O Cadeirante

5 abr 2013

O CADEIRANTE

Imponente. Majestoso mesmo. Um dos prédios mais antigo, e um dos mais respeitados, localizado bem no centro da capital paraibana, conhecido pelo lendário relógio e suas famosas badaladas, bem como seus maravilhosos vitrais. Basta contornar um pouco a Lagoa, no Parque Solon de Lucena para que avistemos o seu relógio, marcando rigorosamente as horas. E este é um fato conhecido por todos os cidadãos pessoenses.

Imponentes, majestosos mesmos são dois alunos dessa instituição de ensino, Jeferson e Thiago, que no asfalto, por entre os carros apressados que circulam a Lagoa nas mais variadas direções vão em direção ao Lyceu. Quer seja sob um céu azul de estrelas, quer seja sobre nuvens carregadas, de um céu cinzento, que anunciam chuvas fortes, lá estão eles, caminhando por entre os carros e ônibus da cidade, nas suas idas e vindas para o Lyceu Paraibano. Os anjos do asfalto, das avenidas largas, das ruas estreitas, das calçadas nunca se intimidam. Todos os dias da semana lá estão eles. São alunos assíduos. Até mesmo debaixo de chuvas torrenciais, no inverno, é possível vê-los seguindo em direção ao Lyceu, à noite, em busca do saber.

São três anos nesta rotina, e mais, na batalha que Jeferson enfrenta, vez por outra, quando a cadeira de Thiago não está na sala. Imediatamente, muito aborrecido ele procura a direção. Quer a cadeira. O amigo necessita dela para realizar as tarefas escolares. Fica irritado. Ressalta como é que tiram a careira do lugar, se todos sabem da necessidade de Thiago. Recebe a ponderação de que os outros turnos, manhã e tarde não sabem da condição do amigo. A direção promete providências, que certamente serão cobradas pelos dois.

Não me canso de observá-los, de admirá-los, seja na sala de aula, nos corredores na praça de alimentação, na biblioteca. Devo ressaltar que eles possuem um alto grau de criticidade, de consciência reflexiva, de cidadania. Penso como é bom que eles existam. Como é bom que estejam todas as noites no Lyceu. É uma honra conviver com eles e aprender que ainda há solidariedade entre os homens. Que ainda há amor ao próximo. Que Deus se faz presentes entre os homens através de suas ações.

É orgulho, é satisfação, é prazer o que inunda meu ser. È muito mais: é vivenciar a maravilha de ser gente, pessoa, ser humano. É o que sinto ao ver Thiago sendo conduzindo por Jeferson em direção ao SESC, para os festivais de poesia encenada. Ver também, Jeferson e outros amigos carregando o amigo na sua cadeira de rodas, pelas escadas do Lyceu que dão acesso ao primeiro andar, para que ele participe de uma oficina poética, ministrada pelo poeta Valberto Cardoso.

Mais importante que tudo isso é ver Thiago criar um poema e receber um livro do poeta, emocionado. Vejo seu sorriso largo e, por meio dele, vejo como é possível fazer a vida valer à pena. Vejo, ainda, como é preciso enxergar os anjos que nos rodeiam e aprender com eles.

Francisca Vânia Rocha Nóbrega

Comentários