Lampião ataca Santa Cruz e tenta saquear a casa de Clementino Quelé.

3 abr 2017

* Por Antônio Neto

lampiao lampeao

Lampião no comando de um grupo formado por mais ou menos sessenta cangaceiros, devidamente armados e municiados, atacou de surpresa, às cinco horas da manhã do dia 6 de janeiro de 1924, o arruado de Santa Cruz no municipio de Triunfo, com o intuito de saquear e assaltar as residências daquela povoação. As casas escolhidas pelo bandido foram as de Clementino José Furtado, o famoso Clementino Quelé, de Pedro José Furtado, conhecido por Pedro Quelé e de José Antônio de Souza.

Conforme depoimentos das testemunhas arroladas no processo-crime do delito em questão, houve um tiroteio pesado de quase duas horas de fogo intenso, de modo que as moradias daquele lugarejo ficaram cobertas de fumaça. As pessoas que se encontravam nas habitações saqueadas, não passavam de meia dúzia de homens e algumas mulheres e crianças, que gritavam desesperadas por socorro. Não tardou para que os moradores do vizinho sítio Santa Luzia, viessem acudir as vítimas, evitando, assim, o saque à povoação de Santa Cruz. O bando saqueador perdendo a sua posição na retaguarda, se pôs, imediatamente em fuga, sendo perseguido por seus combatentes até a divisa com estado da Paraíba, seguindo o referido grupo o rumo da Vila de Patos, onde se entocaram.

Nessa ação criminosa os bandidos mataram Pedro José Furtado, conhecido por Pedro Quelé e Alexandre da Cruz e Souza, respectivamente irmão e genro de Clementino Quelé. Pelo jeito, o bandido tencionava acabar com a raça de Clementino, seu ex-cangaceiro e principal inimigo no municipio de Triunfo. Neposiano Alves Feitosa que se encontrava na casa de seu cunhado, José Antônio de Souza, vizinha à residência de Quelé, foi gravemente ferido, vindo a falecer no dia seguinte(7/01/1924).

Por esses crimes o promotor púbico de Triunfo, Dr. Severiano Machado Nepomuceno, em 22 de janeiro de 1924, ofereceu denúncia ao 1º suplente do Juiz municipal de Triunfo, contra os indivíduos: Virgulino Ferreira de Souza, o Lampião, Antônio Ferreira, Levino Ferreira, Antônio Mariano, Antônio Lalau, vulgo Tochinha, Silvino ou Clarindo, vulgo Bem-te-vi, Antônio de Tal, vulgo Meia-Noite, Joaquim Moitinha e o cangaceiro, conhecido por Juriti.

Em depoimento à justiça, Manoel Themóteo Ferreira, a 4ª testemunha a depor, afirmou ter ouvido de João Alves Feitosa, Clementino Furtado e outros moradores de Santa Cruz, que além dos indivíduos já incluídos na petição inicial da ação penal pública, também fizeram parte do grupo assaltante os cangaceiros Manoel Lopes, José Paulo, Manoel Joca, Luiz Leão, Salú de Leovegildo, Manoel Bezerra de Vasconcelos, conhecido por Nezinho de Leovegildo, Sabino de Tal, morador do lugar Abóboras, Felix Caboge, Laurindo Ferreira e Justino Ribeiro. Disse, ainda, que todos esses indivíduos eram afeitos à prática de crimes.

O famoso Clementino Quelé, embora em situação desvantajosa, saiu incólume desse episódio. A partir de então passou a perseguir, ferrenhamente, Lampião e seu grupo. Há quem diga que houve mais de vinte confrontos entre os dois. O Rei do Cangaço o odiava, no entanto não foi capaz de dar cabo do mesmo. Todavia, para se fortalecer e perseguir com segurança o tal bandido, Clementino, ingressou na Fôrça Pública do Estado da Paraíba. Em pouco tempo galgou o cargo de sargento, ficou famoso como “Sargento Quelé” e tonou-se um dos maiores perseguidores de Virgolino, o Lampião. Terminou os seus dias de vida, traquilo na cidade paraibana de Prata, na divisa de Pernambuco com a Paraíba, sem ter logrado sucesso em sua empreitada de acabar como o Rei do Gangaço. No entanto foi implacável em sua perseguição.

Este trabalho teve como fundamento os autos do processo-crime instaurado pela justiça de Pernambuco, no pressuposto de ter sido cometido o ato criminal ora relatado. Portanto, à luz da Lei. Quem tiver dúvida a respeito do conteúdo deste artigo, sugiro que consulte os arquivos existentes no Memorial da Justiça de Pernambuco, CX 2744 – Pasta: Crime – Triunfo, 1924. Autor: Justiça Pública. Réus: Virgolino Ferreira de Souza, vulgo Lampião e outros.

(*) Antonio Neto é pesquisador, biógrafo, escritor e poeta

Comentários