mossoroense em razão de descortinar-se horizontes múltiplos quanto às futuras viabilizações às edições dos amados títulos que enriqueceriam a batalha da Cultura.

Vingt-un começou a concretizar o sonho espetacular da cultura brasileira quando Dix-sept Rosado assumiu a chefia do executivo mossoroense, no longínquo ano de 1948. Vingt-un e América iniciaram impressionante cruzada em prol da efetivação de Bibliotecas Públicas na capital do oeste potiguar, bem como lançando o embrião da Coleção Mossoroense, com o Boletim Bibliográfico.

A partir disso, Vingt-un foi gradativamente se consolidando no cenário cultural brasileiro com a edificação do mais brilhante capítulo da inteligência nacional, lançando anualmente dezenas de títulos, intuindo instruir e difundir a arte, a ciência e a cultura.

Vingt-un cumpriu brilhantemente sua missão digna e nobre. Ele se transformou em um dos maiores baluartes das letras pátrias, levando a marca indelével de Mossoró a plagas distantes, tornando-se respeitado e imortalizado em múltiplos setores, incluindo, entre estes, efetiva e importante contribuição à estruturação do ensino superior na terra de santa Luzia do Mossoró.

Filho caçula dos paraibanos Jerônimo Rosado e Isaura Rosado Maia, Vingt-un foi acima de tudo um homem bom, extraordinário e completo. Absoluto na pureza do coração, e, indelevelmente eterno, na expressão literal do termo.

Não acreditei quando fui informado que Vingt-un havia falecido, justamente no dia 21 de dezembro. Todos estávamos nos preparando para mais um Natal cheio de alegrias, mas Vingt-un se foi. Foi chamado pelo Pai Celestial, pois sua missão estava concretizada extraordinariamente.

Convivi durante quase oito ininterruptos anos com Jerônimo Vingt-un Rosado Maia. Ele me convidou para assessorá-lo quando de minha fixação na capital do oeste potiguar a partir de 1998. Colaborei com Vingt-un a fim de que a Batalha da Cultura tivesse sua ênfase. Orgulho-me de ter feito parte de sua equipe, fomentando a dinâmica da Coleção Mossoroense.

Vingt-un Rosado, sinônimo de visão e clarividência. Vingt-un, sinônimo de cultura e amor ao próximo. Acompanhei-o em duas ocasiões em viagem à Paraíba, quando ele resolveu doar mais de duzentos livros da sua amada Coleção Mossoroense às Secretarias de Educação e Cultura dos municípios sertanejos de Pombal e Catolé do Rocha.

Vingt-un deixa muitas saudades. É difícil para todos nós que buscamos valorizar a cultura continuar as batalhas sem a presença do grande engenheiro agrônomo que se igualou a Guimarães Duque, José Augusto Trindade, Benedito Vasconcelos Mendes, Eloi de Sousa, Felipe Guerra, Tércio Rosado, entre outros, no que tange ao amor ao nordeste e na busca de soluções para os problemas dramáticos que afligem o povo sofrido dos rincões esquecidos da terra do sol.

O solo turoniano de Mossoró deve se sentir orgulhoso em receber tão ilustre personalidade que Deus chamou para a eternidade. Vingt-un Rosado descanse em paz meu querido velho, pois tenhas certeza que sua passagem iluminada por este plano foi coroada com todos os êxitos.

José Romero Araújo Cardoso

(*) José Romero Araújo Cardoso. Professor adjunto do departamento de geografia da UERN e assessor da Fundação Vingt-un Rosado/Coleção Mossoroense.

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