HISTÓRIA DE UMA MÃE

8 maio 2017

Por: SEVERINO COELHO VIANA

Sejamos bons, e depois, seremos felizes…
Não desejemos o prêmio antes da vitória,
nem o salário antes do trabalho.” (Rousseau)

Começo atendendo ao teu último pedido, que me reservaste a missão de fazer e ler uma crônica literária na missa póstuma do trigésimo dia.

Eis o dever cumprido.

Uma vez eu sonhei que estava no teu ventre e quando me acordei estava no teu colo. Foi o primeiro afago materno acariciando os teus seios, que davam substância para buscar o caminho do meu viver.

Lembro-me do meu primeiro olhar dirigido a um rosto de mulher, logo te aplaudi com as mãos singelas de uma criança inocente, e, bem cedo, reconheci a representação viva da mãe natureza.

Aquela imagem angelical ao ouvir a minha primeira palavra pronunciada correspondeu com o seu sorriso acalentador.

E daí então conheci um ser diferente dos outros, identificado pela iluminação do pensamento, que denominei e chamei carinhosamente de Tia.

E esta mulher sábia me contou uma história completamente desconhecida do mundo em que eu vivia, a qual aprendi com fidelidade do meu ser:

À primeira vista, nasceste no dia 10 de janeiro de 1.916, filha primogênita de um soldado valente, que como um dos componentes das forças-volantes, enfrentou o cangaço nas caatingas nordestinas, chamado JOSÉ ANTÔNIO COELHO; fazia companhia a este guerreiro dos sertões, uma mulher alta e franzina, que conduzida por uma fé inabalável, só temia aos castigos de Deus. Sendo, portanto, a minha avó: EULÁLIA MARIA DA CONCEIÇÃO.

Dando sequência ao desenrolar do teu raciocínio, continuaste a narrar a tua história, bem simples, mas autêntica, que assimilei com poder de minha mente.

Casaste com SEVERINO JOSÉ JOAQUIM, no dia 19 de março de 1.936, dia do padroeiro São José, o dono da chuva, no Município de Paulista, cuja rama se estendeu em onze galhos: João, Josefa, Francisco, Maria, Eulália, José, Alice, Eudócia, Geraldo, Severino e Íris Maria.

Nesta hora, Tia exclamava, orgulhosamente:

Menino! Você não sabe avaliar quanto trabalho deu ao seu pai e à sua mãe para criarem uma família deste tamanho!…Um Trabalho incansável, de sol a sol, com sofrimento e penúria, combatendo às adversidades, realizando qualquer tarefa pela subsistência dos filhos.

Realmente, eu me arrepiava com esta história como também sentia no âmago do meu próprio ser, que eles não fugiram da responsabilidade. Não temeram às noites escuras de chuvas torrenciais, nem tampouco o sol causticante que queima a terra e pele do cabloco sertanejo. Sei que os dois juntos desafiavam as próprias forças humanas.

Novamente, retomo ao enredo da história.

A madrugada fria indicava o caminho do roçado; a preparação da terra iniciava-se com as labaredas e a fumaça nebulosa pela queimagem da broca e somente terminava com a colheita em abundância do feijão, do milho e do arroz. Este trabalho era contínuo no manuseio dos seus instrumentos: machado, foice, martelo, roçadeira, enxada e chibanca; era peso, e peso pesado, mas tinham a convicção de que todo trabalho é digno, e pecado é ócio.

Mas a vida continua…

Com esta pequena pausa no roteiro, eu meditava profundamente quanto é difícil a luta pela sobrevivência. As intempéries existenciais e a vida cheia de contrastes. Neste instante, eu me questionava e repensava as dificuldades engendradas e repletas de sacrifício em nome do viver terreno, sendo que encontrei a resposta, justamente no pensamento de Hamilton Mabie: “não recei a adversidade… Lembre-se que os papagaios de papel sobem contra o vento, e não favor dele.”

No meio de toda esta história, quando já estava completamente envolvido e empolgado, minha atenção se voltava para o arremate, tu me interrompias e dizias:

___ Está na hora da escola!

Nesta época, fase de minha ingenuidade, recordo-me, perfeitamente, ainda criança sem perceber a noção do tempo, já aceitava a tua orientação como um filho obediente.

Sim, somente tinha uma noção real do teu ser. Enquanto o meu ser recebia a tua força inspiradora e enquanto eu podia olhar para a tua fisionomia, eu também sentia o vigor de tua estrutura física: estatura baixa, cabelos compridos, olhos esverdeados pela firmeza, braços e mãos com disposição, pernas e pés vigorantes, sorriso com entusiasmo, coração impulsionador e a mente lúcida e cheia de boas lições.

