Fazenda Lagoa Redonda

13 maio 2013

FAZENDA LAGOA REDONDA

Uma das mais antigas fazendas do sertão paraibano – hoje transformada em Assentamento – era a fazenda Lagoa Redonda. Outrora cravada no município de Sousa, hoje faz parte do município de Marizópolis devido sua emancipação política.

Pertencia a um grande agropecuarista e líder político da região, José Ferreira Rocha, o Coronel Zé Rocha que, apesar da alcunha de coronel, era uma pessoa carismática, altruísta e pacata que mantinha um relacionamento diplomático com os moradores e trabalhadores da fazenda: vaqueiros, lavradores, diaristas…

A fazenda tinha um encanto de beleza.

Uma vasta planície formava seus milhares de hectares de terras férteis e produtivas.

Um açude amplo margeado por aguapé, planta típica das lagoas sertanejas, com suas flores brancas e amarelas formosas e perfumadas, enfeitavam suas águas límpidas que servia para saciar a sede dos viventes da fazenda, tanto para os animais como para a gente.

Uma grande casa que os moradores chamavam de ‘Casa Grande’ ou “A Casa da Fazenda”, onde morava o Coronel Zé Rocha. Uma sala ampla com uma mesa grande e redonda no centro, três quartos com mobília simples, cozinha que destacavam os enormes tachos de fazer queijos, dispensa equipada de mantimentos, sótão que servia para guardar os cereais, um paiol que servia para colocar as espigas de milho, um alpendre convidativo para armar uma rede na hora do descanso e no quintal dos fundos uma frondosa cajaraneira que abrigava sob sua sombra várias cabeças de galinhas, perus, capotes e patos. Na frente, um grande terreiro. Era lá, no terreiro da Casa Grande, que aconteciam as grandes festas patrocinadas pelo Coronel, presenteadas aos nubentes filhos dos moradores da fazenda.

Os vastos baixios da Penação e Oiticica, de solos fecundos onde os lavradores plantavam extensos campos de algodão, arroz, milho e feijão. No período do “ouro branco”, a fazenda foi uma das maiores produtoras de algodão do sertão paraibano.

Um curral com mais de cem vacas leiteiras que eram ordenhadas no começo da madrugada até o amanhecer do dia. Uma parte do leite ficava na “Casa Grande” para abastecer a cozinha na fabricação de queijo, manteiga e nata e a outra parte era vendida para as fábricas de queijo na cidade de Sousa. Na sexta-feira Santa, tradicionalmente, o Coronel mandava distribuir todo o leite com seus moradores e os moradores dos seus vizinhos de propriedade.

Existia ainda a criação ovina e em torno de quinhentas cabeças de gado que ficavam separados da vacaria, era o “gado escoteiro”, como falavam na época. Na verdade era o gado de solta, aquele que só vinham para o curral duas vezes por ano, para vacinação e troca de “manga” de pastagens. A juntada desse gado era uma festa a parte. Diversos vaqueiros, vestidos de perneira e gibão e chapéu de couro, trajes típicos dos vaqueiros da época, saiam em seus cavalos à procura do gado na mata fechada na “manga” da Lagoa da Chã, ou do Caboré, ou do São Luiz, ou da Represa do Açude para rebanhar o gado em direção ao curral, aquele bovino que tentasse fugir do rebanho era perseguido pelos vaqueiros e derrubado puxado pelo rabo, onde era colocado uma máscara e um chocalho e o traziam até o destino planejado.

Outra “farra” era a mansa do burro brabo, o adestramento dos potros e a ferra do gado. Juntavam-se todos, inclusive o Coronel, ao redor do curral para assistirem os vaqueiros astutos pegarem o gado mais jovem para ferrar e logo após, os burros brabos para quebrá-los de um lado e do outro e em seguida montá-los. Os animais saiam saltitando de um lado para o outro, alguns vaqueiros caiam outros permaneciam em cima do animal até cansá-lo e domá-lo.

Nessa época ainda existiam as brincadeiras de roda. Os jovens se reuniam no terreiro da Casa Grande quase toda noite onde, moças e rapazes de mãos dadas, formavam um grande círculo e entoavam as cantigas de rodas e dançavam alegremente sob o céu estrelado e o brilho da lua daquela admirável fazenda. E nessa brincadeira muitos casamentos se formavam.

Com a ida do Coronel para Sousa e sua conseqüente morte a fazenda foi se modificando com o passar do tempo.

Foi se transformando.

A Casa Grande foi demolida e em seu lugar, exatamente no mesmo local, foi construída outra com ares mais modernos.

Já não existia mais as festas no terreiro da Casa Grande.

A pega do gado foi desaparecendo.

A mansa dos burros brabos diminuiu.

Os sem-terras invadiram-na, até sua total desapropriação pelo INCRA.

Hoje vive outros tempos com uma comunidade de 61 famílias assentadas vindas de outras regiões. No entanto, continua linda com o que restou.

A fazenda passou, mas ficou a lembrança daquela tão bem conceituada e bela fazenda que viveu do apogeu do algodão e das centenas de cabeças de gado que pintavam de preto, branco e vermelho os verdes pastos das suas planícies extensas. Fica a lembrança da alegria dos seus moradores que não mediam esforços para deixá-la mais atraente e convidativa. Fica também a lembrança de um coronel que deixou um legado de benevolência e um exemplo de simplicidade no trato com o próximo.

Fica eternizada a lembrança da fazenda Lagoa Redonda

Marizópolis/PB, 20 de janeiro de 2011.

Egnaldo Peixoto de Araújo

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