INTERLÚDIO: O CINE LUX*

22 jul 2017

Jerdivan Nóbrega de Araujo

Dedico esse texto, do Livro “NA TELA DO CINE LUX DE POMBAL” . João Pessoa: Imprell, 2002 . a Galdino Mouta filho do fundador do Cine Lux e o seu último administrador

cine lux

O CINE LUX foi responsável por boa parte da formação dos jovens de Pombal, em um certo período entre 1956 e 1989. Esta afirmação pode até parecer estranha para quem não foi criança em uma cidade do interior, onde o cinema e os circos eram as principais, e muitas vezes as únicas, diversões do lugar.

Nos anos sessenta, os jovens pombalenses não davam por iniciado o dia, enquanto não passassem de frente do velho cinema, para ver os cartazes que ali eram colocados por Fagundes e mais tarde, já na decadência, por Gregório. Um outro cartaz era posto na porta do Mercado Público, entre a barbearia de Antonio Guerra e o barraco de Ninito.

— Qual o filme que está em cartaz?

Era comum anotarmos em velhos cadernos o título de todos os filmes expostos, bem como o nome dos atores, diretores e o responsável pela música. Outros garotos chegavam nas primeiras horas da manhã para remexer o lixo do cinema a procura de pedaços de películas. Em casa, montavam “máquinas projetoras”, usando uma caixa de sapatos e uma lâmpada comum, enchendo-a de água, para transformá-la em lente e, com uma segunda lâmpada, esta ligada a corrente elétrica e acesa, projetavam sombras na parede, liberando as imagens aprisionadas nos pedaços de fitas.

Tarzan, Zorro, Teixeirinha, Mazzaropi, Oscarito e Grande Otelo, Sete homens e um destino, Um dólar furado, Quando brota o amor, Dio Como Te Amo e muitos outros, surgiam como mágica bem ali a nossa frente. Chegava-se a cobrar alguns centavos, para quem quisesse assistir as fitas.

Imagens congeladas retiradas do lixo era, na nossa fantasia, um mundo real que só o Cine Lux poderia dar uma explicação.

À noite ficar parado de frente ao cinema batendo papo, trocando revistas em quadrinhos, livros faroestes, ou simplesmente ouvindo músicas da Jovem Guarda, era de lei.

O carrinho de pipoca de dona Maria Calado e as tabuletas de “confeito” e ao lado direito a soverteria, que também pertencia ao dono do Cine Lux. Era proibido entrar com pipocas ou balas no cinema, mas, com picolé, por motivos óbvios, era permitido.

O Cine Lux era a razão e o orgulho dos filhos de Pombal, Eu, particularmente, era fanático. Não me lembro de um Domingo que tenha deixado de assistir a uma matinê.

Naquela época o Cine Lux conservava o fascínio das cortinas se abrindo, aos três sinais sonoros, depois do qual ninguém saía, ninguém entrava.

Hoje eu volto a Pombal e o vejo caindo aos pedaços tal qual os meus sonhos. Uma fachada como é de fachada a felicidade de quem não percebe o belo num casarão antigo. Mesmo assim, para o Cine Lux ainda tiro o meu chapéu, e o agradeço por ter estado ali quando eu também ali estive.

Prometi a mim mesmo que um dia retribuía ao velho cinema tudo o que ele fez pelos moleques da minha infância.

Escrevi para jornais, crônicas emocionadas, revelando aos olhos cegos do povo de Pombal o estado deplorável de abandono que o cinema se encontrava. Noutra oportunidade, dediquei umas duas páginas do livro “Sob Céu Estrelado de Pombal” ao amigo Cine Lux, além espalhar por outras páginas o seu nome e, bem no meio do livro, colocar uma bela fotografia, retratando o seu tempo de glória.

Foi tudo o que eu pude fazer antes que a última tábua caísse aos meus pés.

Mas eu sempre morro de saudades e, nestes momentos, sou remetido de volta a minha infância, para reencontrar o Cine Lux, com suas fitas a me fitar à distância.

Eu tinha um sonho, que era transformá-lo em um grande teatro, mas era um sonho de alvenaria, e os sonhos em alvenaria custam dinheiro.

— São as boas recordações que nos trazem aqui. Lembrou-me Nêgo Panela.

Em um desses outubros passados, eu estive em Pombal e, como sempre faço, fui rever o velho cinema. Fiquei curioso com as algazarras de algumas crianças que corriam para um lado e outro, dizendo haver um fantasma escondido nos escombros do Cine Lux. Um deles me chamou para olhar pela fresta do portão e ver um fantasma que só eles viam. Eu olhei por uns segundo para satisfazê-los. Ele me perguntou se eu estava vendo o fantasma. Respondi que sim. Os garotos saíram contentes e em disparada, pois era a primeira vez que um adulto confirmava a existência de um fantasma assombrando o velho cinema. Não tive sequer tempo de dizer para eles que eu sou um desses fantasmas que assombram e são assombrados por aquela casa cinematográfica.

―O passado sempre assombra-nos. Resmungou Fonfon, enquanto coçava, com a ponta do pé direito o calcanhar esquerdo.

Foi ali também que resolvi escrever um livro onde eu pudesse levar o povo de Pombal para rever as suas histórias e estórias nas telas do velho Cine Lux. Espero que com esta terceira tentativa de homenageá-lo os fantasmas do Cine Lux, que habitam a minha cabeça e assombram crianças inocentes, saiam para sempre da minha vida. Porém, se isto não for possível, é com um imenso prazer que eu dou guarida a todos os fantasmas do velho Cine Lux, que queiram continuar habitando o meu sonho, nas angustiantes noites mal dormidas, em que as lembranças são refletidas na parede do nosso inconsciente, tal qual acontecia nas telas do Cine Lux.

E a musica? Como se falar da magia sonora do cinema em um livro?

Uma musica em particular, APACHE LEX, antecedia a abertura das cortinas e acompanhava todo o trailer até que o leão da Metro ou a moça da Columbia picture apareciam na tela cinemascope do Cine Lux. Ai então o silêncio era eterno. Só o som fugido das fitas cinematográficas era ouvido, até que terminasse o filme. Vez por outra, porém, principalmente nas matines, onde havia a predominância de crianças e adolescentes, o silencio dava lugar a tímidos aplausos, sempre que o “artista” se livrava das cordas e salvava a “mocinha”.

Assim era dentro do cinema. Fora, porem, antes de começar o filme a cidade toda se deliciava com as mais lindas e atualizadas canções.

―Escutem o sinal sonoro e façam silêncio que mais uma fita vai ser exibida nas telas do velho Cine Lux de Pombal. Respeitem os avisos luminosos: “É Proibido Fumar”, e fiquem atentos a lanterna ofuscante de Galdino. Ela ainda está ali!

O silêncio da multidão e os três sinais de luz se deram com atraso, pois Padre Andrada ainda não havia chegado e, de repente, ali estava, em cenas coloridas e nostálgicas, o passado de Pombal de volta e, como não poderia deixar de ser, nas telas do nosso Cine Lux, com seu povo sendo os protagonistas destas histórias.

Ali, na Praça do Povo onde o Cine Lux fazia a mágica de trazer o passado para o presente, era o Conjunto regional, na maestria o exímio maestro Manuel de Donária, o responsável pela música que embala tantas histórias e estórias.

Silêncio! A saudade tem cheiro de guardado e cor de luz.

– Silêncio!!!

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