ENTREVISTA: com o cineasta Cacá Diegues

23 maio 2013

“Esse Congresso não nos representa”

O cineasta afirma que existe uma grave crise da democracia representativa no País e diz por que o cinema hoje é apenas uma vitrine para lançar filmes

Por Eliane Lobato


NA DITADURA
“Um ideal não pode ser assalariado”, diz, ao comentar
as indenizações pagas a perseguidos políticos

Aos 72 anos de idade e 50 dedicados ao cinema, Carlos Diegues, o Cacá Diegues, é um dos cineastas brasileiros mais conhecidos no mundo. Autor dos memoráveis “Xica da Silva” (1976) e “Bye Bye Brasil” (1981), acaba de chegar de Nova York (EUA), onde ganhou uma retrospectiva no Lincoln Center. No mês passado, recebeu um troféu do cineasta Costa-Gavras durante o Festival Brasileiro de Cinema em Paris, na França, que o homenageou. A vida e a obra de Diegues se entrelaçam desde os tempos em que era um jovem cinéfilo e militante de movimentos estudantis. Por ter participado da resistência intelectual à ditadura, foi exilado, junto com a mulher, a cantora Nara Leão (1942-1989), também perseguida política e mãe de seus dois primeiros filhos. Nascido em Maceió (AL), Diegues mora no Rio de Janeiro e é casado com a produtora de cinema Renata Almeida Magalhães desde 1981, com quem tem dois filhos e divide trabalhos como a produção do filme “Giovanni Improtta”, em cartaz, e do documentário “Favela Gay”, a ser lançado.


“O (José Mariano) Beltrame é um herói nacional.
Adoraria que ele fosse secretário de
Segurança Pública do Rio para sempre”


“O Lobão faz o ‘marketing da porrada’. Aparece
criando polêmica. Mas isso não vai longe, porque
não tem argumentos, tem só exclamações”

Fotos: Masao Goto Filho/ag. IstoÉ; Marcelo Carnaval/Ag. O Globo

Istoé – Nesse meio século de cinema e reflexão sobre o Brasil, aonde acha que chegamos?

Cacá Diegues – Acho que existe uma grave crise da democracia representativa, não nos sentimos mais representados pelas pessoas que estão no Congresso. Mas não tenho a menor dúvida de que também estamos vivendo um período de ouro da história republicana, desde o presidente Itamar Franco (1992-1994) para cá. Tivemos os presidentes Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), Lula (2003-2011) e, agora, a Dilma (Rousseff), e, por mais que a gente goste mais de um do que de outro, eles são muito parecidos e bons. Temos hoje uma democracia consolidada, uma economia em ação, uma redistribuição de renda que é, pelo menos do ponto de vista da consciência nacional, uma necessidade que ninguém nega mais. Então, o Brasil melhorou muito.

Istoé – Algum fenômeno pode ser ressaltado nas últimas décadas?

Cacá Diegues – As UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora implantadas em favelas cariocas) são o fenômeno mais importante do Rio de Janeiro dos últimos anos, com repercussão no Brasil todo, porque está acabando com a violência gratuita nas favelas e aproximando quem vive nas comunidades de quem mora no asfalto. Adoro o (José Mariano) Beltrame (secretário estadual de Segurança Pública), converso muito com ele, sei que é uma pessoa culta, de uma enorme delicadeza de pensamento e cuidado com o que faz e com o outro. Eu o considero um herói nacional apenas pelo projeto das UPPs, que exige coragem. E agora ele batalha pelas UPPs sociais, que seriam as creches, escolas, hospitais, etc. Adoraria que o Beltrame fosse secretário de Segurança para sempre. Mas ele é quem sabe. Tenho até medo de que esse projeto acabe se mudarem os governantes.

Istoé – Há uma tradição de os políticos interromperem projetos quando o poder muda de mãos.

