MARANDUBA, O FOGO E AS CINZAS *Rangel Alves da Costa

17 maio 2018

Em vinte anos de estrada, entrecortando o sertão, lutando de palmo a palmo contra inimigo e valentão, assim se fez a história do Capitão Lampião, um rei reinando no sol até tombar em Angico por força de traição.
Vida de emboscada, de tocaia e supetão, e quanto mais vencia guerra mais guerra pelo seu chão, quando pensava em descansar logo a bala zunindo em clarão. Assim a vida no cangaço e o mundo de Lampião, a lenda de uma verdade acontecida no sertão.
Dentre todas as guerras, as maiores são marcadas com cor de sangue em folheto: Serra Grande, Maranduba e Serrote Preto. E nada de encenação, coisa criada em panfleto, mas guerra de fim de mundo que deixou muito esqueleto, mortes de lado a lado, sertão tornado em graveto.
Nas terras da Maranduba, no ano de 32, janeiro no calendário, o que não se esqueceu nem depois. Aí um fogo tão grande que antes da hora o sol se pôs, perante o fumaceiro da refrega que se impôs, com tanta bala zunindo que dividiu o mundo em dois.
De um lado Lampião e seu bando bem armado, do outro duas volantes divididas lado a lado, o grupo de Liberato para o combate chamado, e outro de Mané Neto para o embate chegado. Mas foi o bando cangaceiro que escorraçou o soldado.
A trilha da Maranduba começou em Canindé, após a perversidade do ferro em brasa em mulher. A volante foi chamada pra começar um rapapé, dizimar a cangaceirama que já tava um banzé, espalhando a violência aonde existia fé.
Violência tamanha que todo o sertão noticiou, e aos ouvidos da polícia a aberração se espalhou. A volante pernambucana em ira se despertou e o comandante Mané Neto para Sergipe arribou. Também a volante baiana do ódio se apoderou, e combater a atrocidade o comandante Liberato jurou.
Lampião era esperto e ali não ficava não, conduzindo o seu bando para outro ermo do sertão, na direção da Serra Negra aonde tinha proteção, daquele Coronel João Maria que de Liberato era irmão. Este caçava cangaceiro e aquele não deixava na mão. Emaranhado de um mundo que não é fácil explicar não.
Foi na retirada do bando que Lampião se apressou, já em Poço Redondo o seu grupo dormitou, e nos arredores da Fazenda Queimada Grande, na vizinha Santo Antônio, aquela noite passou. Não sabia o Capitão que a poucos metros dali um tenente descansou, era o baiano Liberato que ao seu encalço se encarregou.
Até a Queimada Grande, as duas volantes tracejando um só destino, mas as intrigas entre os comandos impõem graves desatinos. Os ânimos são acirrados e vão se tornando em inimigos genuínos. Tudo favorece a Lampião, que mais tarde dará o tom àquele impensado desafino.
Então vejam a situação: de um lado dois comandos em intrigas sem solução, e de outro sempre unido o bando de Lampião. Enquanto o bando se unia para o que surgisse então, a volante dividida em capricho e exaltação, cada um querendo ser mais que o outro perante a situação.
Não dando o braço a torcer, Mané Neto chama os seus e os leva a padecer. Cansados e estropiados, mas têm de obedecer. Seguem adiante em pleno escurecer e vão dormir no Poço do Mulungu, para seguir cedinho, ao sinal do alvorecer. Não sabiam, contudo, que ali pertinho, coisa de o dia deixar ver, a cangaceirama passa a noite também sem nada perceber.
Quando Liberato acordou e seu comando juntou, ainda no Poço do Mulungu a volante de Mané Neto encontrou. Mesmo ainda em hostilidade, um fato lhes despertou: não demoraria a guerra, pois mataria assobiou, o tempo chamava à luta, pois nenhum passarinho piou. Lampião tava por perto, logo a expectativa aumentou. O tempo era de vingança, foi o sertão que falou, só não disse de qual lado, como mais tarde mostrou.
A passagem de Lampião já não se escondia na mata. Mesmo no mato fechado, a marca da alpercata. Seguindo aquela trilha, a volante se desata, vai seguindo no encalço em busca do mata-mata. O destino é a Maranduba, a avidez se ressalta. Vai ser bicho derrubado, diz Mané Neto em voz alta.
A essa altura, o coito da Maranduba já é de Lampião. E ao chegar, o rei cangaceiro foi logo dando explicação: Não quero o bando juntado não. Aqui tem sete umbuzeiros e cada um na melhor posição. Quero tudo dividido, cada grupo em seu quadrão, com cada homem armado de arma e de atenção. Aqui é muito perigoso e não quero judiação.
Mané Neto também já havia chegado. Sabia que o coito do Capitão já havia encontrado. Liberato não estava, pois havia se atrasado. Mas logo o nazareno, querendo ser o mais afamado, resolveu ir ao ataque e ter o bando encurralado. Mas não pensou em tudo e o que pensou foi errado. Pensou que era um só coito, e disso saiu ferrado.
Duas horas da tarde, hora do mundo acabar. Lampião e os nazarenos de novo vão se enfrentar. Velhas mágoas do passado agora a rememorar. O bando está cercado, mas não por todo lugar, o Lampião estrategista começa o seu jogo jogar. Mané Neto grita para a força atacar, Liberato vem atrás e afoito pra lutar.
A vitória como certa começa a mudar de lado. O bando de Lampião parece multiplicado, e de repente é o atacante que se vê encurralado. Sem mais saber o que fazer, ocorre o inusitado, atirando sem direção soldado mata soldado. Rio de sangue escorrendo, o fim que não foi pensado, ao invés do cangaceiro foi o soldado massacrado.
Assim o fogo maior no sergipano sertão, o Fogo da Maranduba vencido por Lampião, e em Mané Neto e Liberato a dor da humilhação. Dois comandantes e suas forças não venceram um Capitão. Foi a vitória de uma estrela perante uma constelação.

Escritor
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