Dois livros mostram que potências ocidentais livraram a cara dos nazistas…

14 set 2017

Gilson M. Gondim

Dois livros recentemente lançados no Brasil mostram que americanos, ingleses e franceses, em nome do anticomunismo, da Guerra Fria e da necessidade de ter uma Alemanha capitalista cooperativa, livraram a cara da grande maioria dos criminosos de guerra nazistas. Tirando um punhado de integrantes da cúpula, só se deram mal mesmo os que caíram nas mãos dos soviéticos. Mesmo na cúpula houve quem se safasse, como Albert Speer, ministro da Indústria de Armamentos do Terceiro Reich, que comandou fábricas que usavam trabalho escravo com altos índices de mortalidade.

O promotor soviético queria a pena de morte para Speer, mas os promotores inglês, francês e americano impuseram uma pena de apenas 20 anos de prisão. Como tinha somente 40 anos de idade quando a Guerra acabou, Speer saiu da cadeia relativamente jovem e ainda pôde curtir 15 ou 16 anos de liberdade, com muito dinheiro, pois se tornara um escritor de sucesso, supostamente contando os segredos do Reich. E ainda ficou conhecido como “o bom nazista”! Adolf Eichmann, o administrador-geral do genocídio, só foi punido, com 15 anos de atraso, porque o Mossad, o serviço secreto israelense, foi buscá-lo na Argentina. Mengele, o mais conhecido dos médicos que faziam experiências pavorosas com prisioneiros, nunca foi pego e morreu tranquilamente no Brasil. Klaus Barbie, o “carniceiro de Lyon”, viveu décadas na Bolívia e só foi condenado na França (à prisão perpétua) com mais de 80 anos. Passou apenas quatro anos preso; morreu em seguida. Os exemplos são inúmeros.

Mas mesmo os nazistas que caíram na mira do promotor judeu alemão naturalizado americano Robert Kempner, condenados na Alemanha Ocidental entre 1947 e 1949, terminariam impunes. Diz um dos livros que vou citar a seguir (“O diário do diabo – Os segredos de Alfred Rosenberg, o maior intelectual do nazismo”): “Em 1951, após uma revisão das sentenças, o alto-comissário americano para a Alemanha libertou um terço dos condenados em Nuremberg e comutou quase todas as sentenças de morte, à exceção de cinco. No final do ano, todos os nazistas que Kempner tinha posto atrás das grades no Caso 11 estavam soltos. Em 1958, quase todos os criminosos de guerra estavam soltos”.

Muitos alemães interpretaram isso como uma admissão, por parte dos aliados, de que houvera crimes de guerra dos dois lados. De fato (pesquisa minha na Internet), enquanto morreram 14.000 britânicos em ataques aéreos alemães, morreram 600.000 alemães em ataques aéreos anglo-americanos dirigidos especificamente a populações civis (entre os 600.000, 76.000 crianças, a grande maioria numa fase da guerra em que a Alemanha já estava derrotada). Até animais do Zoológico de Berlim foram mortos (há fotos de um elefante e uma girafa mortos num bombardeio). A cidadezinha de Pforzheim, por exemplo, com apenas 63.000 habitantes e nenhuma importância estratégica, perdeu um terço de sua população numa noite de ataques ferozes em 16 de fevereiro de 1945, com a guerra praticamente terminada. Isto me lembra o “Air Force General” americano que comandou os ataques aéreos de seu país à população civil do Japão (numa única noite em Tóquio, morreram 90.000 civis em ataques com bombas incendiárias; isto sem falar em Hiroshima e Nagasaki). O general, que aqui no Brasil teria o título de brigadeiro, disse: “Nós não vamos ser julgados por crimes de guerra porque ganhamos a guerra”.

Bom, mas voltemos à impunidade dos nazistas. Um dos grandes responsáveis por ela foi uma figura reverenciada pelo sistema de poder ocidental, o democrata-cristão Konrad Adenauer, que se tornou primeiro-ministro da República Federal da Alemanha em 1949, quatro anos após o fim da guerra, e ficou no cargo por catorze anos, até 1963. Adenauer é considerado o grande reconstrutor (com a ajuda do Plano Marshall, é claro; os americanos não pouparam dólares para barrar os soviéticos). Adenauer, conservador e anticomunista ferrenho, foi um grande protetor de nazistas, cuja luta feroz contra os soviéticos ele admirava.

O primeiro livro, que já li, é “Nazistas entre nós – A trajetória dos oficiais de Hitler depois da guerra”, do historiador e jornalista paulista Marcos Guterman. Minha restrição a esse livro é que, como costuma acontecer, ao referir-se às vítimas do nazismo ele fala sempre em “judeus e outras minorias”. Estas outras minorias nunca recebem um nome, e assim continuamos sem saber que os ciganos, por exemplo, foram tão perseguidos quanto os judeus. Morreram de cinco a seis milhões de judeus e de 500 a 600 mil ciganos. Só que havia muito menos ciganos na Europa do que judeus, de modo que, proporcionalmente, a matança foi bem semelhante. Há um livro do judeu Ben Abraham (“O massacre de seis milhões”) em que ele se livra dos ciganos de um modo tão engenhoso quanto desonesto: um judeu polonês morto não é um polonês, mas um judeu, enquanto um cigano romeno morto não é um cigano, mas um romeno. Os ciganos desaparecem nas nacionalidades, são diluídos e dissolvidos nas nacionalidades, e os judeus ficam com o monopólio da grife Holocausto. Marcos Guterman, apesar dos méritos do seu livro, compactua com isso.

O outro livro é o que já mencionei e já citei, “O diário do diabo”, uma espécie de história do nazismo à luz de um de seus três maiores ideólogos, Alfred Rosenberg, que deixou um diário de mais de 500 páginas, cobrindo um período de dez anos, de 1934 (com o nazismo recém-vitorioso em casa) até 1944, com a guerra já perdida. Sempre achei curioso que um ideólogo tão importante do nazismo tivesse um sobrenome (Rosenberg) que normalmente é associado aos judeus ashkenazi. Mas fiz uma pesquisa nesta maravilha que é a Internet e descobri que Rosenberg é um sobrenome comum também entre alemães “arianos”, suecos, pessoas oriundas dos países bálticos (Lituânia, Letônia e Estônia) e entre o povo sinti (zinti), um povo aparentado dos ciganos, mas que fala uma língua germânica. Aliás, os sinti também foram perseguidos no Holocausto. Rosenberg quer dizer montanha de rosas (Berg é monte ou montanha em alemão) ou montanha vermelha. Mas voltando aos três grandes ideólogos do nazismo. Além de Rosenberg, eles foram o próprio Hitler, com sua bíblia “Mein Kampf” (“Minha Luta”), e Joseph Goebbels, ministro da Propaganda, que disse: “Uma mentira dita cem vezes (ou teria sido ‘mil vezes’, há controvérsias) se torna uma verdade”. Goebbels também teria dito: “Esse homem acredita no que diz. Ele é perigoso”.

O diário de Rosenberg desapareceu logo depois da guerra e foi encontrado há poucos anos. O livro “O diário do diabo” está atraindo minha atenção e segurando meu interesse. Recomendo, mesmo que, depois de concluída a leitura, eu venha a lhe fazer algumas críticas.

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