Cacá Diegues – Espero que acabe essa besteira que tem no Brasil de um governo descontinuar o que era bom no governo anterior apenas porque é de outro partido. Estão agora querendo desmoralizar a lei da responsabilidade fiscal, criada pelo Fernando Henrique (PSDB-SP), que é muito boa. Puxa, não é porque o Bolsa Família foi feito pelo Lula que amanhã o PSDB vai acabar com ele. Quem tem que ser beneficiado não é o partido, é o País.

Istoé – O sr. viveu exilado na época da ditadura. O que acha de indenizações pagas a quem defendeu ideais e foi perseguido?

Cacá Diegues – Pergunta difícil! Prefiro não comentar.

Istoé – De certa forma, já comentou.

Cacá Diegues – É que um ideal não pode ser assalariado, não é? Eu tive que me exilar, fiquei sem trabalhar, era difícil. A Nara era muito perseguida também. Mas não acho que isso mereça salário. Porém, cada um tem sua razão, sua dor. Vai ver que a pessoa sofreu tanto…

Istoé – O que acha das críticas do cantor Lobão aos militantes de esquerda que lutaram contra a ditadura?

Cacá Diegues – O Lobão faz o “marketing da porrada”. A melhor forma de aparecer é criando uma polêmica. Quem é que está na moda? Fulano. Então vamos falar mal de fulano. Mas isso não vai longe, porque não tem argumentos, tem só exclamações.

Istoé – Termos como direita e esquerda ainda fazem sentido hoje?

Cacá Diegues – Eu acho que isso não existe mais. Essa ideia de esquerda e direita nasceu na revolução francesa, mas é uma referência da Guerra Fria – e acabou há muito tempo. Mas as expressões sobrevivem. Para mim, é de direita todo aquele que não se interessa pelos outros. E é de esquerda aquele que se interessa. Quem acha que é possível ser feliz em um mundo rodeado de gente infeliz é de direita. E é lamentável. Porque ainda não entendeu que estamos condenados à convivência com o outro, a ser um ser social. Mas tem tanta gente que se diz socialista ou comunista e vive só para se beneficiar. E tantos que se proclamam liberais e fazem mal ao País e aos outros.

Istoé – Como o sr. começou a frequentar as favelas cariocas?

Cacá Diegues – O pessoal do grupo “Nós do Morro”, do Vidigal (zona sul do Rio), me chamou para conhecer a comunidade anos atrás, e eu gostei muito do que encontrei. Tanto que chamei algumas pessoas para trabalhar no meu filme “Veja Esta Canção” (1994), tanto no elenco quanto na equipe técnica. Comecei a ser convidado por outras entidades e, um dia, o pessoal que mora em Cidade de Deus me pediu para organizar um curso de cinema lá e dar a aula inaugural. Pensei, e agora? Se as escolas brasileiras são umas porcarias, o que eu vou dizer para esses meninos que têm escolas piores ainda? Fiquei com essa angústia até chegar lá e ver que muitos dos alunos já tinham feito filmes com câmeras domésticas e celulares. A aula foi sobre os filmes que eles já tinham feito. Eles estão muito mais à frente e mais presentes na história do que a gente, do asfalto, imagina.

Istoé – Como avalia os desdobramentos de seu filme “5x Favela, de 1962?

Cacá Diegues – Fizemos “5x Favela” com três metas: botar esse pessoal no mercado de trabalho, deixar que eles sejam porta-vozes deles mesmos e colaborar com a inovação do cinema brasileiro, que é o que está acontecendo. Depois, fizemos o “5x Favela, Agora por Nós Mesmos”, em que os próprios moradores dos morros conduzem a narrativa, e o “5x Pacificação”, sobre as modificações pós-UPPs. Agora, estou produzindo um documentário interessantíssimo, dirigido pelo Rodrigo Felha, que é de comunidade, o “Favela Gay”. Fala sobre a homossexualidade nos morros.

Istoé – Tem diferença?

