Augusto dos Anjos e a pós-modernidade

1 ago 2015

Marinalva Freire da Silva

O termo ‘pós-modernidade’ é um modismo na língua; foi criado para fazer referência aos fatos que vêm depois, o que significa dizer que indica uma ruptura na qual o pós-moderno passa a negar o moderno, quando, na realidade, trata-se das modificações provocadas pela revolução tecnológica, fruto da sociedade capitalista. Nesta fase há uma quebra de paradigmas, uma inversão de valores.

A vanguarda é a mais importante revolução cultural e política, rompendo com todas as convenções do passado e ressoando na história.

Para que haja uma ruptura, faz-se necessário que ressoe na história, ou seja, é necessário que tal fato se torne uma referência para outras manifestações (ORLANDI, 2006) sobre que movimentos de vanguarda guarda eclodem em uma sociedade em tramitação que passa de um cenário agrário a um urbano.

Sousa (2001: 29) argumenta que a pós-modernidade é uma experiência cultural, uma condição ou talvez a combinação das duas. Nesse sentido, Lyon (apud SOUSA, 2001) considera a pós-modernidade uma ideia de forma de crítica na mente dos intelectuais e nos meios de comunicação.

O curioso é que a pós-modernidade só pode ser entendida com sua cumplicidade ética do ser que estão no espaço antes preenchido pela modernidade, o que significa dizer que os desafios que os desafios pós-modernos estão voltados para os ideais, os valores e os símbolos da vida capitalista, como eles aparecem na vida dos consumidores e no consumo mesmo.

Sabe-se que a modernidade é um projeto inacabado (HABERMAS, 2000). Ele teve início muito antes da Semana de Arte Moderna, em 1922, deu o recado do caos telúrico através de um reflexo do futuro incerto, como o é todo futuro. É fácil justificar este argumento, quando se toma por parâmetro a agonia cósmica do “Eu” de Augusto dos Anjos, escritor de uma única obra, que disse para o que veio; ele antecedeu, sim, a Semana de 1922, traçando o caminho do “absurdo”, do caos “telúrico” a partir de “uma Sombra”, previu os acontecimentos do mundo moderno, como as duas primeiras guerras mundiais, a era da cibernética, a inversão dos valores humanos, as grandes descobertas científico-tecnológicas, um marco da modernidade. Nele se encontra uma ruptura profunda, uma crise de valores:

“Tome, Dr. ,esta tesoura, e…corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!

(Budismo moderno.In Eu, 2012: 76, v. 1-4)

A falta de esperança, de perspectiva de dias melhores amargura a existência de um poeta “agônico”. Neste espaço de angusticidade, Augusto dos Anjos quebra os paradigmas da ordem estética, proclama o caos que assola a humanidade. Tem visão apocalíptica; transgride a ordem da poesia, quebra os grilhões do parnasianismo, da mesmice, do modelo enfadonho da época. Sua obra é uma ponte entre o moderno e o contemporâneo. A aspereza de seus versos é fruto da modernidade, é um grito que lhe estava preso na garganta – a falta de sentido do outro, de sentido da vida, a desesperança dos excluídos, um produto do capitalismo exacerbado, desumano, que coisifica o homem, robotiza-o; a crise dos sentimentos, a falta de amor entre os iguais, a corrida desenfreada em busca do ouro, levando o homem ao “vale quanto pesa”, vale pelo que tem a oferecer, assim, constata-se ausência de alteridade, ou seja, falta a ética cristã para se ter uma sociedade mais justa.

A modernidade trouxe à baila o anarquismo, a vulgaridade; mas Augusto dos Anjos não optou pela vulgaridade, não escolheu a pornografia para chamar a atenção do mundo que (se diz civilizado) sobre a falta de esperança dos excluídos, dos miseráveis; da injustiça social. Ele manteve uma linguagem elegante, embora desagradável ao sabor dos parnasianos, uma linguagem carregada de uma carga semântica picante, acre, denominado por muitos críticos literários de: o poeta do mau gosto, do absurdo, do negro, da podridão. Sim, da podridão moral, dos valores. Augusto dos Anjos pode ser considerado um poeta de transgressão, posto que rompesse com a métrica rígida do parnasianismo cujo estilo era o equilíbrio, estética; assimilou toda crise da modernidade, as guerras, os conflitos bélicos, raciais, religiosos capitalismo selvagem, o que induz considerá-lo contemporâneo.

Não apenas a literatura, a música da vanguarda também rompe com a “ordem”. A partir de 1930, houve uma retomada dos primeiros passos da chamada pós-modernidade, há um processo de ruptura, de transformação da estética. A Semana de Arte Moderna trouxe à tona a nota destoante de todos os equilíbrios.

A chamada pós-modernidade é uma inversão total de valores, e Augusto dos Anjos, que não é considerado pós-moderno, antecipou-se a essa inconformação. Ele antecede ao período de 1922, pois já chamava para a crise dos valores que dignificam o homem. Sim, era um inconformado, uma voz sem eco para sua época e, quem sabe, ainda sem o “pós” para a contemporaneidade.

