O CRISTÃO E A POLÍTICA

13 jan 2017

Marinalva Freire da Silva

1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Quando ouvimos da Igreja “Não é lícito aumentar a riqueza dos ricos e o poder dos fortes, confinando a miséria dos pobres e tornando maior a escravidão dos oprimidos” (Pop. Prog. N° 33) é que nos debruçamos na reflexão teológica, na perspectiva de entender a inferência da mensagem salvífica, na realidade social e política onde vivem os homens, evidenciando o Reino de Deus, instalado por Jesus Cristo que busca a sua planificação.

De início, contextualizamos a reflexão teológica capaz de favorecer a relação entre a salvação escatológica que se antecipa nas salvações parciais e históricas, referência que aponta a teologia da libertação como a postura epistêmica de refletir o político à luz da fé. Em seguida, buscamos a relação religião-política fundamentando a reflexão na atitude do Jesus histórico e o Jesus da fé, que se constituiu, de uma vez por todas, pedra angular da Igreja e razão frontal do cristianismo.

Esperamos, portanto, poder proclamar que não há contradição para o cristão no engajamento histórico da fé cujas consequências são a implicabilidade sociopolítica. E, por isto mesmo, evidenciam que a esperança e a certeza cristã não se esgotam na história, mas sem prescindir dela, apontam e buscam a escatologia.

2 DEUS E O HOMEM

O homem é o ponto de partida para o fenômeno religioso. A criação de Deus, da fala de Deus, por isso, o homem não Pode parar nela, não deve estagnar aí nem endeusá-la. Deve, sim, dar graças ao criador de esmerada beleza porque também somos a criação. Se assim imaginarmos, chegaremos ao sagrado, ou pelo menos, dele, próximo dele, próximo de Deus.

Vários são os caminhos que nos conduzem a Deus, ter o cuidado na escolha, os mais fáceis são perigosos.

Todo cristão deve assumir um comportamento se sabemos que este assumir implica uma série de questionamentos, por exemplo, uma catástrofe que resulta vários mortos e feridos graves, muita perda humana e material, pode desencadear muitos questionamentos e abalar a fé, a crença em Deus. Mas dizer-se que esses fenômenos naturais não dependem de nós, seria ter um Deus ex-máquina e omitir-se da cumplicidade. O nosso compromisso é, pois, viver a nossa fé a serviço do homem, por estar a serviço do Reino e, a serviço do Reino por estar a serviço do homem.

Sabemos que Deus, que é tão bom não criou o mal. Este é fruto do pecado. A criação é um ato divino, o que significa dizer que a criação humana é a expressão da proximidade de Deus -” façamos o homem a nossa imagem e semelhança”.

Assim, a criação revela a Deus. Este escolheu um povo para estabelecer uma aliança – o povo de Israel. Essa aliança estende-se até a libertação da Escravidão no Egito, sendo selada com um juramento da parte de Deus e do povo. Israel ocupa um espaço humano muito pequeno no âmbito das culturas, das civilizações, dos grandes impérios, dos povos. Mas Deus também se comunica com outros povos, pois as grandes religiões revelam a face de Deus.

E no contexto das diversas aproximações históricas de Deus, Jesus Cristo, que é a plenitude da Revelação, é a chave explicativa de todas as demais aproximações de Deus.

Quanto ao encontro do homem com Deus ocorre através da fé totalizante, dá-se pelo coração, para o que se faz necessário que o homem despoje-se de sua cultura -“deixa tudo e segue-me”. O curioso é que Deus está no início do encontro. Mas exige do homem que sua experiência religiosa passe por três atos. O primeiro, representado pelo homem que, partindo de suas experiências de encantamento frente às maravilhas do mundo, caminha em direção a um sentido radical que lhe dê inteligibilidade a estas experiências. O segundo, representa o caminho de Deus, aproximando-se do homem, através da obra da criação a qual se estende até a entrega do seu Filho Jesus Cristo, para a humanidade. O terceiro, é o reconhecimento por ambas as partes mútuo caminho.

