Mesmo sujo, o mesmo paletó

13 jan 2018

Mesmo sujo, o mesmo paletó

Há coisas que dão na vista e que acontecem tão repetidamente que já ocorrem com a certeza de que nada mudou; como se fosse quem usa sempre a mesma roupa, mesmo quando ela é grã-fina, como é o caso de quem sai sempre com o mesmo paletó. Engana-se quem ache que ele seja dono de sete ou onze ternos iguais. Não, é o mesmo surrado paletó, já perdendo a cor para o suor na gola e nos punhos, com as manchas dos sovacos; faltando um dos botões na manga esquerda ou com a indelével nódoa de caju.

É domingo? Lá vem ele; segunda, também. Confunde-se quem for tirar o dia da semana pela indumentária do engravatado inveterado. Tanto faz sábado como sexta; velório como festa; igreja como qualquer bar da boemia, é costume vê-lo com a tradicional roupa, faça chuva, faça sol. Talvez tenha sido a roupa do namoro, do noivado e finalmente do casamento. Ninguém mais ri, perdeu-se o gosto da piada, quando se diz que “sua roupa virou pele” ou que “ele não precisa vir, basta a roupa”, inconfundivelmente é ela sua identificação.

Há coisas que dão na vista, saltam aos olhos. Não são as nomeações da mulher, da sogra, do cunhado, e de afins pelo ignaro prefeito do interior. Mas, as escolhas dos “Ministros” da nossa ofendida república. Quem os escolhe não erra, segue sempre o mesmo perfil: há de ter a mesma ficha, com as mesmas manchas, e desde que se confirme não ser “limpa”, apressa-se a posse. Se for para o Ministério do Trabalho, o ungido se caracteriza por quem não trabalhe, dê trabalho aos trabalhadores negando-lhes seus direitos e não assine as carteiras dos seus diligentes serviçais. Evitam-se os justos, os inocentes, preferindo-se indivíduos réus, habilidosos em propina a cidadãos competentes, íntegros e honestos ou não corrutos. Mas, o que fazer? Recorrer, recorrer, talvez recorrer… Há coisas que doem na vista, e o povo vai se acostumando com a dor.

Damião Ramos Cavalcanti
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