Crise de hegemonia: desmantelo

6 abr 2013

Crise de hegemonia: desmantelo
(*) Rinaldo Barros

Nunca torci tanto para estar enganado quanto estou torcendo nesta conversa de hoje.

Nestes últimos dias, têm-me vindo freqüentemente à cabeça as palavras que Hegel, noutro contexto, escreveu no inicio de um ensaio sobre a Constituição alemã: “A Alemanha não é mais um Estado”.

E vou repetindo para mim mesmo a pergunta: “Ainda somos um Estado?”

Durante séculos, o Estado, a começar pelas antigas cidades gregas, foi representado e concebido como um conjunto de partes ligadas entre si, formando um corpo unitário.

Não existe Estado sem um princípio ordenador, sem um Projeto de Nação, unificador.

Às analogias da máquina e do organismo, tidas hoje como superficiais, juntou-se a analogia do Estado como um “sistema”, no sentido da teoria dos sistemas, derivando a expressão técnica, já em uso no dia-a-dia, de “sistema político”. De qualquer forma, permanece a imagem do Estado como um todo unitário.

O movimento desse conjunto de partes deveria ser originado por um único centro propulsor, o órgão decisório. Ou seja, o governo deveria governar, dar rumo, régua e compasso.

Em qualquer sociedade organizada, das mais simples às mais complexas, não se pode falar de Estado se não se consegue dar uma resposta clara à pergunta: “Quem governa?”

Quem observa o patropi, fica deveras embaraçado. Antes de tudo, por ver relegados para segundo plano esses documentos sem valor que são as constituições (nacional e estaduais) e as leis orgânicas municipais.

O patropi caminha como se estivesse numa aventura, sem mapa, numa região sacudida pelas forças da Natureza. Nas cartas, no ordenamento jurídico, cada coisa está (ou deveria estar) em seu lugar e todas num conjunto compõem um desenho harmonioso, uma figura racional em equilíbrio.

Quando jogamos fora o mapa, a orientação torna-se cada vez mais difícil, como se torna também difícil encontrar o ponto de conexão entre as partes e identificar o elemento unificador.

O centro propulsor e unificador encontra-se na dialética entre o Parlamento e o Governo. E tomara que o Parlamento, com seus atuais Presidentes, interrompa sua trajetória lamentável de perda de sua legitimidade.

Quando falta um centro unificador, o sistema vai se desmantelando, como um relógio desmontado ou um corpo desmembrado. As várias partes do todo não conseguem mais funcionar como um conjunto.

Os estudiosos chamam a isso de “crise de hegemonia”.

Alguns estudiosos afirmam que se trata do marco inicial de um período caracterizado pela quebra da dominação oligárquica. Em outras palavras, as oligarquias estariam perdendo o controle do Estado, mas não existe ainda uma definição clara sobre o novo conjunto de forças (classe dirigente) que assumirá o poder.

Não existiria ainda um novo projeto político de poder capaz de se tornar hegemônico no patropi.

No miolo da “crise de hegemonia”, sabe-se que a capacidade de dirigir, de exercer o poder, constrói-se de fora para dentro do Estado. Não se trata de impor a vontade pela força, mas de propor uma alternativa cultural e ideológica que cimente solidariedades e interesses da maioria.

O instrumento principal de sua articulação seria a existência de um partido político capaz de fundir os interesses e os desejos da massa com um saber e uma visão de mundo que os torne factíveis e desejados.

Nesse sentido, paralisado pelo pragmatismo, o patropi ainda é uma sociedade sem alternativas.

Disso decorre uma enorme perda de energia, para obter resultados mínimos, por vezes ridículos, que deixam todos descontentes e provocam imediatamente novas questões, as quais tornam a convivência ainda mais desordenada e mais obstruída a comunicação entre governantes e governados.

Pra reforçar essa impressão, a revista Exame mais recente alerta para o caos logístico, que levou a China a cancelar a compra de 2 milhões de toneladas de soja (R$1,1 bilhão de dólares) porque dos 12 navios que deveriam entregar a soja em janeiro e fevereiro, só dois chegaram ao destino até agora. Os grãos, frutos de uma safra recorde – não embarcados – estão apodrecendo nos caminhões, porque demoram nove dias para percorrer 2 mil quilômetros. O caos logístico gera prejuízos e impede o crescimento econômico.

As estradas, como de resto todos os modais de transportes brasileiros integram o atual contexto de desmantelamento das relações institucionais, por falta de comando, de investimentos em infraestrutura, e de um Projeto para o Brasil.

Oxalá, e esse é o maior dos oxalás, os eventuais presidenciáveis apresentem um Projeto para a nação, o que falta para o Brasil voltar a ser um Estado, passo decisivo para construir o desenvolvimento. Falei!

 

(*) Rinaldo Barros é professor – rb@opiniaopolitica.com

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