O Fim do Mundo

15 mar 2013

O FIM DO MUNDO

Sentada, tranquilamente, na confortável cadeira da cômoda, em frente ao espelho, no seu quarto, Ana Flávia dá os últimos retoques na maquiagem cuidadosamente aplicada. Contorna, pacientemente, os lábios com lápis marrom escuro, o que ressalta o verde dos seus enormes e expressivos olhos.

Olhando-se no espelho, um sorriso aflora nos seus lábios ao lembrar-se de que seu aniversário é amanhã, dia vinte e um de dezembro de dois mil e doze. Motivo pelo qual os amigos prepararam a comemorarão para um dia antes, haja vista as previsões dos povos maias, que sugerem que o fim do mundo será justamente no dia 12 de dezembro de 2012.

Continua sorrindo diante do espelho, pois constata que este foi o assunto do ano. Quer seja nas redes sociais, nos meios de comunicação de massa, nas mídias, e até mesmo nas rodas de conversas, entre amigos, nas calçadas, nas escolas, nas praças, nos restaurantes e bares. O fato é que este fora o comentário do ano: O FIM DO MUNDO SERÁ NO DIA 12 DE DEZEMBRO DE 2012.

Tanto é verdade, que ela mesma resolvera ler sobre o assunto. Leitura que terminou em verdadeira pesquisa, pois buscou opinião de filósofos, esotéricos, cientista, historiadores e religiosos.

O sorriso se alarga quando ela pensa que falta de sorte a sua se essa previsão fosse verdadeira, já que não encontrara ainda o grande amor de sua vida, não plantara uma árvore nem escrevera um livro. Ainda bem que esse não era um fato, uma verdade, mas uma teoria, uma previsão.

A abertura do Jornal Nacional na televisão a traz de volta a realidade, com a chamada sobre o mais novo escândalo político e econômico no Brasil: A Operação Federal denominada Porto Seguro. Ouve atentamente o noticiário, até que leves batidas na porta do quarto chamam sua atenção:

– Já está pronta, pergunta sua prima.

– Quase, entre.  Responde Ana Flávia, ficando de pé em frente ao espelho. Observa-se atentamente. Um ar melancólico surge no seu rosto. A prima pergunta-lhe:

– Essa tristeza repentina é medo do fim do mundo, amanhã, priminha¿

– Ana Flávia abre um enorme sorriso, dizendo:

– Que é isso, menina. Não vou acreditando em tudo que saem dizendo por aí não. Aprendi lendo, pesquisando que essa previsão surgiu a partir da interpretação dos calendários dos maias, que somente contabilizaram a existência do planeta Terra  até o que seria nos tempos de hoje, a data do dia 21 de dezembro de 2012.

– E não para por aí não, viu prima, diz Ana Flávia.

– Tem mais é, minha querida. Pergunta Fátima.

– Tem sim, responde Ana Flávia, li também que o professor Alexandre Navarro, que é especialista em cultura maia, na Universidade Federal do Maranhão, desmente que o calendário deste povo anunciasse o fim do mundo para o dia 21 de dezembro de 2012. Portanto, Fatinha, amanhã festejarei meu aniversário em dose dupla. Hoje é apenas uma prévia.

– sei não, tenho minhas dúvidas, viu, responde sua prima.

– Que isso, menina! Até o padre Antônio Aparecido, vigário episcopal para as comunicações na Arquidiocese de São Paulo afirmou que a data para o fim do mundo ninguém poderá prever, já que nas Sagradas Escrituras está escrito que Ele virá quando nós menos esperarmos, por isso é necessário que estejamos com a mesa pronta, com cada coisa em seu devido lugar. Segura, agora, pergunta Ana Flávia.

– Sei não, diz Fátima rindo muito.

Pronto, podemos ir agora, diz ela dirigindo-se à TV, para desligá-la. Porém para, ao ouvir a notícia bombástica:

“Duas semanas após sair do conforto do anonimato que lhe permitia operar tranquilamente, muito à vontade, nos bastidores do Poder, a ex-chefe do gabinete da Presidência, em São Paulo, Rosemary Nóvoa de Noronha, indiciada na Operação Porto Seguro, da polícia Federal, ainda é um pesadelo para a cúpula petista, uma vez que assustada com a possibilidade de ser abandonada por seus antigos padrinhos, Rose, como é conhecida pelos amigos, vem emitindo recados nada republicanos para alguns integrantes do governo e do PT.”

– Isto sim, é que é o fim do mundo: crimes políticos hediondos contra a nação brasileira, surgindo como gases mortíferos, asfixiantes; como fogo ardente em direção ao povo.

Vânia Rocha

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