CAFÉ

13 jul 2016

Atormentada, Dolores procura a confeitaria do Shopping Sul, todo finalzinho de tarde. E ela, ao contrário do que parece, nem gosta de café. Busca mesmo é o movimento, a agitação, o vai e vem das pessoas que circulam pelas lojas, livraria ou pelas agências bancárias. Necessita sentir a vida em sua efervescência. Não pode ficar sozinha. Precisa fugir da morte.

Sentada em uma mesa lateral, isolada, com uma xícara de porcelana branca nas mãos, já marcada pelo tempo, quem a observar, julgará que ela toma seu café lentamente para melhor saboreá-lo, como fazem os apaixonados por essa bebida. Na verdade ela assim o degusta para demorar mais tempo sentada na cadeira da confeitaria, ouvindo as conversas paralelas, observando as pessoas, sorrindo, vez por outra, para alguém que a olha fixamente. Às vezes precisa tomar duas xícaras de café. Quando a dor está quase sufocando-a, levando-a ao desespero, à loucura, ao desejo de morte. Precisa, então, fugir. Urge maquiar sua dor.

Quem a ver sentada, bem vestida, perfumada, sempre com um sorriso a oferecer, nem desconfia da sua dor. Ela não a deixa transparecer. Não a compartilha. Esconde seu tormento de todos. Tem receio, vergonha. Certamente as pessoas não compreenderão sua dor. Não serão capazes de entender esse amor. Amor verdadeiro. Totalmente desinteressado, que não busca receber nada mais do que recebia: amor.

Se os homens já não são capazes de amar os semelhantes, não compreenderiam uma amizade assim. Um amor incondicional, conquistado na simplicidade, na vivência, no dia a dia. O café está frio. Parece combinar com sua alma, por isso ela o toma lentamente, como quem concretiza uma dor. Ao pensa nele, sente arrepios, falta de ar, mal estar, culpa, remorso. Sentimentos que se misturam, aumentando sua dor.

Ele morreu, e a culpa foi sua. Um deslize seu, um pequeno descuido e ele se foi para sempre. Seu amigo fiel, seu companheiro de todas as horas: o pássaro verde, que cantava e encantava. Uma amizade única, que durara onze anos. Um amor para sempre, que por enquanto ela não pode nem lembrar, para não sucumbi à dor da perda.

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