APRESENTANDO “UMA RELEITURA DO EU DE AUGUSTO DOS ANJOS” DE MARINALVA FREIRE DA SILVA

3 ago 2018

Confesso ter recebido com sobressalto a missão de apresentar o livro “Uma releitura do Eu de Augusto dos Anjos”, de Marinalva Freire da Silva. Aceitar foi uma honra e um desafio. Marinalva tem em seu portfólio uma ampla produção literária. São livros de poemas, ensaios, crítica literária, um dicionário erótico e até mesmo uma tradução de “Eu” para o espanhol.

Posso antecipar que, em seu novo trabalho sobre Augusto, Marinalva superou-se. “Uma releitura do Eu” é uma obra madura, de quem realmente conhece o ofício e, especialmente, tem familiaridade com o trabalho do nosso maior poeta.

O livro está habilmente segmentado em vários aspectos da poética de Augusto. Começa com o contexto histórico e cultural de sua época. E aqui algumas informações, até polêmicas, sobre a real localidade onde nasceu Augusto (1984). Segundo sua pesquisa, ocorreu no Engenho Pau D’arco, em Pedras de Fogo, que posteriormente passou a Cruz do Espírito Santo e, finalmente, Sapé.

Marinalva tem o cuidado de contextualizar o trabalho de Augusto numa época em que a literatura brasileira era fortemente influenciada pelos escritores europeus, especialmente franceses, e mostra como Augusto foi beber na fonte do cientificismo, sobretudo o darwinismo, como a “A origem das espécies”.

Era um tempo marcado por descobertas importantes como a radioatividade, ou os primórdios da revolucionária Teoria da Relatividade, de Albert Einstein. O Brasil saia na Monarquia para tentar se encontrar na República. Apesar de que, afora mudança de Governo, pouco efetivamente avançou. Era também um tempo de expectativas, angústias e esperanças frustradas. Um tempo, enfim, de ruínas até.

Nesse ambiente, Augusto iniciou sua obra. Sua formação acadêmica, na verdade, começou em Recife, onde se formou em Direito, em 1904. Apesar de não ter sido um advogado brilhante, como se poderia esperar de uma mente brilhante e diferenciada, Augusto só se notabilizaria anos depois, e pelas letras. Sua vocação estava noutro vértice.

Ele estava condenado a ser um poeta. E um poeta de seu tempo, de um tempo que nunca existirá, ou de um tempo eterno. Um de seus poemas que mais aprisionam este espírito de Augusto, naquela quadra tenebrosa e de tantas incertezas,é “Os cismas do destino”, registrado por Marinalva em seu livro como ponto de mutação: “Recife, Ponte Buarque de Macedo/ Eu, indo em direção à casa de Agra/ Assombrado com minha sombra magra/ Pensava no destino e tinha medo!”

Marinalva vai buscar, em sua pesquisa, os detalhes mais refinados da obra do poeta, como um aparente paradoxo, que enfeixa o autor e sua obra, talvez por isso mesmo eterna em sua tautologia: “Largado do mundo fundamental, resgata-opara encontrar-se; perde-se e reencontra-se; foge da superficialidade e embrenha-se na unidade ordinária e, depois, no choque com o ambiente que o cerca, cede e verifica, por fim, que entre os dois polos há necessidade de harmonia…” Então, pontua com percuciência: “O poeta do Eu age não só como autor, mas também como ator.”

Também será possível observar cerca influência da obra de Herbert Spencer, o que se revela em sua constatação da incapacidade de se conhecer a essência das coisas, apesar de faltar tão bem delas, talvez até mais da Das Ding (a coisa), de Sigmund Freud, em Projeto de uma Psicologia. Em Arthur Schopenhauer foi perceber como o aniquilamento da vontade própria talvez significasse a saída derradeira para o ser humano a justificar o sentido da vida.

Augusto é sua obra. É inescapável. Há uma simbiose perfeita. O estranho que há no pacto da criação literária de Augusto está ali com o poeta, intrinsecamente mimetizado. O eu de Augusto e o Eu da obra são um só. Esse viés, de caráter profundamente psicanalítico, foi apreendido por Marinalva e realça a origem da criação que tanto estranhamento tem causado geração após geração, como parte de uma simbiose universal, redescoberta a cada momento, com novos elementos da contemporaneidade.

Outro dos aspectos destacados pela ensaísta é o vocabulário singular utilizado por Augusto, com terminações científicas e um vernáculo erudito, algo inédito no Brasil. Marinalva prospecta, por exemplo, 20 das palavras mais utilizadas pelo poeta em “Monólogo de uma sombra”, que até parecem fora de semântica, como uma metonímia própria, mas termina por concluir em sua análise da obra, que elas, as palavras, estão precisamente onde deveriam estar. Metáfora, após metáfora. Quase dá para antever os olhos de Jacques Lacan por trás de sua observação, quando ele afirma que “toda arte se caracteriza por um certo modo de organização em torno desse vazio”, em O Seminário, Livro 7. O vazio, assim como o desespero, tão presentes na obra de Augusto.

