Memoriais & Legados de Clemildo Brunet de Sá

2 mar 2018

Por Waldemar José Solha*

– Trabalhei sete anos na agência do Banco do Brasil de Pombal, alto sertão da Paraíba. Sem ar condicionado., as janelas – portanto – escancaradas, a cidade me chegava o tempo todo – expediente adentro – pelo muy frequente e sinistro som do sino da igreja do Rosário – duas telegráficas batidas longas e uma seca ( pelos funerais ), e – pra compensar a deprê – os dois mais fragrantes perfumes do mundo: o do café, que vinha, intenso, da torrefação de seu Antonio Rocha, e o do pão… saído do forno, da padaria de seu Napoleão Brunet, pai de Clemildo.

Brunet.

Há um ano, quando lia o excelente PEDRO AMÉRICO – As Cores do Brasil Imperial, do paraibano Lúcio Flávio Vasconcelos ( editora Prismas, Curitiba ), não vinculei os Brunet padaria de Pombal ao cientista Louis Jacques Brunet – “amigo de Leverrier, Lamartine e Dumas-pai”. Deslumbrado com o menino-prodígio de Areia, de menos de 10 anos, o médico e naturalista francês levou-o como desenhista de sua expedição “por toda a província da Paraíba e parte de Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Piauí”.

Bom.

E eis que em Sousa, o luminar gringo conheceu Custódia de Sá e com ela se casou. Daí – centenas de anos depois – o Napoleão Brunet, em Pombal, e esse nosso Clemildo, que nos chega com esse livro sobre si mesmo, sua família, amigos, sobre Pombal. Como Louis Jacques esteve no Vale do Rio do Peixe em 1854, onde “foi, de fato, quem primeiro registrou para a história os sedimentos cretáceos”, e como se perdeu muita coisa que o cientista deixou, nosso memorialista diz que, embora não haja “referências de Brunet sobre as pegadas fósseis, dificilmente tais registros escapariam ao espírito científico atilado deste pioneiro”.

Acho que sim, pois Darwin só lançaria Origem das Espécies cinco anos depois – 1859. E o que se conta é que a descoberta das enormes pegadas só aconteceu em 1979, pelo paleontólogo italiano Giuseppe Leonardi.

Bem.

Com MEMORIAIS & LEGADOS, Clemildo Brunet me devolve àquela época tão importante pra mim, anos 60, em sua cidade. Ei-lo falando, na página 228 e ss, do Dr. Atêncio Bezerra Wanderley, definindo-o magistralmente, como “Culto, simples, discreto, tímido e prudente”. Dr. Atêncio – prefeito – era isso. Nomeou-me presidente do Conselho de Desenvolvimento do Município, de que fazia parte outro personagem dessas memórias: O pastor Pastor Jônatas Barros de oliveira, que nos empolgou com sua ideia de trazer a televisão pra cidade, arregaçando as mangas pra isso, pois entendia do riscado. Fomos, eu, ele e o Doutor – juntos – ao Recife, pra comprar tudo que fosse necessário. Foi assim que, em 1969, uma pequena multidão viu o homem descer na Lua, no alto do Cruzeiro, que dominava Pombal.

E claro que foi um prazer enorme me deparar, no livro do Brunet, com Verneck Abrantes ( pág 157 e ss) que, menino, foi o iluminador da peça A Canga, que escrevi e montei lá, o mesmo jovem que, anos, depois, texto original perdido, reescreveu-o de memória – no início dos anos 70 – para a bela montagem que foi feita por seus colegas da Faculdade de Agronomia, da mesma Areia de Pedro Américo. Ele e o Jerdivan Nóbrega de Araujo ( pág. 161 e ss) prosseguem o belo trabalho de Wilson Seixas ( pág.

151 e ss ), de quem li, há séculos, “O Velho Arraial de Piranhas” – com o relato das origens da cidade. Por falar em Verneck e nessas origens, Clemildo ( pág. 79 ) dá grande destaque à revelação dele de que a cidade não deve seu nome ao Marquês de Pombal ( como eu mesmo pensava). Ao receber o nome inicial de Vila Nova de Pombal, fazia referência à cidade portuguesa de Pombal ( como, deduzo, foi o caso de New… York ), “pois no século XVII ainda não estava em moda esse tipo de homenagem aos governantes. A Carta Régia de 22 de julho de 1766, que mandava erigir novas vilas nas capitanias de Pernambuco e Paraíba – diz Verneck, segundo Clemildo – ordenava aos administradores denominá-las como as localidades de Portugal, com intuito de fundamentar o domínio português”.

Vivendo e aprendendo.

João Costa – que eu via menino no Grande Hotel, logo que cheguei a Pombal ( era filho do dono ) – é enaltecido por Clemildo Brunet e assino embaixo tudo que disse. João foi o protagonista da adaptação teatral que fiz do romance Fogo Morto, do Zé Lins – soberba direção do Fernando Teixeira, e foi voz poderosa e marcante nas apresentações e no LP da Cantata pra Alagamar, versos meus pra música do maestro Kaplan. E é ele que chama a atenção para o melhor texto do livro que ora vem à luz: “A criança que fui, a criança que sou”, embora Clemildo tenha me emocionado, mesmo, foi com o relato do momento em que, vítima de um infarto ( pág. 52) viu o cardiologista, Dr. Wellington Onias, dizer em seu ouvido: “A medicina encerrou com você, meu caro. Agora só o Altíssimo”.

E… Quantas figuras!

Levi Olímpio ( 228 ss ).

Eu me lembro da primeira vez que o vi. Meu birô ficava de frente para o do gerente, que se destacava no alto de um estrado. Levantei os olhos da Remington e vi aquele cara do tamanho de John Wayne aproximar-se do administrador e, em voz baixa, começar a falar de financiamentos que pretendia. Em certo momento, curvou-se um pouco, as mãos apoiadas no tampo da escrivaninha, no que sua camisa desensacada subiu e vi o par de revólveres nos coldres do cinturão cheio de balas. “Moço” – eu disse, e ele se voltou. “Suas armas estão aparecendo…” E ele: “Ô, me desculpe…” Caramba, quanto a gente riu disso, depois, quando cada um tinha uma caçamba trabalhando no asfaltamento da BR…

Dr. Carneiro Arnaud!

Não dá pra esquecer que, descoberto o câncer em meu filho – que morava em Fortaleza – troquei mensagens com essa grande personalidade de Pombal, perguntando quanto seria a operação de que Dmitri precisava. “Nada!” – foi a resposta. “Pode trazê-lo para o Laureano!” O filho preferiu ficar no Ceará, onde minha nora é enfermeira com vários parentes médicos, inclusive um grande oncologista. Ele se foi, em junho passado, mas tiro meu chapéu e me curvo ante a voz amiga que tive aqui, Dr. Carneiro Arnaud, a ponto de arrastar as plumas no chão.

E vou parar, ou isto vai acabar com mais do que as 257 páginas no novo livro do Clemildo Brunet – que já faz parte da História de Pombal.

*W.J.Solha. Escritor, cordelista, ator e artista plástico

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