A antecipação da inconformação de 1922 significa a inconformação contemporânea, pois é nesse período pré-22- que se está vivendo hoje. Ninguém superou ainda a incerteza da modernidade, ou seja, o homem que deveria ser o centro das atenções no universo, é posto em último plano. É grande o caos da modernidade pela falta de sentido do outro, cada um pensando em si, no melhor para si, descartando seus iguais como se fossem um objeto de estimação que logo perde seu valor estimativo e torna-se descartável, o que equivale dizer que o homem vale pelo que pode produzir, pelo que tem a oferecer . O capitalismo “desumano”, cruel, é tão insaciável que se apodera do sexo como o mapa de um mina “inesgotável”. E o homem vai ficando aqui, ali, enquanto o amor, que é algo sublime, a razão de ser da existência humana, passa o largo, sem encontrar guarida, espaço porque o homem está ocupado com o quantum o negociável, o rentável, com o sexo coisificado e banalizado, porque utilizado, praticamente, em todas as estâncias da sociedade com um único objetivo- a corrida para o ouro. E assim, o casamento e a família, enquanto instituições, estão desaparecendo. Os filhos não são mais frutos do amor, senão de momentos de prazer, mas que , em seguida, tornam-se indesejáveis porque vai mudar o decurso da vida, vai atrapalhar planos que não foram traçados, mas o destino se encarregou de fazê-los. Assim, na pós-modernidade, a maioria das crianças não desejadas, vêm ao mundo desprovidas de amor, afeto; conforme o padrão paterno, a muitas nada lhes faltam materialmente. Mas e os sentimentos de afeto? Estas crescem sem o tempo dos pais, sem os olhares necessários ao seu desenvolvimento principalmente psicológico, sem a ajuda para dar os primeiros passos. E o mundo se encarrega da desorientação; e, lamentavelmente, as drogas são o lenitivo da afetividade.

Que tristeza! Mas é a chamada pós-modernidade que conduz o homem aos caminhos tortuosos. “Aqui é oportuno conclamar Platão: “Eduquem-se as crianças e não será preciso castigar os homens”, pois, já ensinava Rousseau que “o homem nasce bom; a sociedade é que o corrompe”. Porém, não há tempo para o diálogo, para se ouvir o outro posto que o ter é o que importa.

Retomando, a literatura é uma inserção na história e, como tal, reflete toda inquietação, todos os conflitos que ocorrem a sociedade. Essa inquietação justifica-se pela inconformação diante da exclusão, que prova ma síndrome, denominada “síndrome da pós-modernidade”. Mas somente a posteridade é que confirmará a existência de tão badalado movimento.

Como é possível observar, a crise de sentido no mundo atual aparece com síndrome da modernização e da pluralização da sociedade. Nesse sentido, Berger & Luckmann (2004:49) afirmam que a modernidade significa um aumento quantitativo e qualitativo da pluralização, e se não for possível limitar a interação, causada pela pluralização, por “muros” de um tipo, o pluralismo se tornará plenamente atuante e, com isso, também uma das suas consequências: a crise “estrutural” de sentido.

Essa afirmação sobre a crise de sentido no mundo de hoje induz a concordar com os referidos autores no tocante a que o pluralismo leva a um enorme relativismo dos sistemas de valores e da interpretação.

Constata-se que são inúmeras as contradições desta modernidade tardia que, ao sofrer mudanças com a tecnologia, impulsionada pelo capitalismo exacerbado, que não “permite” ao homem ser o centro do universo, colocando-o em segundo plano. Desta forma, a maior contradição deste período denominado de pós-moderno está assentada na base do estruturalismo, do efêmero, do prazer, do consumo exagerado como forma de preenchimento de um vazio pela falta de sentido dos se, portanto, este movimento de efemeridade da pós-modernidade conseguiu abalara certezas inabaláveis, deixando o humano embevecido com o ter e esvaziado do ser.

Por conseguinte, o grande desafio de uma política pós-moderna é esta dupla perspectiva: de um lado, a transformação da história por um simples ato de vontade imaginativamente, e de outro, uma total radicalidade no sentido de que tudo é imaginativamente possível, porque, de fato, nada tem valor.

Referências

ANJOS, Augusto dos. EU e outras poesias. Edição comemorativa dos 100 anos do EU. João Pessoa: Academia Paraibana de Letras. Senado Federal, 2012.
BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Tradução: Edgar Mauro Gama e Cláudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
EVANGELISTA, João Emanuel. Elementos para uma crítica da cultura pós-moderna. Revista Novos Rumos. São Paulo: Novos Rumos, v. 34: 29-40, 2001.
HABERMAS, Jürgen. O discurso filosófico da modernidade. São Paulo: Cortez, 2004.

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