O grito contra a impunidade

16 maio 2013

Escreveu: Francisco Alves Cardoso – 16/05/2013

Hoje nós levantamos a voz com força total, combatendo a impunidade, mas na verdade essa praga vem de longe. No ano de 1963, Luiz Gonzaga e Nelson Barbalho lançaram uma das mais belas páginas do cancioneiro do “Rei do Baião”, intitulada “A Morte do Vaqueiro”, denunciando a impunidade num dos crimes mais cruéis daqueles tempos.

O Gonzagão diz na abertura da música que “Numa tarde bem tristonha, gado muge sem parar, lamentando seu vaqueiro, que não vem mais aboiar”. Ele falava da morte do vaqueiro primo, Raimundo Jacó, que foi barbaramente assassinado por uma pessoa amiga coberta de inveja pelo trabalho guerreiro que Raimundo realizava naquelas várzeas, na luta com o gado. Todos conheciam o matador, mas não tiveram coragem de denunciar, por isso o crime ficou impune a vida inteira.

Luiz Gonzaga relembra com sentimentalismo de solidariedade, numa das estrofes da sua música: “Sacudido numa cova, desprezado do Senhor, só lembrado do cachorro, que inda chora a sua dor”. Segundo relatos fiéis de pessoas da região do Exu, o cachorro morreu ao lado da cova do patrão, mesmo levado para a casa por amigos de Raimundo, o cão voltava para o local do crime e lá ficou até a morte de fome e sede.

Com esse documentário real de Luiz Gonzaga, através da música “A Morte do Vaqueiro”, provado está que a impunidade grassa de longos tempos, muitas vezes pela covardia do povo que não tem a coragem de denunciar os fatos, como aconteceu na morte de Raimundo Jacó.

Depoimentos de pessoas ligadas ao “Rei do Baião” deixam claro que ele morreu revoltado com a impunidade na morte do seu primo, pessoa da sua maior estimação. Raimundo era considerado o melhor vaqueiro daqueles tempos no sertão pernambucano, com especialidade nas terras do velho Exu.

Ele criou a “Missa do Vaqueiro”, uma das maiores e mais prestigiadas festas culturais do Brasil, para lembrar eternamente o primo amigo, e cantou num verso da sua canção: “Bom vaqueiro nordestino, morre sem deixar tostão, o seu nome é esquecido, nas quebradas do sertão”.

Sempre Luiz Gonzaga escrevendo a história real do Nordeste brasileiro, e nós seus seguidores eternizando o seu cancioneiro com amor, respeito e dizendo com ele: “É demais tanta dor, a chorar com amor”.

Comentários