Sabemos que o homem é o ponto de partida para o fenômeno religioso. Mas o homem moderno, na sua inquietude, na ânsia de aventuras, de novas descobertas, na busca incessante do desconhecido, vive entre a rejeição e a busca do religioso. Esta busca só ocorre através da fé. É preciso encontrar o sentido da vida por meio da beleza, da criação, pois a criação fala de Deus. E Este se revela através da História. A fé não é cega, faz ver .Na fé, realmente, é possível conhecermos o outro, e sem ela, o mundo será realmente um caos.

Vivemos num país de tradição religiosa cujo binômio batismo/matrimônio tem sido o sustentáculo desta tradição, o que significa dizer que a busca do sagrado sob o ponto de vista cultural realiza-se a partir do esplendor da Criação. Mas várias são as conjeturas nascidas a partir da problemática existencial, Por exemplo, as experiências da morte, as catástrofes que provocam muitos danos humanos e materiais, levam o ser humano a questionar sobre a existência ou a bondade de Deus, ou seja, tudo isso provoca um abalo na fé. É para que o homem não perceba que o mal ocorre por conta do pecado. E o homem moderno, na concepção ao Papa Pio XII, perdeu o sentido do pecado, sendo esta perda considerada grande pecado, porque ele vive angustiado, buscando consultórios para terapias psicanalíticas, tomando antidistônicos para poder dormir, falta-lhe o essencial, a paz espiritual, que é encontrada na fé. Na sociedade atual, as pessoas não encontram uma visão total, mas parcial, não encontram uma visão totalizante, falta-lhe, portanto, sentido global. Assim, ela tem por neurose maior a falta de sentido global ou parcial.

Então, surgem as perguntas: como encontrar a Deus? Onde Ele nos fala?

-Claro que é por meio da consciência, “a voz da consciência”.

-Como se dá o encontro com Deus?

Dá-se de várias formas, entre as quais:

1º) Indo ao encontro do nosso irmão, como Jesus Cristo nos ensinou.
2°) Através da oração no silêncio do nosso coração.

3°) Através da leitura da Bíblia, que é uma leitura histórica, e Deus nos fala pela história, por exemplo, a passagem do Mar Vermelho, o Dilúvio, a história de Jó (que implica retribuição, diálogo de Deus), Deus feito homem = Jesus Cristo (que é um novo olhar), não foi recompensado pela bondade, o que implica a Ressurreição.

Deus se revela. Mas se revela na Cultura. Se esta está fechada, também fechada está a lei. Após os 40 anos de exílio, a fé do povo se transforma em conteúdo, mas este vai depender de como o povo se conduziu no Egito.

A sociedade com toda a sua estrutura precisa mudar devido aos defeitos antropológicos. Faz-se necessária uma conversão. E para nos convertermos, precisamos assumir algumas atitudes diante de Deus e dos homens, diante o Sagrado e o mundo, o que vai inferir politicamente na vivência do Reino de Deus.

Se firmarmos um compromisso com o social, com os oprimidos, pois Jesus veio para estes, vive-se o Reino e a atitude bipolar da fé. E uma religião sem este compromisso com o social, não tem sentido. Precisamos, portanto, ouvir a voz de Deus, abrindo-nos para recebê-lo, despojar-nos para a plenitude do encontro através da Ressurreição. E o continente em que vivemos repete o martírio dos Macabeus, nos sentir nos oprimidos da América Latina. Nesse sentido, as CEBs tornaram-se verdadeiro sacramento de Deus e da mensagem da salvação (LIBÂNEO, 1994).

Portanto, são inúmeros os caminhos na nossa decisão firme de ajudar os necessitados, despojando-nos de todos os tabus que nos denigrem, na esperança do reencontro com Deus através do seu amado Filho Jesus, por meio da fé, num processo de renovação contínua a fim de alcançarmos a real felicidade, que repousa na Salvação.

2.1 A consciência moral

Vimos que o encontro de Deus com o homem realiza-se de várias maneiras, sendo a primeira delas, através da fé que implica uma tomada de decisão, aceitação, ou rejeição, pois o homem, sendo feito à imagem e semelhança de Deus, é dotado de inteligência e criatividade, o que lhe permite interpretar o fenômeno religioso que resgata o processo histórico desde a criação até a ressurreição. Mas para o cumprimento desta caminhada, várias foram as exigências pelas quais o povo oprimido passou.

