O DIA AZIAGO DA SUPERSTIÇÃO SERTANEJA

4 fev 2017

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Por José Romero Araújo Cardoso

(Conto laureado com Menção Honrosa no Resultado final do Terceiro Concurso de Crônicas, Contos e Poesias “João Batista Cascudo Rodrigues” – Versão 2016 – Promoção: Academia Mossoroense de Letras – AMOL).

Pedro macambira acordou sobressaltado na alta madrugada sertaneja, despertado com o canto insistente e fora de hora do galo magricela que imperava célere no terreiro de sua tosca e humilde casinha de taipa, construída com material encontrado por ali mesmo, naqueles carrascais perdidos no meio da caatinga desolada e cinzenta devido à ação implacável da seca inclemente que há mais de dois anos castigava o semiárido, a qual, para infelicidade dos povos interioranos, tinha seus efeitos repercutidos em áreas antes relativamente livres das estiagens com as quais acostumara-se a enfrentar nesses cinquenta e dois anos de vida sofrida, quase dez ao lado da família que formara.

Aves noturnas contribuíram para fustigar mau presságio em seu imaginário sertanejo, pois bem no alto da tosca chaminé de onde saia a fumaça preta exalada do fogão à lenha, mantido aceso em fogo brando, pousou desafiante rasga-mortalha, a qual passou a emitir sons estridentes que imemorialmente causam arrepios no supersticioso povo do sertão.

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Na tarde do domingo, dia primeiro de agosto, assombrara-se com o lamento contínuo de uma acauã que parecia fitar os raios solares, como a invocar lhes a crestar ainda mais as veredas adustas do sertão calcinado pela seca que a cada dia se tornava mais insuportável.

Um engordurado calendário pendurado na parede de barro, recebido como brinde do dono da única farmácia da cidade, quando fora no início do ano comprar remédios para tentar curar as bicheiras dos meninos, estava preso por um prego enferrujado. Pedro havia assinalado em forma de circunferência o dia dois de agosto, primeira segunda-feira do mês considerado no sertão como de desgosto.

É um dia encarado como aziago na tradição do sertão, fruto de experiências passadas de geração a geração, com o qual, segundo os antepassados, precisa-se ter cuidado, respeitá-lo quanto ao que diziam os antigos, no que se refere aos seus significados e mistérios. No linguajar matuto, dia aziago tornou-se dias e águas, fomentando enigmas e divagações metafísicas.

Água suja e salobra, recolhida a duras penas de uma cacimba quase seca, localizada a dois quilômetros de sua humilde tapera, foi despejada de um balde em uma bacia plástica que conseguiu comprar na feira da cidade. Molhou o rosto e foi acordar Maria de Eulália e os dois meninos – Lucas, de cinco anos e Raimundo, de sete.

Precisava estar bem cedo no meio da caatinga para tentar retirar a macambira que serviria para ganhar alguns trocados, vendendo-a para que filhos de pessoas mais afortunadas se divertissem fazendo gaiolas para manter cativos inocentes e desditados cabeças-vermelhas, assuns-pretos, pomba-rolas e outras aves encontradas a duras penas na região.

A fome atroz passada em secas passadas fê-lo experimentar farinha de mucunã a fim de mitigar a carência nutricional. Foi uma experiência terrível, pois a química venenosa contida na semente quase o levara a óbito. Ficou a certeza que nunca mais repetiria a dose e nem tampouco ofereceria mucunã para sua família provar. Essa promessa foi feita aos pés da imagem do Senhor São José quando, em leva de retirantes, passavam em uma cidade perdida nas quebradas do sertão.

Ninguém conhecia naquelas bandas Pedro Bento de Sousa, seu nome de batismo, mas Pedro macambira, sim, em razão que foi a esse ofício, retirar e comercializar macambira, ao qual se dedicou com afinco desde quando chegara por ali na tentativa de fixar-se com a família na condição de moradores.

Lenha para fazer carvão era algo fora de cogitação. O patrão havia proibido o corte de qualquer árvore. Esse era um privilégio dele. A venda da madeira era feita na cidade, pois, construtores de casas e a única padaria que existia, compravam parte da vegetação retirada da fazenda. Destinava, ainda, fração do material lenhoso para consertos de cercas.

