Almas poliglotas

10 jun 2017

almas poliglotas

Almas poliglotas

Quando as almas errantes saem à noite, falam mais holandês em Recife do que em João Pessoa. O confrade da APL, Odilon Ribeiro Coutinho, disse-me que confidenciou ao seu amigo Gilberto Freire ter visto, várias vezes, um soldado holandês andando na João Machado, da Capital paraibana. Na verdade, as almas não gostam de falar, mas na falta de caçarolas derrubadas na cozinha , da queda de retratos pendurados na parede, das batidas de portas ou janelas ou de assobios do vento anunciando suas presenças, elas passam furtivamente, soltando estranhas vozes, como “vozes do além”.

Os gringos das “Terras Baixas” preferiam as costas pernambucanas às paraibanas e baianas; ora aportando em Olinda, ora em Recife, até Maurício de Nassau se estabelecer por lá, onde corpos e almas viveram 24 anos, só então expulsos pela “capitulação neerlandesa”. Mas, em tocaias, resistências, como a patriota “Batalha dos Guararapes”, mataram muitos “invasores”, restando-nos essas almas desamparadas com suas assombrações. Essas histórias de encantamento foram suficientes para Gilberto Freire escrever volumoso livro: “Assombrações do Recife Velho”.

Tais almas penadas não se limitam às ruas e aos casarões do Marco Zero; vagueiam à toa pela cidade, atravessando as pontes do Rio Capibaribe em direção à vetusta Faculdade de Direito, do Teatro Princesa Isabel ou aos corredores do Palácio das Princesas. O poeta Manuel Bandeira sofreu muitos sustos na Rua da União, onde aconteceram aparições também de outras etnias: Espíritos de colonizadores lusitanos; de jesuítas perseguidos por Marquês de Pombal ; de escravos clamando liberdade; ou de algum judeu torturado pela inquisição, como o fantasma da israelita Branca Dias. Acredite quem quiser, em qualquer lugar, as almas se comunicam pela força da mente, não precisam falar. Mas, geralmente quando falam no Velho Recife, falam holandês…

Damião Ramos Cavalcanti
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