EPISODIO DA MORTE DE “MEIA-NOITE”

12 set 2017

Érico de Almeida

Findava o mez de setembro de 1924, quando fora informado o deputado José Pereira Lima estar o celebérrimo bandoleiro Meia-Noite, (Antonio Augusto Feitosa), homisiado no sitio “Tatahyra”, nas fronteiras do município de Princeza com o de Triumpho, em Pernambuco.

Fidedignos como eram os informes recebidos, tratou immediatamente aquelle político da organização de uma diligencia, com o fim de capturar o scelerado, o que levou a effeito. Pelas 21 horas deixava a “canoa” policial, composta de quatro soldados da Força Publica e oito civis, a cidade de Princeza, em direcção ao local indicado, aonde chegaram depois de quatro horas de marcha, iniciando cerco em duas casas sem que nada encontrassem.

Cahia o orvalho da alta madrugada, quando a tropa se dirige á terceira casa, batendo á porta: Respondeu-lhe de dentro uma voz effeminada quebrando o silencio:

– Quem é?

– É os menino do coroné…

– Ah!…eu não abro a minha porta não…eu sou um home veio e tenho uma moça mais eu…Zumira não qué qui eu abra a porta. Ella tem medo…

– Venha dá um bucado dagua á gente…

– Que diabo de veia de falla fina!…

– Pronunciadas estas palavras, o bandido, que entretivera dialogo, com o fim de ganhar tempo para se equipar, grita enfurecido: Qui disaforo de seu Zé Pereira, mandá incommodá os home essa hora, apois vocês tão pegado cum o Meia Noite, nêgo nascido in meio de disgraça, rompendo em seguida nutrido fogo contra os sitiantes.

Depois de uma hora de luta, acompanhada de impropérios de parte a parte, ruge a fera em seu esconderijo:

– Canaia pife, o que vocês quere, chega já. Cabra de barro num aguenta tempo.

– Vem fora, nêgo ladrão!

– Ladrão, é vocês, qui quere robá a roupa de minha muié, magote de…

Já tinham soado as 5 da manhã, quando o bandido pede para a tropa consentir na sahida de sua mulher, dizendo que quanto a si, tinha a garantia na mão. Como isso lhe fosse negado redobrou de intensidade o tiroteio, até o clarear do dia, quando o bandido recomeça a pilheriar:

– Rapaziada, vocês são de barro? Esse magote de peste ta cum fome…entre, venha tomá um cafezinho com quejo de mantêga…

– O café qui nós qué é ti passá nas corda.

A esta altura ouvem os de fora, uma voz cantar dentro da casa sitiada:

“Si quizé sabê meu nome
Faça favor preguntá
Eu me chamo é Meia Noite
Canáro de bom lugar
Eu sou um carnêro fino
Do collo de minha Yayá!
É Lampe, é Lampe, é Lampe,
O Virgolino é Lampeão,
É o dedo amolegando
E bolando pulo chão!

As forças, de policia e civis, commandadas respectivamente, pelos tenente Manuel Benicio, Clementino Furtado e Francisco de Oliveira, aquarteladas na serra do Pau Ferrado, que logo ao alvorecer ouviram o tiroteio, encaminham-se para o campo da lucta.

Ao signal da approximação da força que tinha o effectivo de 84 homens, a besta humana ao ouvir o clangôr da corneta, determinando o avanço, rosna enraivecida:

– Sustenta a ispingarda, canaia pôde, qui o nêgo vai simbora.

E debaixo da fuzilaria de 96 armas, dá ás de Villa Diogo, seguindo a força no rasto do sangue, perdendo-o ao cahir da noite.

A tropa teve dois soldados feridos, encontrando na casa em que se encurralara o sicário, 496 capsulas de cartuchos Mauser Dwn, modelo 1912.

Seis dias depois fôra Meia Noite encontrado, gravemente ferido, pelo inspector da povoação de Patos, Manoel Lopes Diniz, e 4 companheiros, o que não o impossibilitou de resistir á prisão, disparando contra os atacantes dois tiros de Parabellum, sendo por estes morto.

Meia Noite, ou Antonio Augusto Feitosa, era de cor parda, não apparentando mais de 22 anos, e nascêra no município de Paulo Affonso, em Alagôas, onde se criara, sendo alli conhecido pela alcunha de Antonio Bagaço.

Entrara no grupo de Antonio Porcino, onde logo conquistara nomeada, tendo ao lado de Lampeão tomado parte no assalto á cidade de Mattinhas, de Agua Branca, saqueando-a totalmente.

A baroneza de Agua Branca e sua família foram roubadas em dinheiro e jóias, na importância approximada de cem contos de réis.

O bandido no dia em que foi cercado em Tatahyra, estava em preparativos de viagem, em virtude de um sarilho que havia tido com os seus comparsas, Levino e Antonio Ferreira, que o haviam roubado quando de regresso da cidade de Souza.

Na questão interviera Lampeão, indemnizando o primeiro do prejuízo soffrido e exigindo-lhe a entrega do armamento, ao que respondera Meia Noite:

Si no meio desta cabroêra tem home, venha tomá, deixando em seguida o antro dos seus, rumando ao sitio Bandeira, donde se transportara ao homisio em que a força o surprehendeu.

livro lampiao

FONTE: ALMEIDA, Érico de. Lampeão, sua história. João Pessoa: Editora Universitária, 1996. 128 p. Edição fac-similar de 1926. P. 63-68.

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