Como o tempo mudou, pensou Pedro macambira. Há menos de dez anos o terreiro estava cheio de passarinhos, de todas as espécies. Hoje, encontrarmos um de uma única espécie é um trabalho duríssimo. O homem não vem respeitando a natureza, por isso estamos vivendo nessa solidão, sem o canto dos pássaros para nos alegrar.

Passando o café em um coador desgastado, adoçando-o com rapadura preta, Maria de Eulália acompanhou discretamente as reflexões silenciosas do esposo, convicta, não precisava perguntar, que giravam em torno do dia considerado um entre tantos de maior respeito dentro das superstições contidas nas tradições sertanejas.

Como fazer para retirar a macambira sem usar algum artefato de metal? Como manter firme os ensinamentos dos meus pais e avós se tenho que garantir alguns trocados para o sustento da minha família durante a semana? Indagava Pedro macambira a si mesmo. A agricultura não prospera por causa da seca. Não temos condições de mandar cavar um poço e termos água para abastecer a casa, irrigar a plantação e saciar nossa sede e a dos animais. Vivemos de favores na terra dos outros, o patrão só vem aqui em casa quando é para mandar fazer alguma coisa para ele, não nos ajuda, vive como um rei, onde não falta nada nas terras que planta e cria gado, domínios extensos que fazem lembrar as histórias medievais que os cantadores de outrora difundiam no sertão carente de informações. Para o pobre só resta lutar para sobreviver e pedir a Deus para mandar melhores dias, por que aqui na terra a ganância fala mais alto e não há solidariedade de forma alguma, a fomentar a união entre as pessoas.

Por falar em patrão, o barulho de um possante motor de caminhonete foi notado, vindo na direção da casinha de taipa da sofrida e morigerada família sertaneja. Era o senhor de baraço e cutelo, dono das terras e da vida, vindo ordenar que um serviço fosse feito com urgência até o fim do dia.

Uma árvore frondosa do semiárido, uma cajazeira, havia crescido em direção a uma trifásica de alta tensão que trazia energia de Paulo Afonso para iluminar a cidade, pois luz elétrica ainda não tinha beneficiado boa parte da zona rural. Quando os galhos se tangenciavam com os fios causavam descargas descomunais que estavam pondo em risco as vidas dos valiosos animais dos rebanhos do dono das terras do sem fim onde Pedro Macambira e sua família eram moradores.

Planta de crescimento rápido, atingindo mais de vinte metros de altura, a cajazeira possui raízes profundas que facilitam a absorção de água pela planta. Tubérculo geralmente existente nas extremidades de suas raízes era utilizado, quando das grandes secas, para o fabrico da farinha. O cosmopolitismo tropical é uma das características de sua ocorrência. Na Amazônia é conhecida por Taperebá, enquanto nos Estados sulinos conhecem-na por Cajámirim.

Maria de Eulália sentiu um frio na espinha quando a voz gutural do homem mau encarado à sua frente ditou as ordens de forma irresoluta, pois, para cortar os galhos ressequidos, tenebrosos e desafiadores da cajazeira, seria necessário fazer uso de algum artefato metálico, como uma foice.

Lucas e Raimundo, sem entender direito o que se passava, notaram que uma lágrima rolava da face sofrida da genitora, enquanto Pedro macambira, empalidecido e quase sem voz, retrucava ao patrão que o dias e águas era uma data temida e respeitada pelo seu povo. Seria uma blasfêmia usar qualquer instrumento de metal naquele dia especial de reserva milenar naquela superstição presente na tradição sertaneja.

Acostumado a ditar ordens e ser obedecido prontamente, o patrão quase teve um ataque de loucura diante das ponderações do casal à sua frente. Berrou que respeitassem sua barba grisalha e que Pedro fosse cumprir o que havia determinado, sob pena de serem expulsos daquela terra o mais rápido possível.

Lembranças de aflições inenarráveis vieram-lhes à mente, pois vagavam feito almas penadas pelas quebradas do sertão, buscando criar a família que Deus lhes deu. A fixação como moradores foi muito difícil. O patrão não queria consentir que gente vinda de longe ocupasse suas terras, mesmo sendo um inexpressivo pedaço de chão.

Batendo com força a porta do veículo, o arrogante senhor absoluto, expressão maior da sociedade sertaneja agropastoril arcaica e patriarcal, definiu sua intransigência com relação ao cumprimento da ordem dada ao humilde roceiro. A tradição não interessava, mas tão somente a neutralização da ameaça que punha em perigo os seus rebanhos.

