Gente das ruas de Pombal: década de 1970 – SATURNINO SANTANA

13 jul 2017

Jerdivan Nóbrega Araujo

saturnino

Seu Saturnino morava na rua Cel. Jose Avelino, esquina com a Benjamim Constant, local em que também funcionava a sua oficina. Lembro do seu jardim e lá um velho bugarizeiro e um Jasmineiro que exalavam um perfume gostoso nos inícios de noite. Desafio nosso era roubar aqueles bugaris.

Seu Saturnino era um mestre, tanto mecânico como eletricista, mas também excelente trombonista.
Ele era desses filhos de Pombal de pavio curto, e que não aceitava que o cliente desse diagnóstico nos aparelhos que levava ao conserto.

– se você sabe o defeito então conserte. Dizia quando o cliente a adiantava o problema do carro ou do motor.

Certa vez seu Aureliano Chaves chegou empurrando o Jeep, encostou-o na porta de seu Saturnino, chamou o mestre e adiantou:

– Seu Saturnino, tentei ligar e não pegou. Acho que e sujeira: dê uma jeito que eu vou ali na Câmara e volto em um minuto.

Seu Saturnino ouviu a recomendação em silêncio. Logo que seu Aureliano se afastou, ele nos chamou deu um balde de água, mandando que lavássemos o jeep.

Quando seu Aureliano voltou da Câmara, perguntou se o jeep estava em ordem. Ele respondeu

-Ta limpo!

– Quanto devo? Perguntou

– Dê um trocado aos meninos que lavaram.

Assim ele fez.

Só que ao ligar, o jeep não pegou. Seu Aureliano chamou seu Saturnino e reclamou que o problema insistia.

A reposta de seu Saturnino foi à seguinte:

-Bom, o carro foi lavado. Então pelo visto não era só sujeira. Talvez o problema seja mesmo mecânico.

Segundo Ignácio Tavares, de quem era amigo, Saturninio “foi um músico completo. Lia e tocava com uma habilidade impressionante. Era abusado no exercício de suas atividades. Certa vez a banda marchava em direção a Igreja Matriz, capitaneada por Frederico Roque e de repente, em plena caminhada, Saturnino agacha-se e apanha alguma coisa que estava no chão. Provocou um descontrole na marcha, mas lá pra frente tudo se normalizou.

Ao chegar ao pátio da Igreja, Frederico dirigiu-se a Satrunino e lhe aplicou uma reprimenda diante dos amigos.

Saturnino irritou-se, ameaçou ir embora pra casa. Frederico então, perguntou:

– finalmente o que foi que você apanhou no chão?

Saturnino tira do bolso um parafuso velho, enferrujado e mostra pra Frederico.

Novamente outra repreensão:

– como é que pode, você quase parou toda banda por conta de um parafuso velho! Saturnino respondeu:

– tá vendo aqui esse parafuso velho? Acrescentou: – vale muito mais do que certos maestros que eu conheço inclusive você!. O riso foi geral.

Este foi o Mestre Saturnino, protagonista de muitas estórias, eivadas de lampejos de irreverências, aparentemente maliciosas, porém inteligentes, sem nenhum toque de maldade. Foi mecânico, eletricista e renomado músico de bandas, como poderia ser também de orquestra de câmara, sinfônica, até mesmo conjuntos regionais ao estilo dos anos quarenta.

Foi sem dúvida um grande Mestre perdido nas quebradas do Sertão Paraibano.

Para Otacílio Trajano.

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