NO TEMPO DO ASA BRANCA

10 abr 2017

Ignacio Tavares
Ignácio Tavares*

No começo dos anos sessenta o transporte intermunicipal mais barato era o trem. Por isso, a estudantada menos abastada, que não podia viajar confortavelmente na viação Gaivota, se quisesse ir a terrinha, tinha que tomar o velho e saudoso trem Asa Branca, que fazia o trajeto Recife/Fortaleza. O transporte era lento, até demais, mas, o preço do bilhete cabia perfeitamente em nosso bolso.

A viagem era pura diversão. Havia três classes de passageiros: a primeira, segunda e terceira. A gente comprava passagem de terceira, mas, viajava como se fosse passageiro de primeira classe. Deixávamos a bagagem no vagão de terceira e ficávamos a passear pelos diversos vagões e

nos fixávamos no de primeira classe, onde costumavam viajar as mocinhas que retornavam para suas cidades pelas mesmas razões: a gozo de férias.

Era por aí que começava a nossa festa. Éramos estudantes de Patos, Pombal, Sousa, Cajazeiras, entre outros municípios da região. Tomávamos o trem, na estação do Varadouro, aqui em João Pessoa, por volta das cinco e meia da manhã. Às sete horas, chegávamos a Itabaiana, onde passávamos para o Asa Branca que vinha de Recife. Era a chamada baldeação.

A cada parada a gente descia a fim de comprar alguma coisa para comer, às vezes tomar uma cachacinha, quando havia por perto. A viagem era longa e duradoura. Pois, havíamos de chegar a Pombal por volta de nove horas da noite.

Ao chegar à terrinha, pela janela, avistava Chiquinho de Bem-Bem que estava a me esperar a fim de levar a minha mala e anunciar a minha mãe que em breve chegaria em casa, o que não acontecia porque conforme combinávamos – no decorrer da viagem – devíamos nos encontrar no bar de Zé Preto, onde ficávamos a bebericar e jogar conversa fora até altas horas.

Isso mesmo, nós mesmos tínhamos que anunciar a nossa chegada. A serenata era o modo através da qual avisávamos as namoradinhas que estávamos na terrinha. Cantávamos as mais novas canções para mulher amada a fim de atiça-la o coração. Ah, como era bom! No outro dia era só o que se falava: os seresteiros estão de volta.

O tempo que passávamos na terrinha era aproveitado minuto a minuto. Não havia espaço de tempo perdido. À tarde íamos aos treinos do São Cristóvão, bastante concorrido quando a estudantada chegava de férias. O Maracatu e os titulares recebiam novos reforços o que tornava os treinos mais disputados.

Às vezes, quando o treino estava zero a zero, o arbitro esticava um pouco mais, na busca de um único gol para encerrar a peleja. Como não havia refletores, quase sempre tínhamos que encerrar a partida que continuaria no dia seguinte.

À noite, no decorrer da semana, recorríamos às festinhas localizadas. Refiro-me aos assustados onde os jovens se encontravam para uma noite dançante. Nessas ocasiões, novos namoros começavam, outros terminavam. Mas, quando a relação era firme, tudo terminada em paz.

Nas sextas, sábados e domingos, o ponto de encontro era no bar Centenário. Este era o ponto mais procurado pela juventude daquela época. Ao redor do coreto era como se fosse uma passarela por onde as mocinhas da cidade exibiam a malemolência do viço jovial, com seus dotes de exótica beleza, marcada pelos traços e silhuetas típicas da mulher sertaneja.

O tempo corria rápido. Quando menos se esperava o dia do retorno havia chegado. Novamente, o velho trem nos levava de volta a João Pessoa. Casais de namorados conversavam animadamente, de mãos dadas, trocavam juras e mais juras de amor. Parecia até que os namorados estavam a partir para um campo de batalha em lugares distantes. Olhos marejavam, lenços acenavam em meio a choros e solicitações: logo que chegar lá me escreva! Está bem, aguarde!

Quando o Asa Branca, que vinha do Ceará, aproximava-se da estação, um apito frenético anunciava a sua chegada. Em poucos minutos, estávamos a deixar, mais uma vez, a terrinha querida. O velho trem ao partir, fazia aquela chiadeira entrecortada, que nos remetia à lembrança dos versos do poeta Ascenso Ferreira: Vou-me embora pra Catende! Vou-me embora pra Catende! Vou-me embora pra Catende! Em marcha lenta partia deixando pra trás um monte de saudades. As ruas das mediações pareciam caminhar no sentido contrário ao trem, até os limites da Brasil Oiticica. Daí por diante, era somente saudades e nada mais.

Para amenizar o choque da partida nos restava cantar um musiquinha bastante conhecida: Ela me beijou demoradamente/De mim se afastou alegre e contente/Até breve coração, juizinho ouviu/Eu fiquei na estação até que o trem partiu/Vai em paz meu grande amor/Vá em paz e volte breve/Se você sentir saudade/Pega o lápis e escreve. Em seguida alguém gritava: ah que saudades da minha Amélia! Risos! Confirmações! Contestações da plateia feminina…

trem

O Trem Asa Branca, com seu apito nervoso, já acusava a aproximação da próxima estação. O fiscal ao passar por nós anunciava: atenção senhores passageiros! Quem for de terceira, tome o vagão de terceira, quem for de segunda tome o vagão de segunda, quem for primeira fique onde está. Risos! O Fiscal nos encarava com o olhar de reprovação, porém, sem nenhuma reação e prosseguia a sua caminhada de vagão em vagão a repetir as mesmas palavras de ordem.

Enfim, nada mudava, e assim a gente prosseguia a caminhada até João Pessoa, onde o dever nos esperava. Mas, nos momentos de reflexões, remoia na cabeça o “vai em paz meu grande amor/vai em paz e volte em breve”. Últimas palavras da namoradinha que ficou repleta de saudades a nos esperar nas próximas férias. Ah que saudades que sinto! Daria tudo para que a máquina do tempo nos remetesse àquela fase esplendorosa da nossa vida. Infelizmente, a verdade verdadeira, é que, somos prisioneiros do tempo, posto que, mudamos no tempo, mas ainda não somos capazes de mudar o tempo. Esta é uma triste realidade!

*Economista e Escritor pombalense

FONTE: http://clemildo-brunet.blogspot.com.br/2017/04/no-tempo-do-asa-branca.html#more

Comentários