Definida a ordem de tarefas, Pedro priorizou a luta para encher a barriga da família. O patrão havia dito que esperava até o fim do dia, então que esperasse. Enfiou o surrado chapéu de couro na cabeça, enrolou a funda, dando uma volta em sua cintura, encheu o cantil com água suja e barrenta e dentro do alforje colocou três pedaços de rapadura preta para minimizar a fome, tomando o rumo de um serrote arisco e cheio de percalços, onde sabia existir macambira em abundância.

No caminho notou que os efeitos da seca e da ação do homem estavam se concretizando de forma agônica. Os animais com os quais acostumara-se a caçar em suas caminhadas, principalmente quando para extrair macambira, não eram encontrados com facilidade. Quando conseguia visualizar um tejo ou um mocó, estes eram tão rápidos que ficavam logo distante da sua pontaria.

Arma de fogo era um privilégio que não possuía. Não tinha dinheiro para comprar pólvora e chumbo, não obstante saber perfeitamente como fabricar artesanalmente uma espingarda bate-bucha.

Ao chegar no serrote, notou a abundância de macambira, embora o problema para retirá-la estivesse no respeito à tradição sertaneja que diz, com relação ao dia aziago, não ser recomendável o uso de instrumentos metálicos.

A primeira tentativa de retirada da macambira sem uso de instrumento de metal revelou-se sofrível. O espinhos da macambira logo penetraram na áspera pele do sertanejo. A macambira, escolhendo caprichosamente fendas entre pedras para nascer e se desenvolver, mostrou-se desafiadora ao senso comum.

Arrancá-las com as mãos nuas tornou-se um dos maiores suplícios já enfrentado pelo heroico filho das caatingas. A busca por melhor qualidade de vida para sua família, no entanto, falava mais alto e a cada tentativa aumentava-lhe a nobreza de espírito a ponto de fazê-lo esquecer as dores lascinantes, resultando em relativo sucesso que garantiu-lhe certa quantidade de talos da bromeliácea.

Sangrando bastante as mãos e os pés, Pedro desceu o serrote com os seus troféus, os quais renderiam uns bons trocados que permitiriam a compra de um pouco de querosene e um tanto de mantimento no barracão mantido pelo patrão na sede da fazenda.

Trazia consigo a certeza que a tradição passada de pai para filho não tinha sido quebrada. Não havia utilizado instrumento de metal no dias e águas para retirar a macambira que serviria para mitigar um pouco dos infortúnios de sua existência e a da sua família marcadas pelas secas e pelas humilhações terrenas.

Sedento e faminto, colocou um taco de rapadura na boca e passou a mastigá-la bem devagar, tomando alguns goles da água suja e barrenta a fim de facilitar a degustação do doce sertanejo.

Passavam das três da tarde quando Pedro chegou em sua moradia. Maria de Eulália, aflita, com Lucas e Raimundo segurando-lhes a barra da saia, recebeu o marido com ar espavorido. O dono da terra, na ausência do esposo, tinha vindo reiterar a ordem referente à urgência na poda da cajazeira.

Disse-lhe que o patrão tinha gritado e ameaçado, jurando expulsar a família caso o serviço de corte da árvore não fosse feito até as quatro horas da tarde. Não queria mais perder nenhum boi gir ou zebu ou um caprino boer por causa das descargas da alta tensão quando os galhos da cajazeiras batiam nos fios. O serviço, tinha esbravejado o insensível homem, conforme Maria de Eulália relatava a Pedro, tinha que ser feito por ele.

Esmorecido e cansado, Pedro sentou-se num banquinho de aroeira e pôs-se a meditar sobre a situação, sendo despertado pela razão, pois o tempo corria e até as quatro horas tinha que cortar os galhos da sinistra cajazeira, sob pena de perder o abrigo temporário conseguido com muita luta.

No velho baú estava guardada uma foice que levava em seus deslocamentos pelas veredas da terra do sol. Fitou-a durante alguns minutos e retirou-se do local onde a guardara, segurando firme o cabo de imburana, entrando em uma espécie de transe emocional, condicionado pelas bases morais de suas tradições e crenças.

Despediu-se de Maria de Eulália e dos meninos e foi cumprir sua sina, seu destino sempre marcado por tragédias inenarráveis e sofrimentos atrozes que poderiam ser evitados, caso a responsabilidade humana fluísse harmonicamente.