Então, se a obra de Augusto traz umacandente visão cósmica, sobressai igualmente o desespero radical, estabelecendo as bases de uma nova poética até certo ponto violenta e, naquele contexto, absolutamente nova nos trópicos. Se de um lado, há a linguagem científica e extravagante, fruto de suas múltiplas influências, há de outro uma cumplicidade com vazio das coisas, numa expressão do nada, como trata tão bem Marie-Claude Lambotte (O discurso melancólico) e as iminências da morte (pulsões de morte) em suas manifestações mais repugnantes, como quando trata do estado de putrefação e decomposição da matéria.

Quando faz a análise do poema “Asa de corvo”, Marinalva também identifica, com precisão, os elementos da semiose constante na obra do poeta, mostrando os significantes mais destacados das suas motivações, fortemente permeadas de melancolia e proximidade com a pulsão da morte, numa simbiose que poucos poetas conseguiram imprimir em sua escritura.

Este estado de fragilidade do eu, que realmente coloca o melancólico em contato direto com o vazio se expressa em poemas, como “Queixas Noturnas”, expressado em seus últimos versos: “Melancolia! Estende-me a tua asa! / És a árvore em que devo reclinar-me…/ Se algum dia o prazer vier procurar-me / Dize a este monstro que eu fugi de casa!”

Observa-se ainda como Augusto termina por se valer de muitas técnicas da escola expressionista, na usinagem de seus textos, uma característica que o distingue claramente dos poetas de sua época. Talvez até como uma rebeldia em relação ao impressionismo, indispondo-se contra o refinamento, o gosto pelas nuances e certa sutileza na captação dos detalhes.

Por fim, a autora também registra, de forma meticulosa, uma faceta de seu estilo, todas as seguidas edições do “Eu”, desde a primeira, em 1912, que sequer foi registrada pela Academia Brasileira de Letras. Chegou, inclusive, a ser repudiada publicamente em vários círculos acadêmicos, pelo seu conteúdo intrigante. Considerado até bizarro. A curiosidade foi, em verdade, ter recebido registro na Academia Nacional de Medicina.

Aliás, conforme registrou também o escritor Carlos Heitor Cony, em “Eu – O monossílabo que fala” (Folha de São Paulo – 7.set.2012), Augusto “foi considerado um ‘caso patológico’, um ‘poeta inclassificável’. Seus versos não poderiam ser declamados sob pena de ‘provocar engulhos, risos e vaias’. Para todos os efeitos, Augusto dos Anjos era ‘aberrante, estapafúrdio, desequilibrado’.”

Augusto, o rebelde obstinado, que, ao ter negado um pedido de licença do governador do Estado para ir ao Rio de Janeiro, decidiu sacrificar sua carreira acadêmica de professor do Liceu, para lançar seu livro na Capital Federal, levando sua esposa grávida de três meses, toda a angústia e, como sempre, tantas incertezas. E, somente graças à ajuda de seu irmão, Odilon, conseguiu os recursos necessários para publicar o livro às suas próprias expensas, depois de seguidas e frustradas tentativas de convencer os editores da época, que não acreditaram no trabalho.

Igualmente penosa foi sua tentativa de viver no Rio de Janeiro. Ingressou temporariamente na Escola Normal, onde não ganhava o suficiente para sustentar a sua família. Seu sonho, na verdade, era lecionar no Colégio Pedro II, referência da época, e por onde passaram tantas celebridades. Assim, sem conseguir o pretendido emprego e o acúmulo de dívidas, foi tomado por uma profunda depressão, agravada pela  reação indiferente dos críticos e, especialmente, pelo silêncio dos meios intelectuais sobre seu livro.

Terminou por migrar para Leopoldina, em Minas Gerais, onde morreu praticamente anônimo, silencioso e desconhecido, menos de quatro após ter lançado as bases de uma poética absolutamente inovadora e instigante com seu único livro. Livro que, ironicamente, foi redescoberto mais uma década depois e se transformou um dos livros de poemas mais reeditados no Brasil. Em 1920, o um grupo de admiradores da obra publicaram a 2ª edição do livro, que rapidamente se tornou obra de referência no País.

Aliás, outra ironia ainda se reporta à 1ª edição, cujos exemplares, ficaram encalhados por anos, sem as vendas imaginadas por Augusto que morreu e não conseguiu pagar ao irmão o empréstimo para a sua publicação. Mas, desta 2ª edição de 1920, seguiram várias outras, até a de número 41, publicada recentemente pela Editora Universitária da Universidade Federal da Paraíba.  Nunca um poeta foi tão reeditado.

Ao final de seu livro, Marinalva traduz, com precisão, o que Augusto representa para a Literatura Brasileira, quando sintetiza:

 

O tempo encarregou-se de demonstrar o que o “Eu” continha de novo para a Literatura Brasileira, uma original mensagem e, se fosse contrário, por certo não despertaria tanto entusiasmo como fonte de sustentabilidade poética.

 

Marinalva, com seu livro tão oportuno, se não resgata Augusto, posto que ele já foi resgatado por uma fortuna crítica ímpar na poética do autor, nos brinda com um livro que reforça a preciosidade de sua obra e, em certo sentido, redime o poeta dos poetas de tantas injustiças sofridas em vida.

 

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