Natal, 28 de janeiro de 1943. O dramático encontro de Getúlio e Roosevelt

14 set 2017

Gilson M. Gondim

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Franklin Delano Roosevelt, democrata, era presidente dos Estados Unidos pela terceira vez consecutiva (naquele tempo isso era permitido). Eleito em 1932, no auge da Grande Depressão iniciada em 29 sob governo republicano, seria reeleito em 36, 40 e 44 (foi o caso Roosevelt que fez o Congresso americano mudar a lei; hoje ninguém pode se eleger presidente mais do que duas vezes, consecutivas ou não). Sua política econômica, conhecida como “New Deal”, algo como “Novo Plano” ou “Novo Trato”, que previa grandes gastos públicos em infraestrutura, mesmo correndo o risco de aumento da inflação, começou a tirar o país da Depressão, o que só aconteceria totalmente com a efervescência econômica causada pela Segunda Guerra Mundial.

Getúlio Vargas liderara em 1930 uma revolução modernizante e industrializante no Brasil. Fora presidente eleito pelo Congresso e em 1937 tornou-se ditador, com a implantação do chamado Estado Novo, inspirado nos Estados fascistas europeus de Mussolini, Hitler, Franco e Salazar. Na década de 50, tornar-se-ia presidente constitucional, eleito diretamente, até se suicidar em agosto de 1954, mas isso é outra história.

No começo da Guerra, Vargas tinha simpatias pelo chamado Eixo Berlim-Roma-Tóquio, mas se manteve fora do conflito e, com a mudança dos ventos, aliou-se pragmaticamente aos Estados Unidos. Foi aí que veio o pedido do todo-poderoso Roosevelt para encontrar-se com ele.

O encontro se deu em Natal, Rio Grande do Norte, em 28 de janeiro de 1943. Roosevelt e Getúlio conversaram sem intérpretes, mas não em inglês, muito menos em português. Conversaram em francês! Fiquei surpreso quando li esta passagem no livro “O dia em que Getúlio matou Allende e outras novelas do poder”, do jornalista gaúcho e ex-militante político Flávio Tavares, obra e autor de que já lhes falei em outra mensagem. Nunca imaginei que Roosevelt e Getúlio falassem uma língua estrangeira (no máximo que Vargas falasse espanhol, já que era um homem de fronteira).

O presidente americano pediu a Getúlio permissão para instalar uma base aeronaval americana no Saliente Nordestino, esta ponta do Brasil que se projeta em direção à África, onde ficam, por exemplo, Natal e João Pessoa. Falou da importância estratégica dessa base. Getúlio assentiu, mas com uma condição: que os americanos construíssem uma usina siderúrgica para o Brasil no município de Volta Redonda, no sul do Rio de Janeiro, e que a usina ficasse pronta em no máximo “deux ans” (dois anos). Roosevelt respondeu que era impossível, pois a indústria americana estava totalmente voltada para o esforço de guerra. A indústria automobilística, por exemplo, não estava produzindo automóveis, apenas carros militares e tanques de guerra. Getúlio falou dos seis mil seringueiros brasileiros que já haviam morrido de malária na Amazônia, tentando conseguir a matéria-prima para a borracha que os americanos usavam na guerra. Roosevelt cedeu. Prometeu que a usina seria entregue em três anos (promessa que seria cumprida mesmo com a morte de Roosevelt, menos de um mês antes do fim da guerra na Europa, em 1945). Poucas semanas depois, já havia americanos trabalhando nos primórdios da construção da siderúrgica, que viria a ser a CSN – Companhia Siderúrgica Nacional, empresa estatal durante décadas e finalmente privatizada no governo Itamar Franco. Hoje, a CSN rende mais para o governo federal em impostos do que rendia em lucros e dividendos quando era estatal. A CSN seria inaugurada no governo constitucional do general Eurico Gaspar Dutra, que fora ministro da Guerra de Getúlio e tivera o apoio deste para derrotar nas urnas o brigadeiro Eduardo Gomes. Mesmo assim, Dutra não convidou Vargas para a inauguração da usina, que foi a única obra civil de indústria pesada que os americanos construíram durante a guerra. (Apenas uma parte desta mensagem é baseada no referido livro de Flávio Tavares).

Aquela foi uma das grandes vitórias da vida política de Getúlio, mas aquele dia, narra Tavares, lhe deixaria um gosto amargo. Enquanto ele negociava em francês com o aleijado Roosevelt, que não andava por causa de sequelas da poliomielite, seu filho Getulinho, de 24 anos, morria também de poliomielite no Rio de Janeiro (Getúlio tinha mais dois filhos homens, Lutero e Maneco, e uma filha a quem era muito ligado, Alzirinha). Quando Vargas saíra do Rio, Getulinho estava inconsciente, já desenganado pelos médicos. Mas o rapaz acordaria e perguntaria insistentemente pelo pai. Sua mãe, Dona Darcy, respondeu que não sabia onde o pai estava. E não sabia mesmo. O encontro era ultrassecreto. Somente o embaixador dos Estados unidos no Brasil e o ministro brasileiro da Guerra conheciam o paradeiro dos dois presidentes. Quer dizer, havia mais alguém que sabia. Gregório Fortunato, o “Anjo Negro”, chefe da Guarda Pessoal de Vargas, que faria sua desgraça onze anos e sete meses depois, já no governo constitucional, quando mandou matar, sem o conhecimento do chefe, o opositor Carlos Lacerda, que escapou com um tiro no pé (no atentado, porém, morreu o major Vaz, da Aeronáutica, gerando ou agravando a crise que resultaria no suicídio de Vargas), mas isso é outra história. Fortunato, porém, era totalmente leal ao então ditador e jamais revelaria seu segredo. Assistiu ao sofrimento da família sem dizer uma só palavra.

Tavares se pergunta se aquele episódio assombrou Getúlio nas horas finais antes do suicídio, quando a decisão já estava tomada (ele já entregara a caneta de ouro a Tancredo Neves e a Carta-Testamento, em envelope lacrado, a João Goulart). Provavelmente sim, digo eu. Deve ter sido algo muito marcante. Mas só podemos especular.

Quanto à Base Aeronaval americana instalada em Natal, Tavares diz que ela foi fundamental na guerra. Sem ela, diz ele, os americanos não poderiam ter desalojado os alemães da África, cortando seus suprimentos de petróleo e abrindo as portas da Itália.

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