ENCOSTO

7 nov 2017

Por Severino Coelho Viana

A nossa linguística tem o seu vocabulário próprio que o homem deu significado na vida corriqueira, no entanto, numa análise minuciosa, encontra-se apoiado dentro de uma filosofia universal.

A cultura nordestina é uma das mais variantes do país, quando falamos sobre literatura, música, teatro, dança, artesanato, comidas típicas, estórias de assombração, misticismo, etc.

Etimologicamente, a palavra ENCOSTO, segundo os dicionaristas, é o lugar ou objeto a que alguém ou algo se encosta; arrimo; apoio, proteção, no entanto, no sentido religioso, o termo é compreendido como ESPÍRITO que fica ao lado de alguém para protegê-lo ou prejudicá-lo. É a chamada POSSESSÃO ESPIRITUAL que, dependendo do grau de apoderamento carnal para expurgá-lo é necessário uma sessão de exorcismo.

A presença de doenças que os médicos não sabem explicar e não encontram a raiz do problema também podem ser causadas pelo processo de vampirização da energia de um encosto.

Mo meio usual da linguagem popular, o ENCOSTO recebe termo de sentido pejorativo: “o diabo nos couros”, “satanás nas costas”, “o demo”, “o filho do capeta”.

Sabiamente, o sertanejo chama de ENCOSTO quando um espírito mundano se aproxima de uma pessoa para sugar as suas energias. Um encosto pode se aproximar de alguém a mando de outra pessoa, que realizou um trabalho espiritual ou porque ele viu nas ações desse alguém uma brecha para se aproximar e tomar conta da vida dela, comprometendo-se com espírito maligno através de oferendas, sacrifícios ou através da própria servidão, colocando-se à disposição dos espíritos perdidos.

De acordo com os estudiosos no assunto, o encosto ou apoderamento carnal pelo espírito maligno apresenta alguns sintomas que são visíveis: o paciente vive em desânimo para com a vida, sente melancolia sem causa, insônia permanente, enxerga somente o lado negativo dos fatos, começa a cultivar ideia de suicídio, apresenta perda de memória, vive se culpando e com remorso sem causa. É acometido pela doença do pânico, entrega-se ao vício, descuida-se da higiene pessoal, está sempre com sensação de vazio, aparece rápido emagrecimento ou ganho de peso, problemas insolúveis de saúde sem causa diagnosticada. O encostado ouve sons e ruídos, formigamento na cabeça, sensação de está sendo obervado e seguido o tempo inteiro por espírito, ouve passos, barulho dentro de casa, tem visão de fantasma e vulto, capta chiados, barulho dentro de casa, escuta chamar o nome quando está em lugar sereno, etc..

O interessante é que vários segmentos religiosos ou espirituais seguem os seus ritos específicos para o desabrigamento do encosto perdido dominando o corpo alheio. É importante salientar que, apesar da crença vir do espiritismo, várias religiões oferecem suporte para um tratamento espiritual. A católica, além do exorcismo, trata pela imposição das mãos, a espírita com passes e água fluída, a umbanda pelo o descarrego dos espíritos inferiores. Os evangélicos tiram espíritos malignos em pleno programa ao vivo de televisão.

A comprovação da existência dos encostos na vida humana está presente nas escrituras sagradas de muitas religiões, como também nos relatos de pessoas que tiveram experiências sobre naturais. Na Bíblia, encontramos relatos de espíritos maus que assumiram o controle de humanos. Em alguns casos, as pessoas endemoniadas ficavam cegas ou mudas, ou até machucavam a si mesmas. —(Mateus 12:22; Marcos 5:2-5). No Corão fala do SHAITAN, entidade que o islamismo considera o espírito maligno. O hinduísmo da forma que o conhecemos mostra que existem os curavas e estes atormentam a vida e desvia seguir o caminho de retidão, ou seja, atuam na mossa mente desviando do caminho do bem. No campo da ciência espírita compreendemos que o espírito maligno nasce do espírito humano de má índole, conforme explica o livro intitulado de “O Evangelho Segundo o Espiritismo: “O Espiritismo demonstra que esses demônios não são mais do que as almas dos homens perversos, que ainda se não despojaram dos instintos materiais…” (O Evangelho Segundo o Espiritismo, Kardec, cap. XII, item 6). “Se houvesse demônios, seriam obra de Deus. Deus, que é soberanamente justo e bom, não pode ter criado seres predispostos ao mal por sua natureza e condenados por toda a eternidade” (Livro dos Espíritos, Kardec, quesito 131). Para o Espiritismo, Satanás, anjos maus, demônios são maus espíritos desencarnados, em fase de evolução”.

Pela nossa experiência de vida, constatamos dois tipos de encosto: o encosto espiritual e o encosto humano. O diferencial entre os dois tipos, concebemos que o encosto humano é muito mais perigoso que o encosto espiritual, pois não é tão fácil o desentranhamento do nosso viver, e, por cima, não conhecemos um tipo de exorcismo humano. O encosto humano se manifesta através da mente invejosa, do coração de maldade, da mania de perseguição, de um ato de pura ruindade por não querer ou não aceitar o bem-estar de outrem. Atua de maneira maquiavélica levando ao crime, induzindo ao vício, direcionando ao tráfico e aclamando as suas astúcias em busca do desajuste familiar e a decadência social. O olhar diabólico alcança o rasgo do bem vestir à destruição da fraternidade entre uma amizade de fidelidade e reciprocidade. O pior desastre do encosto humano é que sua meta maltrata o bem viver e chega a eliminar a vida humana. Do seu tridente maléfico ninguém escapa cuja representação nós encontramos personificado na figura
do amigo falso.

Mas nem sempre atitudes agressivas, depressão ou cansaço constante são sinais claros da presença de um encosto, muitas vezes, é apenas um desvio de caráter ocorrido decorrente de más escolhas e ações negativas da pessoa que vive envolvida num mundo de desordens social, por exemplo, o vício e tráfico de drogas, ou, ainda, pessoa que tem um pensamento totalmente voltado para fazer o mal junto aos seus familiares e aos vizinhos.

O melhor escudo de combate ao encosto espiritual ou humano é se agarrar ao fervor de uma oração.

João Pessoa PB, 02 de novembro de 2017.

SEVERINO COELHO VIANA
scoelho@globo.com

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