A consciência moral é um complexo de sensibilidade moral, de núcleo de valores que constituem a moral objetiva e responsabilidade subjetiva, isto porque ela identifica-se com o “sentido moral”, é a concretização dos valores morais e implica responsabilidade subjetiva no comportamento moral.

A consciência moral cristã, conforme Vidal (1993, p.77) , é a implicação do sujeito moral no processo moral, por causa dela, o sujeito fica afetado moralmente e, por sua vez, o processo moral fica matizado por esta intervenção.

A consciência moral cristã implica, necessariamente, ter Fé, ou seja, implica elaborar-se em momento teológico de viver, de agir, e exige, portanto, autenticidade na práxis.

A moralidade reside nos atos, desde que tudo esteja voltado para a opção fundamental. Mas, como é possível se ter uma opção por Cristo se se nega Cristo em uma determinada atitude de vida, por exemplo, no aspecto econômico? O agir da opção fundamental por Cristo encerra-se em atitude e exterioriza-se em atos. E a opção fundamental é o núcleo causador de todo dinamismo moral que se irradia por todas as partes. É uma escolha que a pessoa faz de seguir a Cristo com autenticidade, assumindo, assim, uma atitude de cristão baseado na fé que, segundo o Prof. Rui Dantas, deve derivar-se da opção fundamental porque vem do coração.

No agir cristão, a opção fundamental, que tem de manifestar- se por atitudes banais, há de expressar-se em atos, isto é, “agir” inteligentemente “ou errar grosseiramente”.

A questão moral tende a transformar os costumes. Deve levar em consideração os condicionamentos atuais do homem, único animal ético e religioso, pois ele é história do eterno. A nossa Contemporaneidade caracteriza-se por uma crise profunda dos conflitos humanos, uma crise ética e ou crise de sentido.

Nesse sentido, para Vaz (apud DANTAS), uma civilização que se entrega aos meios, esquecendo primordialmente os fins, só pode ser uma civilização como a atual, um corpo gigantesco com uma alma pequena.

Numa sociedade como a nossa, os homens não encontram uma visão total, mas parcial, falta-lhes o sentido global, o que os leva à neurose, provocada pela falta de um fim na caminhada. E este fim é para quem tem fé, quem crê em Deus, o Absoluto.

O ser humano, conforme a cultura na qual está inserido relaciona-se com a natureza e transforma o mundo (transformando-se). O homem atual está mergulhado numa sociedade de consumo que o aliena. A configuração sociocultural abusa do senso ético; daí a preponderância deste tipo de pluralismo dissolve e estabelece as normas sociais e culturais. E a norma crítica é denotada pela dimensão ética.

Mas a opção fundamental, que implica atitudes e, consequente, atos, poderá ser cancelada devido à liberdade, por ser esta a experiência típica do ser humano e através da qual a experiência da existência.
Vale destacarmos que não somos apenas o eu, somos o mundo. E Deus nos fala por meio da consciência, “da voz da consciência”. Somos por natureza questionadores. Deus nos deu a liberdade de escolha porque, na sua Plenitude de Amor, Bondade e Misericórdia jamais nos obrigam a amá-lo. E é justamente nesta liberdade de escolha que o homem se desvia do Amor de Deus, o que resulta o mal.

Mas o mal não é criação de Deus porque ele é Vontade e Inteligência Suprema, é Amor. O mal é o resultado da rejeição do homem à Lei de Deus, ao amor do Pai. Deus é o Bem. O Bem não é igual ao mal, se assim o fosse, não tinha sentido a liberdade. Tudo é permitido ao homem. O “mal” está no excesso, está em ele ver, desfrutar de tudo o que é permitido como sendo em fim em si mesmo.

Por conseguinte, a consciência moral é a norma (interiorizada) da moralidade através da qual passam todos os valores morais da consciência humana. É uma norma interiorizada de moralidade à medida que o homem se relaciona com Deus (objetivo máximo) porque recebe as complicações existentes no próprio ser, para o que se faz necessário a fé, por ser esta uma opção fundamental do ser humano, fruto da liberdade recebida, a fim de que o mesmo participe do Reino de Deus.

