Gente das ruas de Pombal – década de 1960 – “Padoriel” Monsenhor Oriel Antônio Fernandes.

12 abr 2017

Jerdivan Nóbrega de Araújo

Era um março de 1969, eu tinha então oito anos de idade. Mãe Lourdes, minha avó, foi até a nossa casa na Rua de Baixo, me puxou pelos braços e disse: vamos ali comigo.

Sem questionar, a segui. Atravessamos a rua do Comércio e a Jerônimo Rosado, até chegarmos no Hospital Sinhá Carneiro.

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Adentramos o hospital e fomos até uma enfermaria onde um senhor de 58 anos de idade, mas, aparentando 80 por conta da enfermidade que poucos dias depois o levaria a óbito, respirava e falava com dificuldades.

Ele falou com mãe Lourdes agradeceu a visita, e conversaram por um bom tempo. Antes mãe Lourdes já havia apresentando-me como sendo seu neto. Ele pegou as minhas mãos balbuciou palavras que não me lembro e sorriu um sorriso de “até nunca mais”. Foi este o meu último e talvez único contato com Monsenhor Oriel Antônio Fernandes: o “Padoriel”, para o povo de Pombal.

Eu nunca entendi esses atos de mãe Lourdes em levar-me para conhecer padres: fez o mesmo com Frei Damião em uma de suas “missões’ na cidade e com padre Sólon de França.

Mas, o que nos interessa aqui é lembrar de Padre Oriel como gente das ruas de Pombal.

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Monsenhor Oriel Antônio Fernandes, nasceu no sítio Quixaba, na vila de Belém, hoje Uiraúna. Era filho de Marcelino Josa Vieira (Major Salo) e dona Maria Emetina Fernandes das Chagas.

Entrou para o seminário no dia 31/01/1929, onde fez os estudos ginasiais, filosóficos e teológicos.

Foi nomeado Pároco da Igreja de Nossa Senhora do Bom Sucesso de Pombal –Igreja Matriz- em 17/02/1957. Exerceu ainda as atividades de professor do Ginásio Diocesano, Professor de Religião, Capelão da Escola Normal Josué Bezerra e diretor do Hospital Sinhá Carneiro.

Padoriel Construiu a Escola Paroquial São Vicente de Paulo em Pombal e também foi fundador do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Pombal e de Lagoa.

Diferente de outros padres que passaram e passam por Pombal, Padoriel era desapegado de valores materiais. Não que deixasse de pedir ou receber donativos, mas, o que recebia não era para seu usufruo e sim para seguir com suas obras.

Não se pode falar de Padoriel sem falar em seu Raimundo Sacristão, que foi seu fiel escudeiro, e o conduzia em um velho Jeep azul pelas ruas e distritos de Pombal, onde ele ia celebrar missas, dá extrema-unção e outras atividades religiosas. Retornava a Pombal, no tempo dos bons invernos, com o Jeep carregado de feijão, arroz, galinha, ovos e outros mantimentos doados pelas comunidades.

Certa vez em uma missa na igrejinha de Arruda Câmara, Padre Oriel celebrava a missa, quando uma senhora passou a acenar lá do meio da igreja. Atento e sempre proativo, seu Raimundo correu apara atendê-la, e de lá gritou:

-Padre ela tá dando uma coisa…

No que padre responde:

-Então recebe Raimundo…
Seu Raimundo insiste:
– Mas, Padre é uma coisa ruim…
Padre Oriel retruca de lá do altar:
-Ora, então não recebe Raimundo.
Era comum nos sertões os famosos “casamentos forçados”: era quando o homem “bulia” com a moça e a família o obrigava a casar, muitas vezes até com a presença da polícia.
Num desses casamentos, padre Oriel olhou para os noivos e viu que eram muitos jovens, então falou.
– Não gosto de realizar esses casamentos forçados. Por isso eu gasto de pergunta se o casamento é da vontade dos noivos. Então eu pergunto: o noivo casa de vontade própria?
O noivo respondeu:
– Não padre. Eu não quero casar com ela.
O padre continua.
– Então não eu não faço o casamento. Mas, também não vou me responsabilizar pela vida do noivo depois que eu sair daqui.
Assustado o noivo retruca:
– Padre, mas o senhor não acha que com o tempo eu vou me acostumar com o casamento?
Padre Oirel continua:
– Meu filho, é mais fácil a gente se acostumar com as coisas em vida do que depois de morto.
Padoriel ou Monsenhor Oriel Antônio Fernandes nasceu no 18 de novembro de 1911 e faleceu em 17 maio de 1969.

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