As pérolas

16 abr 2013

De pé, na varanda do seu apartamento, de frente para o mar, Eugênio está há horas observando-o, haja vista que naquela tarde o mar está com um tom azul-esverdeado, belo, calmo, com águas serenas, como se estivesse em repouso. Bem diferente do seu estado de espírito, agitado, inquieto, em verdadeiro maremoto de angústia. Nem de longe Eugênio sente a paz que a natureza espalha nesse momento.

Nesse momento, seus olhos se fixam em bando de aves que sobrevoam calmamente as águas tranquilas do mar, na mais completa harmonia com os outros elementos da natureza, como o vento, que é brisa suave àquela hora. Diferentemente daquelas aves, ele se encontra na mais completa desarmonia, está angustiado, inquieto. A ferida no peito teima em não cicatrizar, o filete de sangue jorra sem parar. Não pode ouvi os pássaros cantar: é choro doído.

Sem saber o porquê, naquele dia, observando o mar, ele pensa nas ostras. Sim, de como elas produzem as pérolas. A pérola é o resultado da cicatrização de uma ferida na ostra. É o resultado de um sofrimento terrível; de um incômodo doloroso. As pérolas nascem graças à dor de uma ostra. E Ele pensa que como seria interessante que por meio dos seus sofrimentos, os humanos pudessem produzir pérolas; pérolas de solidariedade, de companheirismo, de respeito, de partilha e de amor ao próximo e a si mesmo.

Eugênio olha fixa e profundamente as águas do mar. Elas são densas, tão profundas quanto sua dor. Cinco meses já se passaram, mas ela ainda é quase insuportável. Dor de amor; amor verdadeiro, puro, desinteressado; amor entre um homem e um pássaro. Um homem maduro e um pássaro tão jovem, ainda sem todas as penas, quando se conheceram, e construíram ao longo de quase onze anos de convivência, uma linda e sincera amizade. Mais do que isso, havia amor entre eles.

Eugênio pensa ser uma ostra; uma ostra com uma enorme ferida nas entranhas. Uma ferida aberta, que não cicatrizara, e que ele temia que jamais cicatrizasse. Uma ausência tão presente em todos os seus dias, no seu cotidiano, em quase todos os seus momentos. Uma presença em todos os lugares da casa, do jardim, do quintal… Quanta saudade.

Uma revoada de andorinhas desperta-o de suas saudosas e dolorosas lembranças. Olha o mar durante algum tempo, e novamente pensa nas ostras e no doloroso processo por que ela passa a ter produzir pérolas: para a ostra sobreviver ela tem que si abri completamente para captar os nutrientes que estão presentes na água do mar. No momento em que ela se abre para se nutrir, junto com o alimento ela engole algum corpo estranho, como um grão de areia, por exemplo, ferindo seu interior, causando dores e incômodos. Para amenizar as dores e os incômodos ela libera uma substância chamada madrepérola, que vai revestindo o grão de areia, que se transformará em pérola. Sem passar por esse processo, a ostra nunca produzirá pérolas.

Meditando esse processo, Eugênio sabe que precisa se abrir completamente para curar sua dor. Sobe no parapeito da varanda, abre os braços completamente. Seus olhos voltam a brilhar, e nos lábios aflora um largo sorriso. Como um pássaro, voa em queda livre em direção ao mar.

Francisca Vânia Rocha

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