É justamente esta consciência ético-cristã que serve de respaldo espiritual para nos adentrarmos no contexto da emergência Teológica, numa tentativa de resgatar a dignidade cristã e conscientizar o nosso próximo da necessidade de refletir sobre a política esmagadora do capitalismo que tanto escraviza a humanidade e, assim fazendo, mantém o Cristo crucificado, esmagado, humilhado, comprometendo, por conseguinte, o momento salvífico.

3 CRISTIANISMO E POLÍTICA

Compreendendo que o cristianismo é a expressão comunitária da fé em Jesus Cristo, ele traz, como comunidade, as marcas de uma sociedade visível, organizada e atuante. Ele é portador do mistério da salvação do homem todo e de todos os homens trazida por Jesus Cristo ao mundo. Sua missão é a de fazer transparecer esse mistério e re- velar ao mundo os planos divinos, esforçando-se por levá-los à sua plena realização.

Neste afã do cristianismo, a salvação, que esperamos na fé, visa ao homem todo e à comunidade dos homens. Ela não aponta apenas para um futuro distante e incerto, mas para a vida presente e para um futuro certo. Com efeito, o Reino instaurado por Cristo já está em ação, e a Igreja é a portadora dessa realidade invisível, mas nem por isso menos concreta (CNBB, 1974, Pp. 26-28).

Não se pode prescindir de que a práxis cristã passe pela práxis sociopolítica como foi a comunidade primitiva; os apóstolos diante das autoridades judaicas (At. 4,5-22; 5,17-40): a proibição de pregar, Pedro responde que é necessário obedecer antes a Deus do que aos homens.

Entretanto, a responsabilidade cristã deve insofismavelmente considerar a situação na qual e para qual procura responsabilizar a fé como esperança. Isto haverá de ser no momento algumas características do mundo com os quais hoje se relaciona a nossa responsabilidade, depois tentar juntar as determinações individuais à compreensão do mundo e da realidade que orienta a posição tecnológico-político- planificadora do futuro (METZ, 1976, p.143-158). Considerando-se a realidade do Brasil (CNBB, 1974), a missão que cabe à Igreja frente ao Estado, é clara:

-deve dar ao Estado tudo o que for necessário para sua existência. Deve combater todo anarquismo e todo zelotismo de suas fileiras;

-deve cumprir diante do Estado a função vigilante, isto é, permanecer, por princípio, crítica diante de todo Estado e preveni-lo para que não transgrida seus limites, ante à direção da injustiça;

-deve negar ao Estado quando ultrapassar seus limites o que este dela pede no terreno da transgressão religioso-ideológica e deve qualificar esta transgressão, corajosamente como contrária à divindade.

Em suma, a Igreja cumprirá esta missão, (fé e política), se permanecer fiel à posição escatológica fundamental do Novo Testamento.

4- CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em se considerando o inerente da teologia do político, cujos matizes estão na revelação trazida por Jesus Cristo, não há contradição entre o binômio fé-política e Reino de Deus.

O Reino só se faz experimentar na realidade concreta de homem e deste em comunidade histórica sócio-política. Esta compreensão fundamenta-se na própria consciência explicitada no prólogo do Evangelho de São João, onde o verbo encarnado radicaliza, em definitivo, a historicidade de Jesus e do Reino de Deus.

Cabe, contudo, salientarmos que, enquanto não se superar o dualismo metafísico, há muito inferindo na reflexão tecnológica, não se poderá compreender as implicações políticas de fé e nem a missão de tornar a história sócio-política dos homens em história da salvação.

REFERÊNCIAS

BIBLIA SAGRADA. São Paulo: Paulinas, 1990.

CONCLUSÕES DE PUEBLA. São Paulo: Paulinas. 1979.

CNBB. Igreja e Política: subsídios teológicos. 2 ed. São Paulo: Paulinas, 1974.

______. Exigências Cristãs de uma ordem política. São Paulo: Paulinas, 1991.

JEREMIAS, J Jerusalém no tempo de Jesus. São Paulo: Paulina, 1983.

LIBÂNEO, João Batista..Deus e os homens; os seus caminhos. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 1994

METZ, J. B. Teologia do Mundo. Rio: Morais, 1969.

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