O Corselet Preto

19 jun 2013

O CORSELET PRETO

As mulheres, quase todas, possuem uma visão diferenciada, incomum, particular, própria mesmo, já que elas enxergam, também, através do cheiro, das cores, dos perfumes, dos sorrisos, dos toques, e do falar, entre outras maneiras. Talvez seja esse o motivo de serem tão vaidosas, por possuírem visão multifacetada. Elas gostam de estar sempre penteadas, perfumadas, bem vestidas, bonitas. E isso independente da idade, sejam elas jovens adolescentes ou senhoras de terceira idade. E com Verônica não era diferente em nada.

Justamente por isso, a mais recente aquisição de Verônica era o tão desejado corselet preto, de renda. Era também sua cartada final no jogo do amor. Mais que isso, era sua cartada final em relação à vida Por isso o corselet preto de renda era a sua estratégia final, por achá-lo a peça feminina mais sensual, mais deslumbrante. Fascinante mesmo.

E ela estava corretíssima em pensar assim, uma vez que a palavra corselet  vem do francês, cors (corpo), que por sua vez deriva do latim, corbus. E que na idade antiga não era considerado como uma simples vestimenta projetada para realçar tão somente as formas femininas. O corselet transformou-se em um ícone de tudo que despertar fascínio, encantamento, sedução, deslumbramento. Portanto, ele é mesmo sinônimo de sensualidade, fascínio e sedução.

Olhando fixamente para seu corselet de renda, preto, belíssimo, como quem se agarra a um amuleto da sorte. Lágrimas pesadas, sentidas, amargas, doídas, desesperadas escorrem silenciosas pelo seu rosto. São cristais de amor. Amor profundo, amor fogoso. Amor que tem fome e sede do ser amado. Amor maior que o próprio mundo. Amor não mais correspondido.

Era aniversário dele. E ela tinha lembranças maravilhosas dessa data. De tempos idos, distantes. Tempos de amor vivido plenamente. Tempos de amor correspondido, partilhado, vivido em cumplicidade. Levanta-se da cama. Abre o guarda roupa. Olha o armário e as gavetas. Abre a última. Lá está, cuidadosamente embrulhada, a sua sentença final. Seu veredito de morte. Olha-a, fixamente, por algum tempo.  Depois fecha a gaveta silenciosamente, e sai.

Vai à cozinha, verifica todos os detalhes. As deliciosas saladas, os molhos, as entradas, o arroz de festa, a sobremesa, a torta. Tudo certo. Vai à sala de estar, verifica a organização, as flores dos jarros. Dirige-se à mesa posta, preocupada com a distribuição dos talheres e copos. Tudo passado em vista. Agora era o momento de cuidar dela mesma. Dos cabelos, unhas, pele e roupas.

Toma um banho demorado, com sais perfumados. Põe o roupão. Deita-se na cama para passar creme em todo o corpo. Enquanto vai deslizando as mãos pelo corpo, pensa nas mãos longas e sensíveis do marido. Mãos que sabem tocar, acariciar uma mulher. Mãos fortes, de homem firme, austero, másculo. Mãos de quem sabe o que deseja uma mulher. Foi assim desde o início. Ela não resistia ao seu toque. Aquele toque fala, sussurra na pele, em diálogo direto com sua alma. Com o âmago feminino. Também por isso ela o amava com paixão. Quase com desespero. E sempre fora assim. Seu amor era tanto, tão intenso. Uma loucura, quase um desespero.

O tempo não mudara isso. Tantos anos passados e ela ainda se sentia assim em relação a ele. Era dominada por esse amor, por essa paixão, por esse desespero de necessitar do outro, do seu amor, do seu toque, do seu querer. Olha-se no espelho. O tempo mudara sua aparência, não seu eu. Veste-se. Coloca o corselet de renda, preto. Olha-se. O tempo passa. Ele está atrasado em quase duas horas.

Meia noite. Ela levanta-se da cama. Anda por toda a casa. Está sozinha. Os filhos estão viajando. Na casa estão apenas os antigos fantasmas. Esta noite a solidão é insuportável. A dor é mais do que física. E os fantasmas agora a estão sufocando. Volta ao quarto do casal. Abre o guarda-roupa, a última gaveta da cômoda, pega o embrulho cuidadosamente guardado.

Desce as escadas. Os espelhos refletem sua imagem de corselet preto. Pára. Nos seus olhos um intenso e estranho brilho. Alcança a cozinha. Pega um copo na mesa meticulosamente posta. Abre o embrulho. O frasco reflete seu conteúdo mortal. Abre-o e toma todo o conteúdo de uma só vez. Abre a porta e sai caminhando na noite escura.
Vânia Rocha

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