Cacá Diegues – Muita. Nas favelas, os gays têm um papel social muito específico e importante, que mistura o afeto feminino e a autoridade de homem. Entrevistamos um líder comunitário que é gay, todos sabem, mas isso não impede que seja respeitado na comunidade. Há uma identificação na medida em que as pessoas que vivem em favelas sabem que são tão discriminadas e vítimas de preconceito quanto os gays. Isso gera solidariedade.

Istoé – No outro filme que o sr. produz, o bicheiro Giovanni Improtta personifica um tipo bem conhecido no Brasil, o simpático corruptor, não é?

Cacá Diegues – Esse personagem foi criado pelo Aguinaldo Silva e ganhou do (José) Wilker uma primorosa interpretação na novela “Senhora do Destino” (2004). No cinema, é uma comédia híbrida com pitadas de romance, crítica social e thriller. Trabalha bem esse limite difuso entre o bem e o mal, a corrupção e a honestidade, coisas que o Brasil mistura muito. Além de divertir e encantar, o filme ilumina determinado caráter brasileiro e faz pensar.

Istoé – O sr. está escrevendo sua biografia há cinco anos. Quando sairá?

Cacá Diegues – Não chamaria de biografia. Não falo que namorei fulano, dei porrada em sicrano, etc. Falo do que vi acontecer no cinema brasileiro e do que eu fiz. Claro, ao reconstituir esses 50 anos de atividade cinematográfica, falo da minha vida. Só que deu 900 páginas e ninguém é louco de publicar um livro desse tamanho. Estou cortando. Deve dar umas  600 páginas, e entrego à editora até o fim do ano.

Cacá Diegues – Não chamaria de biografia. Não falo que namorei fulano, dei porrada em sicrano, etc. Falo do que vi acontecer no cinema brasileiro e do que eu fiz. Claro, ao reconstituir esses 50 anos de atividade cinematográfica, falo da minha vida. Só que deu 900 páginas e ninguém é louco de publicar um livro desse tamanho. Estou cortando. Deve dar umas 600 páginas, e entrego à editora até o fim do ano.

Istoé – Há um capítulo dedicado ao último encontro com Glauber Rocha (1939-1981)?

Cacá Diegues – Sim. Ele é personagem importante no cinema e no meu livro. Tenho saudade de Glauber até hoje. O encontro aconteceu um mês antes da morte dele, em Sintra, Portugal. As notícias sobre seu estado físico eram assustadoras. Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro, Luiz Carlos Barreto e eu concordamos em participar de um complô para convencê-lo a vir se tratar no Rio, cercado de amigos e família. Como Glauber ria nesses últimos dias em que o vi vivo! Ele teve septicemia e embarcou para cá em estado semiconsciente. Foi assim que o vi pela última vez no hospital. Ele tentou sorrir e me chamou de “mestre”, como costumava fazer quando queria agradar alguém, com uma voz lenta e muito baixinha, de cansaço infinito. Tinha 42 anos e era o melhor de todos nós.

Istoé – Como avalia o cinema, de modo geral, atualmente?

Cacá Diegues – Em transformação muito rápida. O mito da sala de cinema com celebração, escuridão, tela grande, isso não vai acabar nunca. Mas cada vez mais aparecem outros meios de difusão que se tornam até mais importantes. A sala de cinema vai virar apenas uma vitrine para mostrar o produto. Depois, o filme vai para onde realmente as pessoas o estão consumindo: nas tevês abertas ou pagas, no DVD e na internet. O cinema é o avozinho patriarca dessa família.

Istoé – Há certa nostalgia de passado ao constatar essas mudanças todas?

Cacá Diegues – De jeito nenhum. Acho que hoje é melhor que ontem, o mundo anda para a frente. Como diz o Caetano Veloso, eu tenho saudade mesmo é do meu corpo jovem. Só isso. Claro, há sustos. Por exemplo, nunca pensei que fosse viver o século XXI com guerras religiosas. Pensava que isso já tinha acabado, que era coisa da Idade Média. Mas não acabou.

IstoÉ Entrevista

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