Dom José beija nossa terra

30 ago 2017

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Dom José beija nossa terra

Conhecido como Dom Pelé, por ser um dos poucos bispos negros no Brasil, o Arcebispo Emérito da Paraíba, José Maria Pires nunca sentou no banco de reservas do time da Igreja, parecia, segundo o saber da petrologia, um mineral imprescindível à grande pedra, enquanto resistente rocha dita por Jesus (Mt 16, 18 – 19) : “Sobre esta pedra edificarei a minha igreja…”; como se fosse um vidro vulcânico, transparente e melhor do que todos os cristais… Com jeito de matuto, chegou a João Pessoa, em março de 1966, da Diocese de Araçuaí, do interior das Minas Gerais, fazendo o belo gesto na entrada da cidade, à vista dos moradores de Oitizeiro, o que foi, anos depois, imitado pelo Papa João Paulo II, ao viajar a outros países em visitas apostólicas: Dom José beijou a terra que o recebia e disse: “Faço como o Profeta, retiro as sandálias, batendo o pó de outros caminhos, e beijo esta terra santa antes de pisá-la. Sagrada é esta terra pelas crianças, mulheres e homens paraibanos. A Paraíba é santa porque é exemplo ao país de sagrada cidadania”. Beijou o chão no qual, para ele, sempre haveria um pedaço àqueles que quisessem cultivá-lo. E assim, simbolicamente, deu sinal de diferente “príncipe da Igreja”, de que dedicar-se-ia à causa dos menos favorecidos; contudo, quanto à pastoral, os pés de Dom Pelé, esquerdo e direito, o mantinham em equilíbrio. Aqui permaneceu até dezembro de 1995, quando, sentindo que lhe diminuíam as forças para essa luta, pediu a Deus para entregar seu cajado a outro pastor.

Identificou-se como um homem simples, porém muito culto. E nessa simplicidade, a convite de amigos, retornava sempre a João Pessoa para festejar seus aniversários de nascimento, de sacerdócio ou conquistas do seu rebanho. Agora retornou pela última vez… Estive ao seu lado também na inauguração do Memorial Padre Comblin, em Santa Fé, em Arara, onde moraram e estão sepultados seu amigo filósofo e teólogo Joseph Comblin e o Padre Ibiapina. Em João Pessoa, houve comemorações marcantes dos seus setenta anos de sacerdócio e Dom José concelebrou Ação de Graças na Catedral Basílica de N. S. das Neves, hoje, também seu sepulcro.

Assim, foram noventa e oito anos vocacionados à vida de pastor, dedicados às ovelhas que não lhe pertencem, mas, ao povo eleito de Deus. Sua voz profética, corajosamente, nunca abandonou seu rebanho no vale das injustiças e assim continua ecoando; pobre como São Francisco, ao contrário dos mercenários que pregam mais o dízimo do que a Boa Nova, não estava junto às suas ovelhas para retirar-lhes lã, leite ou carne, mas para protegê-las com coragem, quando ameaçadas pelos lobos vestidos de “poderosos”. Por isso, amado, reconhecido pela sua voz e lembrado pelas palavras evangélicas que sempre anunciarão amor e justiça, Dom José Maria Pires doou sua vida a serviço do povo de Deus e sempre será visto por estes prados: Seu espírito perambulando e nos chamando por estradas e caminhos com verde relva, especialmente, as ovelhas famintas de justiça. Como bom pastor, suas ovelhas o conhecem e, alegres e reconfortadas, sempre festejarão sua imortal longevidade. Ao pastor Dom José, ovelha que se igualou a todos nós ovelhas, promete-lhe o Salmo 23 que nada lhe haverá de faltar e, em verdes pastagens, o Pai o fará repousar…

Damião Ramos Cavalcanti
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