O FUTURO QUE PASSOU

18 jul 2017

Não há quem não se deslumbre com a leitura do excelente título de Domenico De Masi, “O futuro chegou”, lançado pouco tempo faz. No capítulo que contempla o Brasil, o sociólogo empreende ampla e balizada abordagem que vai desde 1500, ano da chegada dos portugueses a estas terras, até 2013, ano em que conclui o primoroso ensaio.

Atém-se o autor ao que ele chama de “modelo brasileiro”. Ou seja, depois de 450 anos copiando o modelo europeu e de 50 anos copiando o modelo americano, o Brasil, finalmente, descobre seu próprio modelo. “O Brasil já se sente um país de ponta, capaz de propor mesmo ao exterior o próprio modo de ser e de servir como modelo alternativo de sociedade”, afirma o estudioso.

O estudo destaca os avanços celebrados nos últimos anos, principalmente com o advento da Constituição de 88 e, mais recentemente, com as políticas de redistribuição de renda e a consequente redução da pobreza. É apontada a extraordinária capacidade que tem o brasileiro de criar, inovar, adaptar-se, “dar a volta por cima”, nunca se curvando diante dos obstáculos e tudo encarando em ritmo de festa e otimismo.

É lamentável, todavia, que o Brasil destes dias não seja mais o Brasil descrito pela pena muitas vezes poética do sociólogo italiano, autor também de “O ócio criativo”. O Brasil destes dias é o Brasil do retrocesso, em que a cada semana um novo “pacote de maldade” é imposto ao povo. O Brasil que salta das páginas de De Masi é o Brasil da inclusão, da superação, do Pronatec, do Prouni, do Fies. É o Brasil da esperança. No Brasil destes dias – o Brasil do pós-golpe – o desemprego já beira a cifra dos 15 milhões e as estimativas apontam que até o final do ano 4 milhões de brasileiros retornarão à linha da pobreza. O Brasil destes dias é o Brasil do desmonte de conquistas históricas como as das políticas sociais e das leis trabalhistas. É o Brasil do ódio dos ricos contra os pobres. É o Brasil que volta ao comando do poder econômico e financeiro.

O Brasil destes dias certamente não servirá de modelo para ninguém.

jose goncalves

José Gonçalves

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