O coletor de ossos

15 jul 2016

É madrugada, e logo vai amanhecer, mas antes que o sol nasça, o barulho dos ossos balançando em cima do macabro caminhão faz Rita pular no chão, assustada, porque o baralho avisa que já está bem próximo de sua casa, o coletor de ossos do sertão. Isso é certo, uma vez que esse barulho virou rotina, no acordar de Rita.

Minutos antes do pulo, Rita debatia-se na cama, num sono agitado, inquieto, próprio de quem passa por dificuldades, sejam elas materiais ou emocionais. O que eu não podia imaginar era que a causa de toda aquela agitação era um sonho abstraído de sua dura realidade, uma vez que ela se via caminhando por lugares fúnebres, sombrinhos, aterradores, com cheiro de morte. Rita caminha por estradas desoladoras, de terra vermelha, de horizonte cinzento, de árvores secas, sem uma folha verde, nenhuma, entre inúmeras carcaças.

Em meio a essa medonha e aterradora paisagem, Rita para e chora copiosamente. Busca aliviar seu sofrimento, mas ele é tanto que nem mesmo as lágrimas conseguem aliviá-lo. Olha ao seu redor. Tudo o que restou nas estradas, veredas e currais, apenas as carcaças do gado morto pela fome e pela sede, graças à seca que castiga todo o sertão nordestino.

Aflita, Rita sonha com o coletor de ossos, uma figura pouco conhecida no nosso sertão, que como uma ave de rapina, como um corvo de maus presságios vem. É ele, o coletor de ossos, com seu funesto caminhão, que vem coletar do chão ressequido do sertão, os últimos sonhos, as últimas esperanças e todo o investimento de uma vida inteira de trabalho e sofrimento do sertanejo nordestino: seu gado morto.

Rita chora, e sabe que não chora sozinha. Em quarenta anos, essa é a pior das secas que já castigou o nordeste e sua gente. Ela sabe também que a asa branca, de tão triste, mas tão triste com a situação, cantou um canto de dor e pra longe do sertão voou. Mas o homem não tem asas, e agora também não tem água nem árvore nem gado, mas é preciso enfrentar essa terrível situação. Viver é preciso.

O sertão e sua gente não esperam ajuda não, pois sabem que os governantes poucos se importam com a triste e lamentável situação, eles estão muito ocupados e preocupados com a copa, investindo todo o nosso dinheiro nas reformas e construções de estádios, sem a menor intenção de se voltarem para o homem do sertão e a sua lastimável condição.

Na noite triste e silente do sertão, debatendo-se em sua cama, Rita clama a Deus pra que Ele mande chuva para o sertão, e assim mude toda essa situação, pois quando chove, o sertão se renova, e o homem com fé, força e esperança no coração, para o campo corre, para fazer sua roça e sonhar com dias melhores.

Somente assim Rita deixará de sonhar com o caminhão do coletor de ossos do nosso sertão.

Comentários