Ele rouba, mas faz

8 jul 2013

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Certa vez encontrei um amigo que há tempos não via. Casou, foi trabalhar fora, fez fortuna e se tornou pai de cinco filhos, coisas passíveis a acontecer com (quase) qualquer um de nós. Além de perguntar sobre as minhas novidades, o que eu andava fazendo, onde trabalhava, acabou por entrar em um assunto muito curioso, que aconteceu com ele e sua família no ano passado. Ele relatava sobre um serviço de pintura e reforma na sua residência, e como não conhecia quase ninguém do ramo, acabou por pedir ajuda e opiniões de outras pessoas, se estas não conheciam alguém que pudesse fazer um bom serviço. Não faltou quem opinasse e indicasse profissionais alternativos e/ou bem formados.

Depois de várias sugestões, ele acabou por escolher o serviço de um modesto cidadão, franzino, postura esbelta, com cara de trabalhador e acima de qualquer suspeita.

De certa maneira, confabulava ele, que o rapaz era habilidoso, tinha uma mão cheia para pinturas residenciais e pequenas reformas, fazendo um serviço de deixar qualquer um de queixo caído. O problema é que o danado além de bom profissional na pintura, era astucioso no ramo de pequenos e grandes furtos à residências, e fazia um trabalho tão bem feito que, quando as vítimas davam por falta de seus pertences, já era quase que tarde demais.

Bom, ele continuava lá, trabalhando, fazendo seus serviços limpos e acelerados, deixando-o boquiaberto com tamanho profissionalismo.

Ao que tudo indica, um dia após o rapaz terminar o serviço, a filha mais velha desse meu amigo deu por falta de um colar de pérolas caríssimo que ela havia ganhado de presente no seu último aniversário. Também o anel de brilhantes da formatura de um de seus filhos foi afanado sem a menor suspeita. Uma boa quantia em dinheiro que o casal guardava em um dos cofres da casa também sumiu, e até então, durante a reforma e pintura, não entrava ninguém na residência a não ser os próprios moradores e o danado do pintor, mas como sempre havia alguém da casa presente, o rapaz não estava (ainda) no rol de suspeitos.

Intrigado com aquela situação, o meu amigo lembrou que dispunha de um circuito interno de câmeras, e que todas as ações ficavam registradas. Acionou as autoridades que pediram os arquivos de gravação para investigação, e mais tarde acabou descobrindo que o autor dos delitos fora o pintor.

Ele ficou indignado, não sabia mais qual palavrão xingar, exigia a todo custo a “cabeça” do pintor larápio, nem que para isso pagasse por fora os serviços de alguém para que o prendesse.

Passadas algumas semanas o pintor ladrão foi encontrado e preso. Já estava em outra residência granfina articulando seu próximo golpe. Meu amigo fez questão de ir na delegacia para reconhecer e ver que o cara que causou-lhe prejuízos estava à pagar sua culpa atrás das grades.

Rindo à toa após a conclusão do caso que terminou com a prisão do ladrão, ele me apontava com espanto que se o pintor não fosse pendente para o lado do crime, era o melhor profissional da arte de pintar e reformar residências que ele já havia presenciado, visto o modo como completou o serviço perfeitamente a qual fora contratado e pago. Aliás, muito bem pago.

Os pertences foram devolvidos após a prisão, dizia ele, muito satisfeito com os trabalhos de investigação.

Depois de categoricamente todo esse relato, pesquei uma boa e audaciosa resposta para dar acerca daquele assunto ao meu velho e agora rico, bom amigo.

– Quer dizer que o amigo está aí, fazendo mesuras de quebrar a espinha por conta deste caso elucidado? Oras, o meu bom amigo não se lembra quando em nossa juventude vivíamos a opinar e até mesmo a discutir sobre política e sobre os políticos? Meu bom amigo se esquece que certa ocasião, em um desses nossos embates, você afirmava categoricamente que votava e apoiava fulano, assim expondo a seguinte frase:

– Voto em fulano sim, pois ele rouba, todo mundo sabe, mas ele faz. Sim, ele rouba, mas faz.

Agora me vem o velho amigo me contar tal epopeia criminal de um pobre rapaz, que lhe roubou mas fez o serviço, e que serviço, segundo o próprio.

– Ora meu amigo, recordas de quando falava-se em política e que o amigo, que acabara dizendo à época que o camarada era bom (o seu candidato preferido), que roubava mas fazia, e que indicava ele às outras pessoas para o elegerem? Então, por que fizeste isso com esse rapaz? Por que o delatas-te e o mandas-te prender? Por que não fez um bom anuncio em um conceituado jornal ou o indicou para outros amigos, com o singelo jargão: “Contratem esse profissional para pintar e reformar sua casa, pois ele me roubou, mas o serviço ele fez”.

Sem dizer mais nada, agitei a mão em tom de despedida e deixei meu amigo, com a sua agora cara de bunda, perplexo com o que eu acabara de lhe proferir, sem a menor cerimônia.

Álisson Oliveira
ahalisson@gmail.com

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