O coletor de ossos

20 mar 2013

Rita debatia-se na cama, num sono agitado, inquieto. O que eu não podia imaginar era que a causa de toda aquela agitação era um sonho real, uma vez que ela se via caminhando por lugares fúnebres, sobrinhos, aterradores, com cheiro de morte. Rita caminha por estradas desoladoras, de terra vermelha, de horizonte cinzento, de árvores secas, se uma folha verde, nenhuma.

Em meio a essa medonha paisagem, Rita para e chora copiosamente. Busca aliviar seu sofrimento, mas ele é tanto que nem mesmo as lágrimas consegue aliviá-lo. Olha ao seu redor. Restou nas estradas, veredas e curais, apenas as carcaças do gado morto pela fome e pela sede, graças à seca que castiga todo o sertão nordestino.

Aflita, Rita sonha com o coletor de ossos, uma figura pouco conhecida no nosso sertão. Como uma ave de rapina, como um corvo de maus presságios, lá vem ele, com seu funesto caminhão, coletar do chão ressequido, os últimos sonhos, as últimas esperanças e todo o investimento de uma vida inteira de trabalho e sofrimento: seu gado morto.

Rita chora, e sabe que não chora sozinha. Em quarenta anos, essa é a pior das secas que já castigou o nordeste e sua gente. Ela sabe também que a asa branca, de tanto triste, mas tão triste com a situação, cantou um canto de dor e pra longe do sertão voou. Mas o homem não tem asas, e agora também não tem água nem árvore nem gado, mas é preciso enfrentar essa situação.

O sertão e sua gente não esperam ajuda não, pois sabem que os governos poucos se importam com a triste e lamentável situação, estão muito preocupados com a copa, investindo todo o nosso dinheiro nas reformas e construções de estádios sem a menor intenção de se voltarem para o homem do sertão.

Na noite triste e silente do sertão, debatendo-se em sua cama, Rita clama a Deus pra que Ele mande chuva para o sertão, e assim mude toda essa situação, pois quando chove o sertão se renova, e o homem com fé, força e esperança no coração, pro campo corre, para fazer sua roça.

É madrugada, e logo vai amanhecer, mas antes do sol nascer o barulho dos ossos, balançando em cima do macabro caminhão, faz Rita pular no chão, pois já está bem perto o coletor de ossos do sertão.

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