É tanto que, no decorrer de tua narrativa, enquanto eu crescia rapidamente, tu ias envelhecendo lentamente; no entanto, eu não percebia esta mudança natural.

Agora me intrometo na tua história para descrever uma cena da história de nossas vidas, exatamente por ser inesquecível. Eu entrava nesta cena como ator principal. No baile de minha formatura, no salão do Clube Cabo Branco, em João Pessoa, no momento que acabávamos de dançar a valsa Danúbio Azul, de Johann Strauss, ainda abraçados, tu me comovias com um anúncio de vida realizada, e dizias-me, como se fosse uma sentença:

___ Meu filho, agora já posso morrer.

Pois bem! Quanto mais o tempo passava, o filho mais precisa dos carinhos maternos, e a mãe com o seu coração de infinita bondade muito mais aumentava o seu amor filial. Como se o ímã soltasse do ferro, e neste rápido desligamento, logo o atraía, tornando-se, então, duas peças inseparáveis.

Já compreendia conscientemente a tua história. Pois, o percurso de tua existência delineou-se como um coração de mãe verdadeira: o trabalho sem descanso, o aperreio com paciência, a tristeza sem desespero, a alegria comedida.

Quantas vezes passaste, com a tua serenidade que recebeste como uma dádiva dos céus, a mágoa no peito que desaparecia com o remédio da fé, na hora da aflição tinhas a prece como sinal de esperança e nos minutos de sofrimento buscavas na oração o lenitivo. Eras um pequeno ser rodeado por uma grande fortaleza, que sempre viveste em sinal de alerta. Pois, na saúde também não temias à surpresa da doença, na hora da doença lutavas pela vida e no último segundo de vida, não fugiste da morte.

Retorno ao enredo da narrativa, mudando o aspecto das personagens.

Querida TIA, na tua velhice, eu deixei de ser apenas um ouvinte de tua história e passei a ser um integrante ativo pela tua vida. Busquei os caminhos da cura, segui as estradas do apelo e corri como a velocidade. Nesta empreitada contra o inimigo oculto, visitei consultórios, andei em hospitais, peregrinei nas salas de assistência, mas sempre lutando em teu socorro. Cheguei a querer ser médico curador, anestesia caridosa e remédio aliviador.

Não me cansei nenhum momento, e, se pudesse, seria um agasalho de conforto ou um espírito de luz para o teu repouso na árvore da vida.
A tua história terrena, dona SEVERINA COELHO VIANA, terminou na tarde lúgubre do dia 31 de março de 1.998, quando o sol da vida sumia no ocaso para iluminar os caminhos da outra vida.

Não te abandonei e nem te esquecerei jamais. Porque de tua vida recebi as lições que ficarão escritas e marcadas no livro do meu viver. Apenas exemplificando: a honestidade como virtude, honrar a palavra empenhada e cumprir os compromissos assumidos, por mais simples que sejam.

A partida foi dura, e já estou morrendo de saudade. Acompanham-me as duas ordens naturais que andam juntas: a falta e a saudade. A falta do teu viver, do teu sorriso alegre, do aroma dos teus beijos, do apoio dos teus braços, do murmúrio de tua voz; não escuto mais os teus passos, o toque do telefonema, o balançar de tua cadeira; o que vejo é a tua cama vazia e sinto até a falta dos teus remédios. Por outro lado, sinto a saudade da tua força inesgotável, da energia de tua prece fervorosa e do escudo de tua fé inquebrantável.

Tenho a convicção de que a minha vontade não foi alcançada na sua plenitude, apenas obtive algumas vitórias, porque a minha maior vontade era continuar alisando os teus cabelos brancos, passar as minhas mãos em tua testa com rugas, acariciar as tuas mãos trêmulas e penetrar na luz inamovível do teu olhar.

Na hora aflitiva vieram o desespero, o inconformismo, o transe, a lágrima. Pensei que estivesse só a vagar pelo mundo, mas nunca estarei só. Mesmo no amanhã incerto, ou na tarde angustiante, ou na noite mal dormida, ficarei bem mais próximo da luz regente do Universo, simplesmente, porque a tua luz está bem ao lado da força Divina.

Entendo que a saudade maltrata como se fosse um martírio permanente, porém a dor da saudade cria o próprio remédio consolador e termina produzindo a substância da resignação.

TIA, no final de toda história de tua vida, agradeço pelos conselhos recebidos que me servirão como exemplos. Guardarei na lembrança os teus ensinamentos sem arredar o itinerário norteador. Haverão de ficar como uma bússola orientadora nas horas difíceis do meu viver, cuja mensagem está resumida no pensamento filosófico de Renato Kehl:

Pensar para acertar.
Calar para resistir.
Agir para vencer.”

Pombal – PB, 02 de abril de 1998.

SEVERINO COELHO VIANA
A U T O R

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