O Crime da Rua da Cruz em Pombal/PB

18 jul 2013

O Crime da Rua da Cruz em Pombal/PB
Por José Romero Araújo Cardoso

Importante trabalho literário que prima pelo resgate histórico, realizado pelo escritor e poeta Jerdivan Nóbrega de Araújo, concretizou-se quando do lançamento de livro intitulado de O Crime da Rua da Cruz.

Nos idos do ano de 1883 a pequena cidade de Pombal, localizada no alto sertão paraibano, foi convulsionada com a notícia de que na Rua da Cruz tinha havido um crime monstruoso, perpetrado por jovem inexperiente de nome Maria da Conceição.

A desditada sertaneja havia engravidado de outro, pois não obstante namorar pessoa da comunidade, mantinha secreto e tórrido romance, perfazendo triângulo amoroso que veio a se responsabilizar por tragédia inaudita.

Após parto realizado sozinha, de criança do sexo feminino, a pobre mulher sufocou a filha até matá-la, fato este observado por olhares curiosos despertados pelo choro de recém-nascido.

Denunciaram-na às autoridades locais e foi instaurado inquérito a fim de apurar as responsabilidades, as quais não tardaram em jogar a infeliz pombalense em fosso de ódios e intrigas.

Presa na cadeia considerada de segurança máxima na época, palco de estripulias de Jesuíno Brilhante, em um passado não muito distante dos fatos ocorridos no ano de 1883 na Rua da Cruz em Pombal,  Maria da Conceição enfrentou dos julgamentos, sendo absolvida no primeiro e condenada a três anos de reclusão no segundo.

A marca indelével dos preconceitos e estereótipos típicos de uma sociedade machista, e conservadora, assinalada por código de conduta extremamente severo, observa-se nos autos do inquérito instaurado a presença significativa de uma moral edificada através de um notório processo de submissão feminina que ainda tem representatividade de grande envergadura nos dias atuais.

Obrigada, através dos ditames e das consequências de um rígido código de conduta, a assassinar sua filhinha recém-nascida, Maria da Conceição enfrentou prova de fogo que foi além do imaginável, cuja documentação, descoberta pelo poeta e escritor Jerdivan Nóbrega de Araújo, não conseguiu dar a dimensão exata do sofrimento e dos suplícios físicos e psicológicos pelos quais passou a pobre sertaneja, vítima de fato de uma sociedade extremamente conservadora e intransigente em suas punições à maioria dos deslizes do gênero feminino, não obstante sabermos que a relação de atos com estamentação social possua vínculo estreito com a própria sugestão punitiva contida nas leis e na moral sertaneja.

Quantas vezes a pobre Maria da Conceição chorou dentro da cela úmida da cadeia de Pombal não é relatado na documentação, bem como não há nenhum registro sobre as torturas psíquicas que certamente sofreu em razão que foi levada a assassinar sua filhinha.

Quantas vezes a falsidade da sociedade pombalense, certamente possuidora de gente com pecados maiores que o cometido por ela, apontou-lhe o dedo julgando-a infame e indigna?

Ninguém poderá afirmar com exatidão se filhas de chefes políticos ou de figurões de projeção na sociedade daqueles tempos também não devam ter agido de forma semelhante à jovem Maria da Conceição, pois o poder se faz ator principal quando assuntos dessa natureza são aventados dentro da vida privada de famílias abastadas, independente da dimensão espaço-tempo.

Enquanto a Campanha Libertária Mosoroense coroada de sucesso em 30 de setembro de 1883, capitaneada pela gloriosa Loja Maçônica 24 de Julho, era enfatizada em prol da abolição da escravatura, jovem desafortunada enfrentava calvário indescritível no vizinho Estado da Paraíba.

Ênfase deve ser atribuída ao advogado da ré, o famoso professor Antônio Gomes de Arruda Barreto, cuja contribuição ao ensino em Mossoró foi bastante significativa a partir do ano de 1900, quando, a convite do farmacêutico Jerônimo Rosado, transferiu de Brejo do Cruz para Mossoró seu conceituado educandário.

Personagens com profunda relação familiar com Mossoró também integraram o rol dos atores constantes no processo, a exemplo de Francisco Ribeiro Rosado.

Dedicando seu brilhante trabalho literário a Maria da Conceição e sua desditada filha, a qual veio ao mundo sem a sorte dos demais, marcada pelo signo da desgraça, efetivada pela ausência de amor e de compreensão, Jerdivan Nóbrega de Araújo denota seu profundo humanismo, reconhecendo os erros da ré, mas qualificando-a também como vítima das imposições da crueldade e da falta de amor ao próximo, os quais ainda, infelizmente, são presenciados no cotidiano atual, assim como no passado, não obstante mais enfático no longínquo ano de 1883.

Resgate de grande e notável valor histórico-literário, a publicação de O Crime da Rua da Cruz referenda mais uma vez a incrível performance literária que vem notabilizando o escritor e poeta pombalense Jerdivan Nóbrega de Araújo como uma das maiores autoridades das letras.

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José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor-adjunto IV do Departamento de Geografia do Campus Central da UERN. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente.

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