O acaso ou o oculto em Pai Mateus

19 maio 2017

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O acaso ou o oculto em Pai Mateus

Há quem tenha medo do acaso, igual a quem tem “medo de alma”. De repente, lá vem ele desconsertando nossa vida. Quando causando benefício, tudo bem, é sorte; mas, se, de surpresa, desarranjando o dia ou a vida, é azar, “destino”, pega-nos de surpresa, levando-nos a instarmos a quem está acima dele: A Sabedoria Oculta, independente do tempo e do espaço e das causas e dos efeitos, interagindo conosco ou fazendo de nós instrumentos do soerguimento. O acaso, às vezes, explica-se por uma alquimia filosófica.

O acaso é misterioso, como as pedras superpostas que caíram casualmente do céu, formando o belo Lajedo de Pai Mateus. Também em casual circunstância, esses adornos da natureza foram memorizados em belas fotografias por Guy Joseph, ao caminhar pros lados de Cabaceiras de Juarez Farias, da cinematográfica Roliúde Nordestina de Wills Leal que, dentre os bodes daquela árida terra, caprina, teimosa como esses bichos, elegeu um deles para ser rei, e comemora, nos meados de junho, esse reinado com a Festa do Bode Rei.

Foi dentre essas coisas imprevisíveis que, no Hotel Fazenda Pai Mateus, de Tota Lucena, aprendi a fazer a deliciosa receita do “Bode Enterrado”: Enterra-se o dito-cujo, em pedaços temperados, num buraco de um metro de profundidade, sobre o carvão em chamas, fecha-se o buraco com uma tampa coberta de terra, como os índios cozinhavam peixe enterrado numa folha de bananeira; depois de quatro horas, desenterra-se comida tenra e saborosa. Preparo simples, no gosto de carneiro, feito pelos argelianos, para a receita do Couscous Árabe. Conversei também, nesse Hotel, com dezenas de turistas escandinavos que saem da Finlândia, Suécia, Noruega e Dinamarca diretamente para Cabaceiras, para admirarem o exotismo do alcantilado Lajedo. Abandona-se ao acaso o protagonista Pai Mateus: Nada escrito sobre o eremita, curioso habitante da cavernosa gruta que se servia de uma pedra como cama e mesa; solitário curandeiro de doentes, conselheiro de sadios, cujas palavras amansavam brabos e violentos cangaceiros.

Damião Ramos Cavalcanti
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