Deslocou-se até o perigo representado pela cajazeira ameaçadora que tangenciava seus galhos com os fios da alta tensão. Ventava bastante e um leve toque de algumas das partes do vegetal na eletricidade violenta fez com que fagulhas se espalhassem pelo chão, indicando o iminente.

Não sentia medo, pois não era homem para tremer nas bases, mas aquilo tudo representava uma afronta ao que seu velho pai sempre lhe dizia, para respeitar a primeira segunda-feira do mês de agosto, o dia aziago, quando trabalhar com instrumentos de metal poderia ser fatal.

Pensativo, ficou algum tempo perguntando a si mesmo de onde vinha a tradição de respeitar a primeira segunda-feira do mês de agosto. De quem teria sido a ideia? O pai e o avô tinham manias estranhas, bem como a mãe e a avó. Os antepassados ficavam no terreiro, principalmente em dias de sexta-feira, esperando aparecer a primeira estrela, enquanto as matriarcas não ousavam varrer a casa passando o lixo pela porta da frente. De que povo herdaram isso? Refletia Pedro de forma enigmática. Embora analfabeto, era muito inteligente.

Parou de imaginar as coisas e começou a buscar dentro de si mesmo a coragem necessária para concretizar o desafio às suas tradições, invocando toda fé possível e imaginável para que não caísse em emboscadas do destino, como bem apregoavam os antigos.

Subiu na frondosa árvore e começou a cortar os primeiros galhos. Algo de sobrenatural aconteceu em seguida, pois quando tentava cortar partes menos ameaçadoras, a foice fora arremessada longe, como se uma mão invisível estivesse a protegê-lo, adivinhando que uma tragédia estava sendo anunciada.

Escorado no tronco da cajazeira, Pedro chorou copiosamente, imaginando que aquilo, na verdade, seria a intervenção do seu pai falecido há décadas, querendo poupá-lo de algo terrível.

Despertado para a realidade, a qual envolvia as condições de vida de sua família, Pedro desceu do pé de cajazeira, recolheu a foice misteriosamente arremessada no chão crestado e novamente voltou ao desafio.

Nova ventania e os galhos voltaram a tocar a cajazeira com Pedro em cima da árvore. Fagulhas cobriram-lhe por inteiro. Não sentiu medo, mas que era algo tenebroso, isso era, com absoluta certeza.

À proporção que Pedro escalava a cajazeira, o perigo aumentava exponencialmente. Partes fumegantes começavam a deixá-lo com náuseas, mas não havia condições de retornar, tudo estava traçado, tudo estava selado.

O galho mais sensível foi alcançado. Pedro começou o corte deste, concluindo-o heroicamente, embora tenha vergado sobre a alta tensão, fulminando-o instantaneamente.

Chegava ao fim a existência do bravo sertanejo que, instigado pela ganancia e falta de solidariedade, fora obrigado a desafiar o rigor instituído pela tradição no que diz respeito ao dia consagrado aos mistérios que envolvem uma construção coletiva realizada em bases evocativas que remontam ao milenarismo das crenças dos antigos colonizadores.

Conto laureado com Menção Honrosa no Resultado final do Terceiro Concurso de Crônicas, Contos e Poesias “João Batista Cascudo Rodrigues” – Versão 2016 – Promoção: Academia Mossoroense de Letras – AMOL

José Romero Araújo Cardoso (Mini Currículo):

Geógrafo (UFPB). Especialista em Geografia e Gestão Territorial (UFPB-1996) e em Organização de Arquivos (UFPB – 1997). Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (2002). Atualmente é professor adjunto IV do Departamento de Geografia/DGE da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais/FAFIC da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte/UERN. Tem experiência na área de Geografia Humana, com ênfase à Geografia Agrária, atuando principalmente nos seguintes temas: ambientalismo, nordeste, temas regionais. Espeleologia é tema presente em pesquisas. Escritor e articulista cultural. Escreve para diversos jornais, sites e blogs. Sócio da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC) e do Instituto Cultural do Oeste Potiguar (ICOP). Membro da Associação Mossoroense de Escritores (ASCRIM).

romero.cardoso@gmail.com

FONTE: http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/2016/11/o-dia-aziago-da-supersticao-sertaneja.html

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